Crítica | Vida, Animada

estrelas 5,0

Cuidar de um filho com distúrbios neurológicos de qualquer natureza deve ser uma das mais árduas tarefas para pais e só mesmo o amor incondicional conseguiria vencer as quase intransponíveis barreiras que certamente se apresentam. O autismo, que normalmente se manifesta muito cedo na vida de uma criança, possui diversos níveis, mas todos eles parecem ter em comum o afastamento da criança do convívio social considerado normal e/ou desejável, fazendo-a com que ela viva em seu próprio mundo ou pelo menos parecendo isso para quem está de fora.

A nova obra de Roger Ross Williams, documentarista que levou o Oscar de Melhor Curta nessa categoria em 2010 por Music by Prudence, aborda a vida de Owen Suskind, jovem de 23 anos autista que teve sua vida alterada por seu intenso interesse nas animações da Disney. Sim. Se a arte imita a vida, aqui a vida conseguiu desabrochar com a arte e Owen, que foi diagnosticado como autista aos três anos, teve a chance de desenvolver-se incrivelmente a partir de seu enciclopédico conhecimento dos longas animados da produtora e de sua mais do que incrível capacidade de usar cada situação e lição de filmes como A Pequena Sereia, Mogli, Dumbo e O Rei Leão e relacioná-los com o mundo real que o cercava e sufocava.

Williams escolhe acertadamente fugir do melodrama. Quando vemos Owen, ele já tem 23 anos e enorme capacidade de se comunicar. Ele está próximo de sua formatura e em breve se mudará da casa dos pais para viver sozinho, passo comum na vida de americanos, mas que, no caso de um autista, o esforço empregado por todos ao seu redor e por ele é decuplicado diante dos perigos iminentes de uma vida menos assistida. Com isso, não existe a desnecessária surpresa. Owen é uma vitória de seu esforço pessoal e também de seus pais Ron (que escreveu o livro homônimo que inspirou o documentário) e Cornelia e seu irmão mais velho Walt (fico pensando como a escolha desse nome foi profética…) e ao voltarmos ao passado, sabemos o que o futuro nos reserva e não existe uma ansiedade falsa que só funcionaria bem em uma obra de ficção.

Como é um documentário, o trabalho de Williams é revisitar o passado de Owen, mas ele escolhe fugir das dificuldades inerentes de se cuidar de alguém em sua condição e no sofrimento que seu pais certamente passaram. Mas calma, pois o filme não deixa nada passar em branco. Os relatos de Ron e Cornelia são emocionantes em sua simplicidade e devoção absoluta ao filho. Somos brindados com vídeos caseiros de antes da “mudança” de Owen, em que vemos uma criança perfeitamente normal e, depois, descobrimos como ele se fechou de uma hora para a outra falando apenas de forma ininteligível.

Isso até o momento em que ele, ao assistir A Pequena Sereia, diz jusavose, “palavra” descartada pelos pais como mais um dos balbucios do filho. Mas Owen pega o controle remoto e volta a cena uma vez. E de novo. E mais  uma vez. Qual é cena? A que Úrsula retira a voz de Ariel e diz que é “apenas uma voz” ou, em inglês, just a voice. Leia rápido e just a voice torna-se jusavose.

Apenas uma voz….

Percebem a magnitude disso? Quando Ron e Cornelia, estupefatos com essa descoberta, levam o assunto ao médico de Owen, ele descarta a novidade como algo comum, mas os dois não se dão por vencidos. A partir daí, é uma briga morro acima regada a muito desenho da Disney que vai aos poucos trazendo Owen de volta ao convívio familiar em uma jornada impressionante do jovem e de todos à sua volta. Uma vitória como poucas que desafiará o espectador a mudar sua visão do autismo. Eu sei que a minha visão mudou para sempre.

Claro que a condição social da família Suskind ajudou bastante nesse desenvolvimento. Cuidado médico e infraestrutura nunca faltaram a Owen, mas não se pode simplesmente dizer que foi essa a razão para sua reintegração à sociedade. O verdadeiro mérito fica com o rapaz, seus pais, seu irmão e, sim, à Disney e a mágica de suas animações.

Vida, Animada é um documentário que pode mudar a vida de muita gente e deveria ser obrigatório em escolas públicas e privadas. O filme é uma grande salva de palmas a Owen e a todos como ele que lutam diariamente com suas condições menos que ideais e uma bela homenagem ao legado de Walt Disney.

Vida, Animada (Life, Animated, EUA/França – 2016)
Direção: Roger Ross Williams
Roteiro: Ron Suskind (based em livro dele)
Com: Owen Suskind,  Ron Suskind, Cornelia Suskind, Walter Suskind
Duração: 89 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.