Crítica | Vida

estrelas 3,5

O mistério do espaço e a dúvida aparentemente insolúvel se a Humanidade está sozinha no Universo, se de fato há a possibilidade de vida em outros planetas é algo que sempre rendeu bons frutos no cinema. Seja em uma visão mais tenebrosa ou esperançosa, alienígenas sempre foram uma fonte inesgotável de histórias, como podemos observar até mesmo com um de seus precursores, Alien, O Oitavo Passageiro, que ganha ainda mais um capítulo em sua saga este ano.

Porém, se compararmos a ideia isolada e claustrofóbica do original de Ridley Scott, veremos que este novo Vida é algo bem mais próximo daquela proposta, tanto que a comparação entre as duas obras foi algo que seguiu a campanha de marketing do filme de Daniel Espinosa. E ainda que longe de provocar o impacto explosivo do filme de Scott, o suspense de ficção científica oferece uma experiência eficiente e capaz de entreter o espectador.

A trama começa quando um grupo de astronautas na Estação Espacial Internacional resgata uma sonda que carregava valiosas amostras do solo marciano, onde encontram um organismo misterioso que é comprovado como a primeira evidência de vida fora da Terra. Porém, quando o organismo alienígena começa a evoluir-se para uma forma hostil e letal, o grupo precisa lutar para mantê-lo em quarentena e impedir qualquer risco de contaminação, assim como evitar uma possível entrada na Terra.

É o tipo de história fácil de se criar e que possibilita um bom desenvolvimento, além de ser um exercício de tensão saboroso para qualquer diretor. Dessa forma, com Rhett Reese e Paul Wernick saindo de Zumbilândia e Deadpool, é até esperado que a dupla arrisque-se na ficção científica, trazendo seu estilo característico para a criação de personagens engraçadinhos e sarcásticos para a jogada, ao mesmo tempo em que criam um universo simples e coeso em sua proposta. Pode soar um tanto forçado e artificial, especialmente com o personagem de Ryan Reynolds, sempre pronto com uma piadinha ou uma referência pop na ponta da língua, ou nas desastrosas tentativas da dupla em criar metáforas com uma história de ninar. São todos personagens estereotipados, mas que ao menos ganham força com o elenco formado por Jake Gyllenhaal, a ótima Rebecca Ferguson e os mais desconhecidos Ariyon Bakare, Hiroyuki Sanada (fantástico) e Olga Dihovichnaya.

Mas no que havia dito sobre direção, Daniel Espinosa demonstra um comando admirável e eficiente. Logo nas primeiras cenas, exibe um cuidado impressionante ao estabelecer o espaço e a presença da Estação Espacial, em um plano lentíssimo que vai revelando a instalação sob a contra-luz do sol – em um trabalho fantástico do diretor de fotografia Seamus McGarvey – além da trilha sonora macabra de John Ekstrand oferecer uma preparação atmosférica e perigosa. Então, Espinosa já exibe um domínio da escola Gravidade de zero-g ao trazer elaborados planos sequências dos personagens flutuando e navegando pelas instalações da estação, culminando em um longo plano em que acompanhamos pela janela de uma cabine a ação de um astronauta do lado de fora; sendo um ótimo exercício de suspense. Aliás, é preciso aplaudir a elaborada jogada que Espinosa e a montagem de Mary Jo Markey e Frances Parker realizam durante o clímax, e oferecem uma conclusão ousada e muito melhor do que o proposto.

O problema mesmo acaba ficando na artificialidade dos conceitos que claramente envolvem computação gráfica. À medida em que o organismo, batizado carinhosamente de Calvin, vai se desenvolvendo e crescendo, o CGI responsável por lhe dar vida acaba soando cada vez mais falso e destoante daquele universo. E pior, Espinosa aposta em diversas imagens que deveriam aparecer perturbadoras e assombrosas, mas que acabam prejudicadas por elementos CGI equivocados, como o momento em que um personagem vomita bolhas de sangue em gravidade zero ou quando uma pobre astronauta acaba afogada pelo líquido de seu traje; ambos momentos que acabam beirando o riso graças a essa artificialidade, além de contarem com um design sonoro que peca pelo exagero e o aspecto cartoon de seu foley.

Seguindo de perto a escola Alien de terror espacial, Vida oferece um bom entretenimento e é bem capaz de envolver e capturar a atenção do espectador, principalmente pela direção competente e o talento de seu elenco. E ver uma historinha de sci-fi original que não é um reboot, sequência ou adaptação em pleno 2017 já é algo pelo qual se alegrar.

Vida (Life) — EUA, 2017
Direção: Daniel Espinosa
Roteiro: Rhett Reese e Paul Wernick
Elenco: Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ryan Reynolds, Ariyon Bakare, Hiroyuki Sanada, Olga Dihovichnaya
Duração: 104 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.