Crítica | Viagem ao Planeta Proibido

estrelas 2

Exemplo clássico da enxurrada sci-fi trash dos anos 50, Viagem ao Planeta Proibido é uma pequena produção da MGM que é muito mais lembrada por ser um exemplo do fracasso do método CineMagic e pelo “morcego-rato-aranha” (esse aí da imagem) do que por qualquer outra coisa. Mas a fita não é, no final das contas, com muita boa vontade, uma perda total.

CineMagic, para quem nunca ouviu falar, foi um processo cinematográfico criado por Norman Maurer e Sid Pink (esse último co-roteirista e conhecido por ser o “pai” dos longa-metragens em 3D – razão suficiente para eu já desgostar dele!) que servia, principalmente, para disfarçar o baixo orçamento de obras. Seu primeiro uso (e quase único, na verdade) se deu em Viagem ao Planeta Proibido e consistia no processamento do negativo em preto-e-branco por intermédio da “solarização”, que nada mais era do que a inversão parcial do negativo, e a aplicação de tintura vermelha. A grande verdade, porém, é que, com o orçamento reduzido pela metade no começo da produção (foi para 200 mil dólares, com apenas nove dias de filmagem), Pink e o diretor Ib Melchior resolveram fotografar em preto-e-branco e o CineMagic foi o resultado de uma dupla-exposição inadvertida do negativo que foi aproveitada, melhorada e “vendida” como uma nova técnica. Apesar da intenção ter sido boa, o resultado foi abissal, com as imagens se transformando quase que literalmente em “desenhos animados” borrados, com um vermelho róseo saturadíssimo que chega a dar dor de cabeça.

Obviamente, a técnica foi usada em toda as sequências na superfície de Marte, que, na obra, é um planeta repleto de vida vegetal e animal. É para lá que vão quatro astronautas no foguete MR-1, mas apenas um volta inteiro. Esta sobrevivente é a Dra. Iris Ryan (Naura Hayden), bióloga que chega à Terra traumatizada por acontecimentos misteriosos no Planeta Vermelho que ela não mais se lembra. Junto com ela, chega o Coronel Tom O’Bannion (Gerald Mohr), desfalecido e com algo gosmento verde saindo do braço. A única esperança, já que as fitas magnéticas de gravação da missão foram misteriosamente apagadas, é fazer com que Iris se lembre do ocorrido. Assim, em longos flashbacks, voltamos ao começo da missão, à aterrissagem em Marte e às aventuras do grupo por lá e vamos, aos poucos, entendendo o que aconteceu.

Mas o caminho até lá sofre com um roteiro com mão pesadíssima, que precisa explicar os mínimos detalhes de tudo com longos diálogos expositivos completamente inorgânicos em relação à progressão da narrativa. Tanto na Terra quanto no foguete, as conversas são intermináveis e absolutamente desnecessárias, deixando às claras a completa inabilidade de Sid Pink e Ib Melchior (que estreou na direção de longas com esse filme e, em sua carreira, só dirigiu mais um) em usar o meio audiovisual de forma equilibrada.

O baixo orçamento fica evidente com os cenário estático do interior da nave – usado múltiplas vezes, ao fim de cada missão do lado de fora, como o “momento explicação” do que acabamos de ver – e, claro, com o uso do citado (e ainda bem esquecido) CineMagic.  Mas o design da produção se esforça com bons trajes espaciais dos astronautas e, principalmente, na inventividade das criaturas que eles encontram no planeta. Não é nada que vá impressionar o espectador mais cínico de hoje em dia, claro, mas, tentando voltar no tempo, é possível entender um pouco o impacto de certas imagens, especialmente quando o morcego-rato-aranha gigante aparece. Aliás, esse monstro tornou-se razoavelmente icônico e figurou até mesmo na capa do álbum Walk Among Us do Misfits.

Viagem ao Planeta Proibido não é exatamente um filme recomendável tamanha são suas falhas narrativas, mas os ocasionais monstrengos interessantes e o quase alucinógeno vermelho-rosa do CineMagic atiçam a curiosidade por esse filho dos anos 50. Uma bobagem completamente descompromissada, mas cuja experiência o espectador não esquecerá (para o mal ou para bem).

Viagem ao Planeta Proibido (The Angry Red Planet, EUA – 1959)
Direção: Ib Melchior
Roteiro: Ib Melchior, Sidney W. Pink
Elenco: Gerald Mohr, Naura Hayden, Les Tremayne, Jack Kruschen, Paul Hahn, J. Edward McKinley, Tom Daly, Don Lamond, Edward Innes
Duração: 83 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.