Crítica | “Views” – Drake

estrelas 3

Drake caiu em um limbo onde os ouvintes sempre exigem o melhor dele e recebem sempre o esperado, para o bem e para o mal. Provavelmente o melhor dos méritos de Views, quarto trabalho de estúdio do rapper canadense, está em sua produção rebuscada, finíssima, junto a batidas simples, mas pontuais, resultando em um trabalho que durante alguns bons minutos segue viciante. O problema vem, talvez, em sua ambição de 20 faixas (o rapper já mostrou que gosta de fazer discos longos), algo que inevitavelmente faz Drake cair de qualidade em diversos momentos.

Keep The Family Close é o cartão de visitas para atrair a atenção do ouvinte, uma fantástica faixa de abertura cheia de batidas fortes que ampliam o teor dramático dos versos inconformados com o direcionamento de um relacionamento (“You are so predictable/ I hate people like you”). O que se segue a partir dali muitas vezes vem da paixão de Drake pelo R&B dos anos 90. Feel No Ways segue essa ideia, aqui liberada na forma de uma inteligente e dinâmica base eletrônica feita pra dançar. Esta mesma trilha segue através do belíssimo sample da canção Mary’s Joint de Mary J. Blige, que serve de backing vocal em Weston Roads Flows afim de conduzir, talvez, os melhores versos do rapper, proclamando com força e personalidade rimas perfeitamente encaixadas na métrica. Já a regular Too Good, com participação de Rihanna, mistura o soul com batidas dançantes orientadas para o rítmo latino.

Aliás, Views possui um belo trabalho de utilização de samples que não se resume apenas à citada Weston Roads Flows. Hotline Bling – um já clássico hit da música pop que teve a honra de se tornar até meme – para a surpresa de alguns, é uma faixa que utiliza algumas batidas de Why We Can’t Live Together do cantor americano Timmy Thomas. O hit “do momento” de Drake, One Dance, também é exemplo disso, pegando emprestado os beats tipicamente latinos da canção Do You Mind do DJ Paleface. Já 9 pega trechos do reggae  Dying do artista Mavado para a construção de uma ótima canção que aborda a relação de Drake com Toronto, sua cidade natal. E estes são apenas alguns na vasta lista de samples de Views

Como dito, a excelente produção é um bom trunfo no novo trabalho de Drake, conseguindo esconder alguns problemas. O conjunto de faixas possui bases minimalistas demais em certos momentos, algo que, unido ao fluxo do disco, torna grande parte da sonoridade crua, além de massante a experiência de audição do disco. Veja, por exemplo, a fraquíssima sequência RedemptionWith You – esta sendo a pior faixa, tanto pela batida monótona quanto pelas rimas simplórias – /Faithul/ Still Here/ Controlla, se salvando apenas em algumas poucas rimas e arroubos instrumentais (como a forte carga soul no desfecho inesperado de Faithul). O problema geral é exatamente a fluidez do álbum, que encara momentos pouco inspirados e tediosos, além de soar muito mais como um “recorte” ou um “compilado de canções”, do que como um disco realmente pensado em detalhes.

Views é mais um bom trabalho de Drake, repleto de ótimas canções, mas que não se conectam tão bem vistas de cima, como um todo, como uma obra completa. Ainda assim, é válido ver que o rapper ainda segue caminhos seguros, mesmo que longe de desbancar Nothing Was The Same como principal destaque em sua discografia.

Aumenta!: Feel No Ways
Diminui!: With You

Views
Artista: Drake
País: Canadá
Lançamento: 29 de abril de 2016
Gravadora: Young Money, Cash Money, Republic
Estilo: Hip-Hop, Pop, R&B

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.