Crítica | Vidas ao Vento

estrelas 4

Meu primeiro contato com a obra de Miyazaki e os estúdios Ghibli se deu com o filme Kiki, a Aprendiz de Feiticeira. Lembro que fiquei deslumbrado com a qualidade da animação, além de sua história encantadora. Curioso, fui pesquisar sobre o filme, e somente então descobri sobre a carreira do diretor japonês Miyazaki. Daí em diante, graças principalmente à distribuição de Meu Amigo Totoro, o grande mestre da animação japonesa passou a ser mais conhecido e reconhecido pelo grande público brasileiro e internacional.  A apoteose deste sucesso culminou com A Viagem de Chihiro, que lhe valeu inclusive o Oscar de Melhor Filme de Animação.  A este se seguiram outros sucessos de Miyazaki, os populares O Castelo Animado e Ponyo – Uma Amizade que Veio do Fundo do Mar. A esta altura, Miyazaki já contava com uma grande leva de fãs no Brasil, que passaram a descobrir outras de suas obras que nem chegaram a ser lançadas nos cinemas – ou tiveram lançamento restrito, mas eram disponíveis nas locadoras ou pela internet, como Princesa Mononoke, O Castelo no Céu e Porco Rosso.

A notícia que Vidas ao Vento seria o último longa-metragem a ser dirigido por Miyazaki deixou estes fãs muitos tristes e ao mesmo tempo ansiosos. O filme demorou a ter sua distribuição garantida no Brasil, mas neste meio tempo, passou a receber diversos e importantes prêmios, que, como normalmente acontece, pareciam estar reconhecendo acima de tudo a carreira do diretor japonês. Afinal, como muito foi noticiado, o filme pegou todos de surpresa ao ter em seu enredo a história de Jiro Horikoshi, responsável pela concepção do avião de caça japonês utilizado pela primeira vez no ataque a Pearl Harbor. O tema deu margem a alguns críticos apontarem um certo desconforto ao verem Miyazaki, tão famoso por seus temas ecológicos e anti-belicistas, parecer estar glorificando num afã nacionalista alguém tão ligado ao aparato de guerra japonês da Segunda Guerra Mundial.

Este é o ponto nevrálgico do filme e o divisor de águas na análise deste Vidas ao Vento. Fãs ou não, iniciados ou experts da obra de Miyazaki, a apreciação como um todo deste que está sendo anunciado (mas não definitivamente) como seu último trabalho, dependerá de como você vai interagir e interpretar a história. O excelente trabalho técnico da equipe dos Estúdios Ghibli está lá, com seu inconfundível traço perfeccionista nos mínimos detalhes, tudo feito no velho estilo, o que diferencia as animações de Miyazaki daquelas produzidas pela Pixar ou pela Disney. As animações dos estúdios Ghibli sempre me chamaram a atenção pelo fato de parecerem “quadros vivos” (os tableaux vivants, como diriam os franceses), tamanha a sofisticação no uso das cores, na perspectiva, no rigor em recriar texturas e detalhes do “plano de fundo”, como ambientes e paisagens naturais. É como se os grandes pintores do final do século XIX e início do século XX houvessem reencarnado e passado a se dedicar a fazer filmes de animação, ao invés de pintar quadros.

Além disso, verdade seja dita, Miyazaki é o único diretor de animação que pode ser considerado um cineasta genuíno, dono de um estilo próprio como os grandes nomes do cinema – Hitchcock, Bergman, Fellini, por exemplo – e que, por opção, faz cinema de animação,  que há muito tempo deixou de ser considerado um gênero menor. Nem mesmo Walt Disney pode ser comparado a ele, já que, na minha opinião, o produtor americano era exatamente isso, acima de tudo: um executivo e empreendedor da área do entretenimento.

Mas, voltando ao filme, Vidas ao Vento, além de retratar a história do engenheiro aeronáutico Jiro Horikoshi, também se baseou no romance de Tatsuo Hori, de mesmo título do filme, no original: “O Vento se Levanta”, que se passa numa clínica de tratamento para tuberculose, a doença incurável da época. Por sua vez, ambos tiraram seus títulos de um verso do poema simbolista de Paul Valéry, Le cimetière Marin: “Le vent se leve, il faut tenter de vivre” (Ergue-se o vento, Há que tentar viver! – na tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Confia). Não é possível saber se o amor na vida de Jiro, Naoko, realmente existiu ou foi adicionada à história partindo do livro de Tatsuo Hori. Mas a única presença feminina de destaque do filme, tem o seu papel primordial em fazer um contraponto ao universo masculino de guerra e engenharia de Jiro, além de servir como o elemento que norteará uma interpretação (a que me filio) que isenta Miyazaki da acusação de glorificar os tempos do Japão na Segunda Guerra Mundial.

Vidas ao Vento inicia mostrando, desde criança, a paixão de Jiro pelos aviões. Desde cedo, o filme coloca a presença nos sonhos de Jiro do aviador italiano Caproni (retratado em outro filme de Miyazaki, Porco Rosso), atribuindo a ele sua fonte de inspiração. É somente nestas cenas de sonho que poderemos reencontrar a poesia visual de realismo fantástico tão presente nas animações de Miyazaki. No restante do filme, como talvez jamais ocorreu na obra do diretor, irão preponderar as sequências de tom realista: a recriação do grande terremoto de Tóquio de 1923, a doença de Naoko, e os detalhes técnico-científicos do trabalho de Jiro como designer de aviões para a Mitsubishi.

Este tom inegavelmente tão melancólico e duro de Vidas ao Vento, poderá causar estranheza mesmo a seus fãs mais incondicionais. Talvez não estejamos – ainda – diante da última obra do mestre japonês, mas sim, presenciando uma mudança na sua paleta de cores, que optou para esta obra em particular por tons mais secos, mais escuros, mais terrosos no tratamento da história. É como Picasso iniciando sua Fase Azul. Uma mudança no caminho sempre desagrada a alguns. É inegável que ao retratar em detalhes o desenvolvimento e aperfeiçoamento da máquina de guerra desenvolvida por Jiro, Miyazaki tenha colocado ali uma paixão também sua – uma metáfora para seu próprio processo criativo, mas que não pode ser confundida como uma apologia à guerra e à soberania perdida dos tempos de glória do Japão. Dito isto, retomo minha linha de pensamento que considera que a presença de Naoko serve exatamente para vislumbrarmos uma outra mensagem oculta no filme: o desperdício de vidas e talentos.

Vidas ao Vento pode ter seus probleminhas de roteiro, e talvez se estender um pouco mais do que o necessário, mas ainda é um bom Miyazaki. Não vá assisti-lo esperando um novo A Viagem de Chihiro ou um novo Princesa Mononoke. Vidas ao Vento é um novo Miyazaki. 

Vidas ao Vento (Kaze Tachinu) – Japão,  2013
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki
Elenco: vozes na versão original em japonês: Hideaki Anno, Miori Takimoto, Hidetoshi Nishijima, Masahiko Nishimura, Stephen Alpert, Morio Kazama, Nomura Mansai
Duração: 126 minutos

SIDNEI CASSAL. . . . Formado em Letras (Português/Francês) . Estudante de Direito. Trabalhei com redação e criação publicitária. Participei de Oficina de Cinema, em convênio com a TVE-Porto Alegre, onde os curta-metragens produzidos foram montados e exibidos. Cinéfilo de carteirinha.