Crítica | Vida Selvagem (2018)

O ano de 2018 será lembrado, no meio cinematográfico, por ter sido particularmente prolífico em revelar atores como diretores. Primeiro foi Bradley Cooper com a quarta encarnação de Nasce uma Estrela, depois Jonah Hill com Mid90s e, agora, Paul Dano com seu delicado Vida Selvagem. Com Jake Gyllenhaal e Carey Mulligan encabeçando um elenco que traz também o jovem Ed Oxenbould em um daqueles papeis definidores de carreira, esse pequeno filme de época, passado na década de 60 em Montana, nos EUA, tem uma forte mensagem atual que, porém, não é usada como chamariz marketeiro para a fita, algo que, por si só, já merece aplausos por ser tão raro hoje em dia.

Escrito por Dano e por sua parceira de longa data Zoe Kazan (sim, neta de Elia Kazan) com base em romance de Richard Ford, Vida Selvagem é intimista até não poder mais, mas com poder para ecoar em muitos seios familiares modernos exatamente por lidar com sua corrosão, com sua separação, com sua destruição. Jerry (Gyllenhaal) e Jeanette (Mulligan) Brinson são casados há muitos anos e têm um filho, Joe (Oxenbould), de 14 anos. A vida dos três na pequenina cidade do interior em vivem parece perfeita, com as cores quentes do interior do lar e com as conversas e ações no início da película espelhando anúncios de margarina dos anos 60. O pai é o provedor, claro, com a mãe cuidando da prole, da arrumação da casa e das refeições. Uma perfeita e imutável divisão que, lógico, precisa continuar assim para que a família perfeita continue sendo retratada como tal.

Mas Jerry perde o emprego como instrutor de golfe em um clube de elite local, apesar de ser muito bem quisto por seus clientes. Esse momento é como a rachadura no vidro da janela que vai aumentando gradativamente até estilhaçar completamente. Jerry recusa-se a aceitar qualquer outro emprego e, por orgulho, também não aceita voltar ao clube que o demitira. A depressão e a apatia o abatem completamente, o que leva Jeanette a aventar a possibilidade – com a devida benção do marido, claro – de ela mesmo trabalhar fora de casa. Mas meio expediente para que ela tenha tempo de cuidar de seus afazeres do lar, obviamente. Até mesmo Joe, sempre muito compreensivo de seu jeito quieto e discreto, oferece procurar emprego.

Ao longe, nas montanhas, vê-se fumaça desde o começo da projeção, em uma bela, mas fria tomada em plano aberto que opõe a pequena cidade, com o trem a cortando, com a natureza selvagem distante. Os incêndios florestais estão fora de controle e os bombeiros não dão conta, arregimentando a força de trabalho de qualquer homem adulto que quiser aventurar-se. Jerry, sem conversar com a família, parte para lá, marcando a ampliação da rachadura do vidro da janela.

A narrativa é, essencialmente, a partir do ponto de vista de Joe. Sua impassividade exterior é fascinante e, ao mesmo tempo, cativante. Ele reage aos momentos de alegria substancialmente da mesma forma que reage aos momentos de atrito entre os pais, mas o ator consegue acrescentar uma camada “subcutânea” em suas feições que demonstram sua inquietude e exasperação. Ele vê sua vida vagarosamente desmoronar à sua frente e não pode fazer muito para reverter o quadro. Em muitos aspectos, Vida Selvagem é um conto de amadurecimento, mas não apenas o amadurecimento que transforma um adolescente em um adulto. É também uma história em que os adultos – especialmente a mãe – assume uma posição e tenta sair da claustrofobia que é um casamento em que suas funções não são apenas pré-determinadas, mas, também, extremamente limitadas.

Se vemos o filme pelos olhos do adolescente, é Mulligan que o carrega nas costas, já que a presença de Gyllenhaal – sempre muito bem, vale dizer – é reduzida pelas circunstâncias da história. Mais uma vez a atriz mostra a que veio (cadê o Oscar dela, hein?) e constrói uma personagem que, desde o primeiro enquadramento, de avental na cozinha, deixa entrever alguém que simplesmente precisa sair dessa ratoeira labiríntica em que se encontra. E, com isso, não quero de forma alguma afirmar – e Dano e Kazan certamente não dizem – que Jeanette não ama seu filho e seu marido. Ela os ama sim, mas as paredes fechando-se ao seu redor são demais para ela.

Mas sua mudança comportamental a partir da ida de Jerry para a linha de frente do incêndio pode parecer brusca para muitos. Foi assim para mim. Mas, em retrospecto, precisamos entender que, assim como o emprego que Joe consegue, de fotógrafo, a película captura um breve momento na vida do casal. É o momento da proverbial gota d’água, claro, caso contrário não haveria filme, mas temos que entender que o que testemunhamos pelos olhos de Joe é o resultado final do acúmulo de uma vida inteira de casado em que Jeanette é a esposa perfeita cujas maiores qualidades são saber cozinhar e varrer o chão e Jerry é o provedor, aquele que tem sobre seus ombros o peso de trazer dinheiro para casa. E, aos poucos, vemos que a situação deles em Montana nada mais é do que a repetição de situações muito semelhantes em outros estados americanos, já que por algumas vezes os personagens mencionam mudanças que fizeram e Joe, particularmente, denota uma certa ojeriza a isso.

O frio e a desolação que vemos nas tomadas exteriores – a cidade vazia de gente é desconcertante – vão, aos poucos, vazando para dentro daquele lar que, no começo, é regado de cores mais quentes. A vida colorida e alegre perseguindo o “sonho americano” da geração sessentista, normalmente encarada de maneira esperançosa nos mais variados filmes da época, ganha outras matizes aqui, mais pé no chão, com um recorte de uma beleza impressionante que é rapidamente transformada em opressão. E não somente em relação à Jeanette, o foco dos olhos de Joe, mas também no que se refere a Jerry, um homem que não encontra seu espaço por mais que lute incessantemente para encontrá-lo. Não há culpados nesse contexto. Há, apenas, a vida. E, às vezes, ela não segue o caminho que imaginamos.

Vida Selvagem é um pedacinho de uma vida normal. Não há embelezamentos fora de esquadro e nem escolhas equivocadas, por mais que alguma possam parecer assim. É um filme que nos faz olhar para trás para entendermos nosso presente e, também, nosso futuro. Mas sem panfletear, sem rotular e, principalmente, sem julgar. Paul Dano já começa sua carreira de diretor com um grande acerto.

Vida Selvagem (Wildlife, EUA – 2018)
Direção: Paul Dano
Roteiro: Paul Dano, Zoe Kazan (baseado em romance de Richard Ford)
Elenco: Jake Gyllenhaal, Carey Mulligan, Ed Oxenbould, Bill Camp, Zoe Margaret Colletti, Cate Jones, Blaine Maye, JR Hatchett
Duração: 104 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.