Crítica | Vidas à Deriva

Quando James Cameron apresentou ao estúdio a ideia de refilmar a história do transatlântico Titanic, ele apontou para as célebres ilustrações de Ken Marshall acerca do naufrágio e declarou: “este navio mais Romeu e Julieta!”. A empreitada, como todos sabem, se tornou um sucesso estrondoso de bilheteria e um dos filmes mais premiados de todos os tempos. Foi, possivelmente, o grande marco na história dos filmes sobre naufrágio e sobrevivência. O tema sempre é revisitado de algum modo e o novo filme de Baltasar Kormákur (de Evereste) parece uni-lo mais uma vez ao universo do romance “água com açúcar”. A boa direção do islandês consegue conduzir bem a história dramática de Tami Oldham (Shailene Woodley) e Richard Sharp (Sam Claflin) e algumas interpretações também não decepcionam, mas vejo alguns problemas de ordem narrativa que tornam Vidas à Deriva um filme bastante irregular e até frustrante no balanço geral.

O novo longa-metragem de Kormákur traz uma bela sequência logo em sua abertura, quando a personagem de Shailene Woodley acorda e se descobre dentro do barco semi-naufragado. O diretor escolhe bem o plano holandês para transmitir o desespero da protagonista dentro da embarcação já quase abarcada. A câmera acompanha a personagem até a parte externa e abre o quadro para exibir ao público o estado de destruição de tudo ao redor de Tami. A sequência é realmente bem filmada e o cineasta consegue construir outros bons momentos de direção ao longo da projeção. Os planos gerais também funcionam bem para demonstrar o isolamento do casal na amplidão do oceano, à deriva por mais de quarenta dias. Contribui para isso também a ótima fotografia de Robert Richardson, que trata o ambiente marítimo como uma mistura de beleza e ferocidade. As mesmas águas cristalinas, que brilham calmamente à luz do sol, revelam sua fúria natural nos momentos de tempestade, em que a fotografia enegrece como em um preâmbulo de morte.

A atriz norte-americana Shailene Woodley prova seu talento com uma atuação que supera com folgas a de seu parceiro de cena. Enquanto Richard se monstra um personagem raso e monocórdio ou, em suas próprias palavras, nada além de um “peso morto”, com pouco carisma e profundidade, a personagem de Woodley se revela bem mais interessante e multi-dimensional. A experiência de Tami contém desespero (convincente, por exemplo, na cena em que ela nota a própria alucinação com um navio vindo ao seu encontro) e também alegria misturada a alívio (igualmente ótima a cena em que a jovem comemora a chegada da chuva como uma criança, completamente nua sobre a proa do barco). A atriz consegue salvar até diálogos fracos, como aquele em que sua personagem responde a Richard que ela preferiria passar por toda aquela situação a jamais tê-lo conhecido. O olhar perdido de Tami consegue ir além do clichê ultra-sentimental de um diálogo tão manjado e que já deve ter aparecido em algumas dezenas de filmes semelhantes.

Chegamos, então, aos dois grandes problemas de Vidas à Deriva – a sua montagem e o seu roteiro. A montagem em flashbacks até parece uma boa escolha, uma vez que dá dinamismo à narrativa. Mas o que se vê na tela é que a falta de inspiração do roteiro acaba comprometendo a fluidez da história e o próprio envolvimento do público com ela. Se as cenas envolvendo o naufrágio e os dias à deriva são até competentes, aquelas que abordam a paixonite do casal meses antes não passam de uma sucessão de lugares-comuns, sentimentalismo barato e chatices sem fim, que caberiam facilmente em qualquer romance adolescente. A construção do namoro entre Tami e Richard é frágil e infantil demais para justificar toda a cumplicidade entre eles nos dias pós-naufrágio e todo o esforço da moça para manter vivo o namorado ferido. Ao escolher uma montagem que se alterna entre o namoro e o naufrágio, Vidas à Deriva parece criar dois filmes diferentes e descolados entre si – o romance teen e o relato de sobrevivência. O resultado é que até o drama humano do casal de náufragos acaba perdendo pujança.

Por melhor que seja o trabalho de maquiagem dos atores e a boa tentativa de demonstrar a degradação de seus corpos – sujos, machucados e sofridos –, as deficiências do roteiro acabam comprometendo a história real de Tami Oldham e Richard Sharp levada à grande tela. O filme aposta em um plot twist como sua pedra de salvação, mas nem ele funciona a contento. No fim das contas, por entregar tão menos do que prometia, quem acaba naufragando mesmo é o próprio filme de Baltasar Kormákur.

Vidas à Deriva (Adrift) – EUA, 2018
Direção: Baltasar Kormákur
Roteiro: Aaron Kandell e Jordan Kandell
Elenco: Shailene Woodley, Sam Claflin, Elizabeth Hawthorne, Esteban Benito, Jeffrey Thomas
Duração: 99 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.