Crítica | Victor ou Victoria

estrelas 4

Chegar numa época repleta de movimento em prol da afirmação da identidade homossexual, tendo no governo um representante do conservadorismo (Ronald Reagan) e a latente associação da AIDS como doença oriunda do universo gay não é fácil. Em 1978, A Gaiola das Loucas, versão francesa que deu origem ao filme homônimo de 1996, havia aberto as portas para a temática ser tratada com sagacidade, brilhantismo e muita irreverência.

Victor ou Victoria é um destes exemplares: subversiva sem ser agressiva, a comédia romântica musical é um espetáculo divertido, atraente e cheio de discussões sobre os estereótipos que minam a imagem do homossexual na sociedade. Nesta época a temática do transformismo e do travestismo estava na ordem do dia hollywoodiano, pois na mesma cerimônia de premiação do Oscar do filme em questão, estava o brilhante Dustin Hoffman, dirigido em Tootsie por Sidney Pollack.

A trama se desenrola em 1934, numa cidade luminosa: Paris. Victoria Grand (Julie Andrews) é uma cantora lírica de alcance vocal impressionante. Ela conhece Carroll Tody (Robert Preston), um cantor homossexual preocupado por conta da recente demissão na casa de show em que se apresentava, pois durante o desempenho de um número considerado “muito gay”, bem como uma discussão com certos clientes, o artista põe a sua carreira a perder. Desempregado e com problemas com o companheiro, Toddy não se encontra nos seus melhores dias. Ela também está em busca de um emprego depois de levar um golpe financeiro de uma companhia de ópera inglesa. Sem um tostão no bolso, amarga pelas ruas da cidade até o encontro inusitado com o seu mais novo melhor amigo.

Ao longo dos 133 minutos, eles articulam um plano para fazer Victoria se passar por um homem, o Conde Victor Grezhinski, conhecido por seu trabalho com transformismo. O conflito se estabelece quando ela se apaixona por King Marchand (James Garner), um gangster que fica encantado com a primeira apresentação da moça, que logo, vai se revelar um homem. Em meio a toda essa confusão, Marchand se depara por uma confusão pelo fato de estar apaixonado por um homem que se veste de mulher, mas que na verdade (ele saberá apenas mais adiante) é uma mulher vivendo uma farsa.

No processo de descobertas, até o seu capanga Squash (Alex Karras), arquétipo do “macho ativo não liberal” assume a sua homossexualidade e a sua mulher Gloria (Lesley Ann Warren) se responsabiliza pelos momentos mais cômicos, com uma performance que nos remete ao clássico número de Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras, apresentação clássica que nos anos 1980 ganharia nova roupagem com Material Girl, videoclipe da Madonna.  Gloria é o que o na época da comemoração de 30 anos do filme, o crítico Gilberto Silva Jr. chamou de “mulher-viado”, termo (problemático) que designa um personagem feminino que é mais gay que os próprios gays da história.

Atrevido por tocar em cordas sensíveis da sociedade, a narrativa trata de tabus sem deixar o bom humor de lado. Todo o glamour visual está sempre associado aos diálogos edificantes e bem construídos pelo cineasta Blake Edwards, tendo como base o argumento de Hans Hoemburg. Experiente desde os respeitados Bonequinha de Luxo e A Pantera Cor de Rosa, o cineasta demonstra domínio da linguagem cinematográfica a cada enquadramento e escolha narrativa.

Além da direção segura de Edwards, o filme conta com o figurino espetacular de Patricia Norris, com a direção de fotografia eficiente de Dick Bush e com a trilha sonora de Henry Mancini, no ponto certo, como sempre. Gravado no Pinewood Studios, a produção costumeiramente chamada de irmão cinematográfico de Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, consegue, tal como o seu familiar, mesclar com coerência elementos do vaudeville, do teatro Boulevard, da comédia romântica e da Broadway.

Inspirado na produção homônima alemã de 1933, a brilhante versão hollywoodiana ganhou uma refilmagem para a TV fechada, em 1995. Julie Andrews, já imortalizada em papeis protagonistas de filmes como A Noviça Rebelde e Mary Poppins, surge em Victor ou Victoria emulando David Bowie e Marlene Dietrich, num desempenho irreverente que ajudou a dar maior versatilidade ao seu currículo já diversificado, afinal, ela também tinha contribuído com ninguém menos que Alfred Hitchcock.

Victor ou Victoria (Victor or Victoria) — Inglaterra/ Estados Unidos, 1982
Direção: Blake Edwards
Roteiro: Blake Edwards
Elenco: James Garner, Julie Andrews, Lesley Ann Warren, Robert Preston, Alex Karras, John Rhys-Davies, Graham Stark, Peter Arne, Herb Tanney, Norman Chancer, David Grant, Malcolm Jamieson, John Cassady, Mike Tezcan
Duração: 133 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.