Crítica | Victoria (2015)

estrelas 4

Victoria é, em seu âmago, um experimento cinematográfico que, por incrível que pareça, apesar de todos os pesares, é eficiente em prender o espectador em uma história simples que tem personalidade apesar do grande chamariz da fita. E que chamariz é esse? Bem, assim como A Arca Russa de Alexander Sokurov, a obra do alemão Sebastian Schipper foi filmada em apenas um plano sequência verdadeiramente ininterrupto, ao longo de toda sua (longa) duração.

Mas, diferente da obra-prima de Sokurov, Victoria conta uma história mundana e tem muita movimentação de câmera, que persegue a personagem título e quatro jovens que ela conhece na saída de uma boate na madrugada de Berlim. Claro que as comparação com a obra russa param no artifício utilizado na produção, já que compará-las além disso é uma injustiça com Victoria. Mas, em termos técnicos, o que Schipper consegue colocar nas telas é absolutamente extasiante. Afinal de contas, são 138 minutos em um take apenas que, segundo o diretor, foi obtido na terceira tentativa, com um roteiro que apenas traçava as linhas gerais e que se beneficiou fortemente dos diálogos improvisados dos atores.

Fotografado pela diretora de fotografia norueguesa Sturla Brandth Grøvlen em seu segundo longa, apesar de uma carreira repleta de curtas, Victoria conta com imagens noturnas capturadas com câmera digital sem filtros emprestando um aspecto “Dogma 95” à obra, mas sem a crueza do movimento iniciado por Thomas Vinterberg e Lars von Trier. O que realmente impressiona é que, com câmera na mão na integralidade do tempo, não há impressão exagerada de movimento e tampouco há perda de foco. A câmera funciona como um quinto personagem, inquieta, mas precisa, trabalhando planos abertos e fechados com facilidade mesmo diante da escuridão das ruas vazias de Berlim. É raro ver um filme que realmente coloca o espectador no meio da ação e Victoria é bem sucedido não só nisso, mas em transformar o espectador em mais um personagem, um observador no meio do cada vez mais complexo final de noite da jovem espanhola Victoria (Laia Costa), radicada há três meses na Alemanha.

Tentar seguir a câmera e entender como Grøvlen e Schipper chegaram a esse resultado é, por si só, um exercício fascinante. Afinal, o roteiro, apesar de linear e pouco complexo, não se furta de dificultar a vida para o tal “quinto personagem”, com sobe-escada-desce-escada, entra-e-sai de carro e elevador e assim por diante, culminando com uma sequência de perseguição que dá palpitações sem, porém, confundir o espectador.

No entanto, estaria fazendo um desserviço ao filme se apenas tratasse do artificio utilizado para realizá-lo. Fica a pergunta: Victoria seria tão bom não fosse o plano sequência de 138 minutos? A resposta honesta provavelmente seria um “não”, pois a narrativa é simples e objetiva, um mergulho da personagem-título na noite de Berlim, com a formação de laços de amizade/admiração por quatro jovens delinquentes locais. Há barreira linguística entre eles e o inglês macarrônico tanto de um lado quando do outro serve de ponte (e esse fato impediu que Victoria representasse a Alemanha no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o que acabou abrindo espaço para Labirinto de Mentiras), levando a acontecimentos cada vez mais complexos, mas perfeitamente dentro do esperado. Acontece que a grande razão para a resposta negativa repousa muito mais no que os cortes significariam para a obra do que o take ininterrupto. Provavelmente teríamos uma trama menos urgente, menos envolvente, menos sedutora do que o resultado final. A conjunção de história simples mais plano sequência contínuo é efetivamente o triunfo de Victoria. Uma relação simbiótica que interessará ao espectador em diferentes níveis.

Além disso, Laia Costa – egressa da televisão espanhola – como a protagonista está arrebatadora em sua performance transformativa. De uma jovem solitária divertindo-se na noite berlinense, a personagem vai, aos poucos, ganhando complexidade e peso, mostrando em partes iguais o quão destemida e desesperada ela é. A atriz, no intervalo de pouco mais de duas horas tem talvez a atuação de sua vida, um tour de force que poucos seriam capazes de obter sucesso.

O que acaba freando a fita é mesmo sua duração. Ainda que o primeiro terço tenha que necessariamente ser mais lento e bem trabalhado para tornar crível a ligação de Victoria com os quatros jovens que acabou de conhecer e a ação que começa a partir dali, vê-se um pouco um roteiro cambaleante, ainda tentando achar sua identidade. São diversas pequenas situações que aproximam os personagens, mas que acabam sendo repetitivas e, diria, até mesmo enfadonhas como a sequência no telhado de um prédio. Mas, quando a ação principal efetivamente começa, o espectador já está fisgado e não consegue deixar de acompanhar a jovem ao longo de suas peripécias em Berlim, por mais improvável que possa ser esse seu envolvimento imediato com pessoas que acabou de conhecer (afinal, é para isso que serve a suspensão da descrença).

São, no final das contas, 138 longos minutos, mas que são compensados pela proeza técnica de se realizar um filme dessa natureza em apenas um plano sequência verdadeiro. Se o espectador sentir-se atraído por isso, encontrará, para sua surpresa, uma fita que tem vida apesar dessa “isca” tanto em termos de história como, principalmente, pela atuação de Laia Costa. Um experimento que definitivamente deu certo.

Victoria (Victoria, Alemanha – 2015)
Direção: Sebastian Schipper
Roteiro: Sebastian Schipper, Olivia Neergaard-Holm, Eike Frederik Schulz
Elenco: Laia Costa, Frederick Lau, Franz Rogowski, Burak Yigit, Max Mauff, André Hennicke, Eike Frederik Schulz, Hans-Ulrich Laux, Anna Lena Klenke, Philipp Kubitza
Duração: 138 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.