Crítica | Victor Frankenstein

estrelas 1

Não consigo imaginar outras obras literárias que tenham sido tão adaptadas quanto o clássico Frankenstein, de Mary Shelley. Seja na versão iconoclasta de Boris Karloff, a pegada Shakespeare de Kenneth Branagh ou a ridícula investida de ação estrelada por Aaron Eckhart, o monstro criado pelo cientista excêntrico passou por bons e maus bocados. Com anúncio deste novo Victor Frankenstein, ficava a dúvida: o que diabos iriam fazer de novidade agora? Bem, teria sido melhor não saber.

A trama promete manter todo seu foco em Victor Frankenstein (James McAvoy), já que o próprio voice over inicial atesta que “todos se lembram do monstro, mas ninguém se lembra do homem”. Por isso, assume como protagonista o assistente Igor (Daniel Radcliffe), um corcunda de circo que é acolhido pelo cientista e o acompanha enquanto este trabalha em sua ambiciosa pesquisa para criar vida e “assassinar a morte”.

Imagino como teria sido a concepção da ideia deste projeto. “Bem, já tentamos de tudo com Frankenstein, até transformá-lo em Anjos da Noite, e ninguém parece ter gostado. Acho melhor desistirmos. ESPERE, mas e aquele assistente corcunda estranho que puxa as alavancas para o cientista? Ele deve ser uma figura rica e complexa. Vamos lhe dar um backstory romântico e idealista. Temos ouro em mãos. Vejo aqui o início de uma possível franquia.”

É a única explicação plausível para a ideia idiota de Max Landis. Para começar que Igor nem é um personagem de Mary Shelley, mas sim uma figura que foi criada na década de 40 para servir de companheiro para diversos monstros, incluindo o Conde Drácula. É uma personagem propositalmente cartunesca, e o que Landis inventa para ele aqui… Daniel Radcliffe é um gênio prodígio que foi trancafiado no circo graças à sua deficiência, e que prova-se às vezes até mais inteligente e charmoso do que o próprio Victor. A relação dos dois, claramente inspirada na de Sherlock Holmes e Watson, é uma das mais inadvertidamente homossexuais do ano, provocando um efeito cômico vergonhoso: a cena em que Victor brutalmente endireita a coluna do colega, apenas para que este grite depois “estou ereto!” deve ser mais que o suficiente para ilustrar a situação. Se eu quisesse rir da obra de Shelley, eu recorreria ao clássico Jovem Frankenstein.

Já o personagem titular é vivido por James McAvoy em uma energia assustadora. Demais até, já que o cientista parece ser um maluco instável e com nada capaz de rotulá-lo como “gênio”, algo que este constantemente atesta ser. A performance de McAvoy diverte justamente pelo caricatura e os excessos, mas chega a ser ofensivo quando o vemos lutando, saltando e golpeando pessoas, como uma espécie de super-herói, ou quando simplesmente tira truques de mágica sem propósito algum.

A direção de Paul McGuigan não ajuda. Mesmo com um design de produção rico e bem construído por efeitos visuais competentes, McGuigan não valoriza a ambientação imensamente atmosférica que é a Inglaterra vitoriana. Aposta em efeitos de câmera lenta risíveis, como na fuga estranhíssima do circo, e uma mise en scène óbvia e que se perde em sua própria lógica: quando Victor conversa com o pai (vivido por Charles Dance, que parece estar se divertindo com papéis pequenos em filmes que destroem monstros icônicos, vide Drácula: A História Nunca Contada), o cientista é enquadrado em um plano close central, enquanto a figura ameaçadora de Dance é um contra plongée escancarado. Não há o menor continuismo visual.

E quanto à tão aguardada criatura de Frankenstein? Segure o fôlego, já que ela só aparece no último ato da produção; até lá, um chimpanzé-leão zumbi (eu não estou inventando isso) deverá distrair o espectador. O visual do monstro não decepciona, ainda mais comparado com aqueles vistos em Van HelsingFrankenstein: Entre Anjos e Demônios e até na série Penny Dreadful (que faz um trabalho muito melhor com a história de Shelley, diga-se de passagem), mas não tem identidade. Não tem o apego e a curiosidade que tornam o personagem tão fascinante, limitando-se a um “capanga” que Victor e Igor precisam – suspiros fortes – enfrentar em um épico duelo com lanças. Eu desisto.

Victor Frankenstein é tolo, mal feito e sem o menor pingo de originalidade. A dupla principal até garante um o outro momento, mas o desperdiçam em uma trama que não precisava se complicar, garantido muitos risos inadvertidos e um lugar no hall de piores de 2015. Mary Shelley deve ter se revirado forte no túmulo.

Victor Frankenstein (Victor Frankenstein, 2015 – EUA)

Direção: Paul McGuigan
Roteiro: Max Landis
Elenco: Daniel Radcliffe, James McAvoy, Andrew Scott, Jessica Brown Findlay, Freddie Fox
Duração: 109 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.