Crítica | Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo

estrelas 4

Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo foi criado a partir de um grande acervo de imagens filmadas ou fotografadas nas viagens de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes pelo sertão do Ceará. Grande parte dessas eram imagens de referência de seu filme anterior, O Céu de Suely. Com isso, os dois diretores criaram uma narrativa e a colocaram nessa montagem de figuras até então desconexas sob a forma de uma narração em off (com a voz de Irandhir Santos). O resultado é uma mistura de road movie com documentário que se aprofunda tanto no interior do personagem quanto do interior do Brasil.

À primeira instância este não é um filme fácil de ser assistido – não contém o apelo de um João Francisco dos Santos (personagem principal de Madame Satã), por exemplo. Viajo Porque Preciso, contudo, aos poucos nos cativa através da narração em tom de leitura de Irandhir. Seu sotaque se mescla perfeitamente às imagens mostradas, trazendo um toque de simplicidade ao longa, um aconchego que o interior consegue trazer. Tamanha paz, porém, vai aos poucos sendo quebrada, ao passo que a trama se intensifica (toda pela narração) e passamos a entender a profundidade do personagem que jamais aparece. O aconchego se torna solidão, a mesma que o personagem sente – fator que é cada vez mais intensificado pelas imagens, ora da estrada vazia, ora de uma feira de uma cidadezinha. Karim e Marcelo, então, sutilmente, nos inserem no filme, fazendo-nos sentir como parte dele, como o próprio homem que narra as cartas para sua amada.

Essa viagem imersiva, à princípio forçosa, depois desejada – antes por trabalho, depois por uma vontade de escapar de tudo – é conduzida de forma que acabamos esquecendo que tal material foi coletado antes mesmo da ideia do longa ter sido concebida. Tal ilusão criada por Aïnouz e Gomes, porém, é quebrada por alguns minutos quando assistimos uma espécie de entrevista a uma mulher, Patrícia. Essa cena desconstrói a narrativa em primeira pessoa transformando, mesmo que por instantes, o filme em um documentário, tirando o espectador do meio daquele sertão e colocando-o de volta à realidade. Tal deslize prejudica o ritmo do filme e requer mais tempo, em seguida, para que voltemos à posição anterior, precisamos entrar novamente na projeção e, por fim, conseguimos.

O terceiro filme de Karim, desta vez em conjunto com Marcelo Gomes, é, sem dúvidas, o mais ousado. É um longa-metragem que requer toda a atenção do espectador e que a consegue sem problemas. Seu defeito é justamente a repentina mudança de road movie para documentário em meados do filme. Isso, contudo, não tira força da obra que se destaca pela sua montagem que consegue juntar imagens até então desconexas através de uma narração, garantindo a ela uma identidade chamada Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo.

Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (idem, Brasil – 2009)
Direção: Karim Aïnouz, Marcelo Gomes
Roteiro: Karim Aïnouz, Marcelo Gomes
Elenco: Irandhir Santos
Duração: 75 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.