Crítica | Vidas em Jogo

estrelas 3,5

Quando o nome de David Fincher vem à baila em conversas, raramente Vidas em Jogo é mencionado. Fala-se muito do erro que foi Alien³ e de seus sucessos, como Seven e Clube da Luta, mas não desse pequeno – mas não tão pequeno assim – filme estrelando Michael Douglas. É curioso, pois essa produção, apesar de não ser mesmo uma obra no mesmo nível de sua anterior, é um divertido thriller cheio de reviravoltas e com uma dos melhores atuações de Douglas.

É possível que o público – e também a crítica – estivesse esperando algo denso e pesado como Seven quando Vidas em Jogo estreou e tenha se desapontado ao se deparar com uma certa leveza. Mas o interessante é notar que Vidas em Jogo não é exatamente um filme leve. É claro que, porém, perto de Seven, ele é, como os americanos dizem, “um passeio no parque”.

Michael Douglas vive Nicholas Van Orton, basicamente a versão light de seu aclamado personagem Gordon Gekko, do já clássico Wall Street – Poder e Cobiça, misturado com Scrooge, do imortal conto de Charles Dickens tantas vezes adaptado para as telonas. Ele é um investidor milionário que trata tudo e todos com a mais completa indiferença. É seu aniversário quando o filme começa e as poucas pessoas que hesitantemente desejam “parabéns” recebem ou o silêncio absoluto em troca ou respostas por intermédio de sua secretária. Fincher estabelece essa personalidade também visualmente, trabalhando cores frias, posicionando a câmera sempre abaixo do personagem para mostrá-lo em sua imponência e deixando muito evidente, com um excelente set design, sua mais absoluta solidão, onde quer que esteja.

A trama esquenta quando a única pessoa que o vê como um ser humano, seu problemático irmão Conrad (Sean Penn), dá para ele um “vale-presente” de uma misteriosa empresa chamada CRS, sigla de Consumer Recreation Services (Serviços de Recreação para Consumidores), que, apesar do nome, não tem nenhuma relação com empresas de festas ou serviços de escort. Segundo Conrad, trata-se de serviços que podem mudar a vida de Nicholas, bastando, para isso, que ele ligue para lá. Não demora nada e a curiosidade do protagonista o leva até a CRS. O que acontece em seguida é o tal “jogo” do título em que Nicholas é arremessado em um elaborado e sofisticadíssimo esquema de role playing game.

É interessante reparar que o roteiro de John D. Brancato e de Michael Ferris nunca deixa dúvidas sobre a natureza da CRS. É uma empresa que oferece jogos sofisticados para super-milionários. Mesmo assim, a narrativa é trabalhada para nos surpreender a cada esquina. Ficamos na dúvida se o que está acontecendo é mesmo só um jogo ou se a CRS é uma empresa que tem como objetivo dar golpes em executivos. Ou pode até mesmo ser um jogo que deu errado e saiu do controle, sei lá. Como sempre acompanhamos Nicholas, vemos tudo sob seu enfoque, com a vantagem de olharmos para dentro de sua psiquê, voltando ao passado por intermédio de vídeos em Super 8 mostrando-o quando criança com seu pai e seu grande trauma. Esses flashbacks, se é que podemos chamá-los disso, nos aproximam do protagonista, quebrando – e explicando – sua frieza e David Fincher se aproveita dessa entrada para alcançar seu objetivo, que é testar até que ponto alguém como Nicholas, que sempre teve tudo, literalmente quebra. Afinal, o jogo (ou será que é outra coisa?) transforma o protagonista, de milionário, em indigente, tudo também por meio de sua atmosfera e de diálogos inteligentes bem inseridos na trama.

Vidas em Jogo é, com certeza, forma sobre substância. Seu dilema moral é batido. Sua proposta é lugar-comum. A execução é que se sobressai, o que inclui a flexível e convincente atuação de Michael Douglas e também a de Deborah Kara Unger, vivendo a bela garçonete Christine. Muito da ação se passa à noite e a fotografia de Harris Savides impressiona por não recorrer a truques básicos da filmagem noturna, como usar ambientes “molhados” para refletir a luz. Com isso, ganhamos perfeita clareza de onde estamos em São Francisco, onde se passa a história, além da escuridão nos presentear com sequências genuinamente assustadoras, como o momento do encontro de Nicholas com um certo palhaço. Esse aspecto somado à trilha sonora de suspense composta por Howard Shore empresta à fita uma bem-vinda atmosfera hitchcockiana.

Mas, realmente, no final das contas, falta substância, com a temática, ou moral da história sendo repetida diversas vezes, como já não estivesse clara desde pelo menos a metade da projeção. Além disso, o roteiro falha em seu final que, por ser extremamente hollywoodiano e, portanto, exagerado, exige demais da suspensão da descrença do público. Não que ela não fosse necessária antes, mas toda a sequência final, com seu tiroteio e improvável encadeamento de eventos, soa por demais artificial e forçada, quase que como o filme precisasse ser encerrado logo, mas que, ao mesmo tempo, precisasse de outro momento para surpreender o público.

Vidas em Jogo é um divertimento de alto nível, mas é só um divertimento. Não fará ninguém pensar profundamente sobre seus temas e nem mesmo sobre as reviravoltas. Fincher demonstra mais uma vez que é um grande diretor, trabalhando um roteiro que poderia ser apenas ok e transformando-o em cinema de alta qualidade com sua técnica.

Vidas em Jogo (The Game, EUA – 1997)
Direção: David Fincher
Roteiro: John D. Brancato, Michael Ferris
Elenco: Michael Douglas, Sean Penn, Deborah Kara Unger, James Rebhorn, Peter Donat, Carroll Baker, Anna Katarina, Armin Mueller-Stahl, Charles Martinet, Elizabeth Dennehy, Caroline Barclay
Duração: 129 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.