Crítica | Vida de Inseto

estrelas 4,5

Espremido entre dois mega-sucessos, Toy Story, em 1995 e Toy Story 2, em 1999 e sofrendo pela existência de filme de temática rival no mesmo ano pela Dreamworks, Vida de Inseto costuma ser uma animação esquecida e subestimada da Pixar. Mas o segundo longa-metragem de uma das melhores produtoras de animação existentes (ou seria a melhor?) precisa ser relembrado e bem mais reverenciado do que é. Trata-se de um trabalho rico em mensagens e de uma técnica impecável que ilustra muito claramente a evolução a passos largos da computação gráfica, que seria a marca registrada da produtora da lampadinha saltitante a cada novo lançamento.

Inspirado em Os Sete Samurais, clássico imortal de Akira Kurosawa, e na fábula A Formiga e a Cigarra, de Esopo, a película nos conta a história de Flik (voz original de Dave Foley), uma formiga inventora que não consegue se ajustar aos regramentos de seu formigueiro, comandado pela Princesa Atta (voz original de Julia Louis-Dreyfus), que está em treinamento para tornar-se rainha. Tentando demonstrar uma de suas invenções, Flik põe toda a oferenda de comida aos gafanhotos bandoleiros a perder, ameaçando a existência de toda sua comunidade. Expulso do formigueiro, Flik, então, acaba reunindo um improvável grupo de insetos circenses que ele confunde por guerreiros, para salvar o dia.

Se a história já é por si só cativante e revivida de diversas maneiras diferentes ao longo das décadas (vide o faroeste Sete Homens e um Destino e a comédia Três Amigos!), tudo fica mais interessante quando os gênios criativos da Pixar arregaçam as mangas para criar todo um universo muito particular, baseado unicamente nos mais variados insetos (e uma ou duas aves) e no lixo rejeitado pelos humanos. Desde as brincadeiras com a organização das formigas, que entram em desespero quando uma mera fila é interrompida, passando pelos números circenses da trupe decadente comandada por P.T. Flea (uma homenagem/crítica a P.T. Barnum, com voz de Michael McShane), até a recriação de uma “cidade grande” de insetos com lixo, tudo é literalmente embasbacante. É esse tipo de sensação que John Lasseter e Andrew Stanton, os diretores da fita, nos fazem ter a cada nova descoberta de Flik que, como “formiga caipira”, também se deslumbra a cada esquina no mundo fora de sua ilha. Nós somos Flik e o filme, ao criar essa conexão quase instantânea, mostra como é bem-sucedido.

Ainda que se possa argumentar, com alguma razão, que o próprio Flik é um personagem clichê – a velha história do jovem que amadurece – e que ele em si não mereça tanto destaque, fato é que o roteiro (de Stanton, Don McEnery e Bob Shaw) empresta a ele uma curva de crescimento crível e envolvente. De um cientista desastrado, ele passa a herói ao longo de uma narrativa que é pontilhada de passos lógicos e muito engraçados. Além disso, Flik é o veículo que permite o espectador viajar por esse mundo diminuto, não sendo ele um fim em si mesmo. A partir de Flik, conhecemos Atta, a rainha aprendiz, Dot (Hayden Panettiere), a adorável formiguinha irmã de Atta e a única a sempre acreditar em Flik e, claro, a imbatível e hilária trupe circense composta por Slim, o bicho-pau (David Hyde Pierce), Heimlich, a lagarta gorda de sotaque alemão (Joe Ranft), Francis, o zangado joaninha macho (Denis Learey), Manny, o louva-deus místico (Jonathan Harris), Gyspy, a mariposa assistente de Manny (Madeline Kahn),  Rosie, a viúva-negra (Bonnie Hunt), Dim, o besouro-rinoceronte (Brad Garrett) e Tuck e Roll, os bichos-de-conta gêmeos (Mike McShane, nos dois papeis). Cada um tem sua própria personalidade cujos trabalhos de voz e caracterizações em cena são inesquecíveis e desenvolvidos com grandes detalhes pelo roteiro sem que, porém, as histórias pesem na narrativa.

Aliás, vale reiterar esse ponto: apesar de um grande número de personagens importantes (nem mesmo abordei Hopper, o gafanhoto-chefe com voz de Kevin Spacey e seu irmão bobalhão Molt, voz de Richard Kind em dois dos melhores trabalhos de voz da obra), há extrema fluidez no roteiro. Em nenhum momento a história para de maneira que explicações sejam dadas. Quando o elaborado plano de Flik para assustar os gafanhotos é contado, vemos uma montagem já abordando a construção do “mecanismo aéreo” que ele inventa e que tem sua origem dentro da própria história, logo quando ele é exilado. Somos apresentados aos guerreiros circenses dentro de uma sequência orgânica em que vemos um espetáculo deles dar errado (ou certo, depende). Somos apresentados à Hopper e seus soldados dentro de uma estrutura narrativa que usa o clichê (afinal, eles são os perfeitos estereótipos dos “bandidos mexicanos”) a seu favor, exagerando alguns aspectos justamente para não esconder “a brincadeira”. Em suma, vemos desenvolvimento de personagens e de narrativa sem sentir, sem realmente parecer que estamos em uma sala de aula aprendendo alguma coisa nova. Stanton, McEnery e Shaw fazem a mágica da Pixar vista três anos antes em Toy Story repetir-se em uma história que encanta e engaja espectadores de todas as idades.

A fotografia, sob responsabilidade de Sharon Calahan (em seu primeiro trabalho como diretora de fotografia, o que viria a se repetir em Toy Story 2 e Procurando Nemo) beneficiou-se de uma ideia de Lasseter, que sugeriu a construção de uma mini-câmera em cima de um carrinho feito de Lego para que fosse possível ver o mundo literalmente a partir dos olhos de um inseto. Com isso, a grandiosidade diminuta de folhas de grama, de dentes-de-leão e de caixas de fósforo ganham grande destaque no trabalho final de Calahan, assim como do supervisor de desenho de produção William Cone, que tratou não só de dar vida aos insetos de maneira realista pero non troppo como, também, de permitir que, por exemplo, as folhas ficassem translúcidas em razão do sol, quando as vemos sob o ponto de vista de uma formiga. São detalhes como esse que retiram Vida de Inseto do lugar-comum e mostraram a amplitude da capacidade artísticas da Pixar logo cedo.

Mesmo competindo com o amor dos fãs pelos dois Toy Story e sendo lembrando muita vezes como “um dos desenhos de formiga” lançados em 1998, Vida de Inseto tem muitos méritos próprios que precisam ser relembrados e ressaltados. É mais uma obra-prima da Pixar que de diminuto tem apenas seus protagonistas.

obs: Vida de Inseto marcou o último papel em longa metragem do inesquecível Roddy McDowall, imortalizado por seu papel de Cornelius na franquia Planeta dos Macacos, que faleceu no ano de lançamento do filme. Ele emprestou sua voz a Mr. Soil, formiga conselheira da rainha e ator durante sua juventude.

Vida de Inseto (A Bug’s Life, EUA – 1998)
Direção: John Lasseter, Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton, Don McEnery, Bob Shaw
Elenco: Dave Foley, Kevin Spacey, Julia Louis-Dreyfuss, Hayden Panettiere, Phyllis Diller, Richard Kind, David Hyde Pierce, Joe Ranft, Denis Leary, Jonathan Harris, Madeline Kahn, Bonnie Hunt, Michael McShane, John Ratzenberger, Brad Garrett, Roddy McDowall, Edie McClurg
Duração: 95 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.