Crítica | Vidas Secas (1963)

Vidas Secas é um dos filmes que melhor representa as propostas estéticas e políticas do Cinema Novo no Brasil. Nelson Pereira dos Santos, responsável por traduzir Jorge Amado e Machado de Assis para a linguagem cinematográfica apresentou ao mundo uma leitura do romance homônimo de Graciliano Ramos, talvez a melhor produção literária do Romance de 30. Crítico, contundente e com os aparatos agressivos da estética cinemanovista, a trajetória de uma família em constante fuga pelo nordeste brasileiro é bastante atual, algo que infelizmente afirmamos com sensação cada vez menos utópica, principalmente diante do Brasil contemporâneo, mergulhado em suas contradições “de sempre”.

A história não é novidade para qualquer pessoa que tenha ao menos completado o Ensino Médio: Vidas Secas é a saga da família pobre de uma região afetada pela seca, em luta constante para superar a aridez e a hostilidade local. Além destes percalços, os sobreviventes precisam lutar contra algumas instâncias de poder da sociedade, dentre elas, a Igreja e o Estado. Nesta odisseia diária em busca de um trabalho que forneça moradia e comida, a trupe formada por Fabiano (Átila Iório), Sinhá Vitória (Maria Ribeiro), os dois filhos (menino mais velho e menino mais novo), o papagaio e a cachorra Baleia (personagem de grande impacto e importância para a história) revelam as camadas de desigualdade de uma sociedade desequilibrada.

Diante das suas necessidades, Fabiano implora ao fazendeiro Miguel (Jofre Soares), uma oportunidade. Inicialmente o possível provedor de comida e habitação o repele, mas depois cede espaço, sem deixar, obviamente, de explorar o trabalhador desesperado, numa relação “quase” feudal, salvas as suas devidas proporções. É 1941 e as oportunidades são escassas: Fabiano deseja ter gado para sobreviver, Sinhá Vitória sonha com uma cama confortável, mas com a presença nefasta da seca parece se reaproximar quase um ano depois de muita batalha. Tal como no romance ponto de partida, o ciclo se estabelece e a roda continua a girar. A provável promessa de um lugar melhor para viver é trocada pela necessidade de escapar do clima devastador que traz consigo muita dor e tristeza.

Juntamente com Herbert Richers e Luis Carlos Barreto, o cineasta assumiu a produção do filme, além do desafio que era dar uma roupagem cinematográfica ao romance em questão, ao dirigir e roteirizar. A estrutura crítica se manteve. Como homem das imagens, criador que dispõe de outros códigos, tais como a linguagem verbal oral, os créditos, os sons não verbais (ruídos e efeitos sonoros) e as imagens, Nelson Pereira dos Santos estava ciente do processo de tradução e da impossibilidade de fidelidade, uma maldição que ainda hoje acomete alguns que acreditam na fidelidade da obra cinematográfica em relação ao material literário que serve como ponto de partida. Diante do romance desmontável de Graciliano Ramos, algumas mudanças foram realizadas para atender às necessidades do roteiro: alguns fatos que ocorrem nos capítulos 03 (Cadeia) e 08 (Vila) estão justapostos no filme. Um flashback relativamente importante do capítulo 10 (Contas) ocorre momentos antes. Além disso, o cineasta acrescentou alguns elementos próprios, principalmente as adequações políticas, adaptadas ao seu contexto.

Por meio de uma leitura política, Nelson Pereira dos Santos abrange debates sobre reforma agrária, além da estrutura social brasileira. Em entrevistas, o cineasta alegou que “Graciliano Ramos é um dos romancistas que melhor expressam uma visão consistente da região Nordeste”, complementando que “o que o livro diz sobre o Nordeste em 1938 é ainda válido nos dias atuais”, isto é, em 1963, mas nada muito diferente de 2018, pelo menos no que tange ao desequilíbrio entre as estruturas que erguem a sociedade brasileira, cheia de altos e baixos, poucos ricos e muitos pobres abaixo da linha da miséria. Para o realizador, era necessário discutir estes assuntos, pois na época, muitos setores da sociedade estavam com seus debates afiados.

As suas peculiaridades técnicas não dialogam com o cinema agradável, isto é, com as narrativas esteticamente padronizadas. Não que o cinema de apuro estético formal seja ruim, ao contrário, pode ser extremamente prazeroso e crítico, sem perdas para ambos os caminhos, mas o que Nelson Pereira dos Santos faz em Vidas Secas, juntamente com a sua equipe, com destaque especial para a cinematografia de Luis Carlos Barreto, é incomodar o espectador com a sua câmera que expõe frames que cortam, queimam e traumatizam. Com planos longos, lentos e o calculado uso de diálogos para evitar verborragia e dispersão, o filme toca em seus pontos críticos sem necessitar de “berros”. Há uma sequência que merece destaque, entre tantas, todas formidáveis: na Igreja, os meninos estão espremidos, juntamente com Baleia, durante o ritual católico, o que representa com simplicidade, mas muita força, o caráter pouco convidativo e repressor do ambiente em questão.

Diante das ressonâncias da estética neorrealista, os 103 minutos de filme, realizado entre Minador do Negrão e Palmeira dos Índios, no sertão de Alagoas, deflagram a miséria e o ocaso com as classes menos abastadas através de travellings que revelam bastante do espaço cênico hostil, do constante uso do plano subjetivo para indicar o olhar humanizado da cachorra Baleia, bem como o trabalho sonoro, um dos principais responsáveis pelos momentos de inquietação do filme, haja vista a sua capacidade de se estabelecer como uma espécie de encapsulação de todo o território nordestino, um ambiente que através do violino arranhado e do carro de boi, ganha representações bastante metafóricas na evocação do atraso da região.

Eleito pela ABRACCINE como um dos 100 Melhores Filmes de Todos os Tempos, “honraria” que Nelson Pereira dos Santos divide com outros filmes seus inclusos nesta mesma lista (Rio, Zona Norte e Rio 40 Graus), Vidas Secas é uma produção de 1963 que ainda não envelheceu, pois a necessidade de debate acerca da reforma agrária, da luta contra a miséria e a desigualdade social está no topo da lista de temas que precisam de solução imediata.

Vidas Secas — Brasil, 1963
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Roteiro: Nelson Pereira dos Santos
Elenco: Átila Iório, Hugo Carvana, Ivan Cândido, Joel Barcellos, Maria Gladys, Nelson Xavier, Paulo César Peréio
Duração: 80 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.