Crítica | Vikings – 1ª Temporada

estrelas 5,0

Spoilers!

Obs: Leia as críticas das demais temporadas da série aqui.

Vikings estreou em 2013 e desde então vem colecionando fãs ao redor do mundo. Tanto a crítica especializada quanto o público em geral aprovaram a série. Não à toa, um mês após a estreia da 4ª Temporada, em fevereiro de 2016, saiu a notícia de que a série já estava renovada para uma 5ª.

A história se baseia em eventos verídicos e se passa na Escandinávia do século VIII, onde hoje se situam Suécia, Dinamarca e Noruega. Acompanhando a trajetória de Ragnar Lothbrook (Travis Fimmel), um viking ambicioso que veio a se tornar rei do seu povo, a série retrata o período no qual se iniciava o auge da era viking e as primeiras incursões a oeste do continente europeu eram realizadas, lugares que até então eram terras inexploradas para os escandinavos.

As sagas nórdicas, juntamente a outros contos épicos, influenciaram fortemente o subgênero conhecido como ‘espada e feitiçaria‘, que teve suas obras fundamentais criadas por Robert Ervin Howard, com os personagens Conan o Bárbaro e Kull. O que vemos em Vikings é o retorno a estas origens, principalmente se considerarmos o fato de que é um recorte pouco utilizado em obras de ficção para o cinema e a TV. É muito mais comum termos contato com filmes ou séries que retratam o império romano, Grécia antiga ou Egito antigo. Aqui temos um grande esforço de pesquisa que traz um belo resultado em tela com figurino, maquiagem, direção de arte e roteiro trazendo ao espectador um grande e detalhado desfile de referências aos costumes e características do estilo de vida do povo viking.

Mas vamos começar pelo início. A primeira sequência do Episódio 1 já nos apresenta dois elementos essenciais da série: o gosto pelas batalhas, característico de um povo guerreiro, e a religião, abordada através de uma visão tida pelo protagonista. Foi por meio das batalhas e da imposição pela força que os vikings expandiram seus domínios e conquistaram novas terras, influenciando radicalmente a história do continente europeu. E assim começa a série, com Ragnar e seu irmão Rollo (Clive Standen) vencendo mais uma batalha, numa cena brutal. A religião possui grande destaque no roteiro, servindo como motivação aos personagens e permeando diversos momentos da trama, dos mais rotineiros às decisões mais importantes. Falarei sobre a religião mais adiante.

Passando a cena inicial vemos a abertura da série. E meu amigo… que abertura. Se eu a tivesse visto antes de conhecer a série (através de notícias) já seria, por si só, motivo suficiente para me interessar. A música If I Had a Heart, da cantora Karin Dreijer Andersson (Fever Ray) caiu como uma luva; seu estilo gótico, ritmo lento e o instrumental combinam demais com o clima de Vikings. A melodia lembra até um canto de batalha e as imagens selecionadas evocam aspectos centrais da trama: a religião, a guerra e a ganância (riquezas).

Com produção do History Channel, a série se preocupa em retratar detalhadamente muitos elementos históricos que permitem ao espectador entender como funcionava a sociedade viking. A religião é o tema cultural mais recorrente na primeira temporada; a cada episódio sabemos um pouco mais sobre seus deuses, lendas, crenças, locais sagrados, rituais, etc. Não vou discutir aqui a fidelidade histórica da série. Toda obra de ficção acaba tomando certas liberdades, normalmente para fins narrativos, uma vez que o propósito é voltado ao entretenimento e não documental. Em Vikings esta questão realmente não importa, pois cada aspecto místico ou religioso é muito bem inserido e explorado na trama. Os sacrifícios, a figura do vidente (cego fisicamente, mas dotado de habilidades intuitivas e clarividentes), o ritual de iniciação dos meninos à vida adulta, as referências aos deuses contidas nos diálogos, tudo tem um motivo, servindo para construir um contexto histórico relevante e para dar profundidade aos personagens.

Mais do que a religião ou o misticismo em si, outro fator importante é o conflito cultural. Com o início das expedições às terras inglesas, torna-se evidente o espaço que a história dá às divergências de religiosidade das duas culturas. Enquanto os vikings demonstram completo desdém pelo cristianismo, os cristãos demonstram grande incapacidade de compreender os motivos de atos tão bárbaros e hostis. Mais do que isso, os ingleses se mostram incapazes de reagir à altura para evitar que sejam flagelados. E devo dizer que tal dicotomia se desenvolve muito bem ao longo da trama, principalmente quando Ragnar toma para si um dos monges cristãos como escravo.

Inicialmente, o monge Athelstan (George Blagden) não entende os costumes ou os considera blasfemos, como na ótima (e para mim hilária) cena em que Ragnar e sua esposa Lagertha (Katheryn Winnick) fazem sexo e o convidam a participar. Porém, com o passar do tempo, o monge vai imergindo cada vez mais na cultura viking e, mesmo que relutantemente, se interessando e compreendendo as motivações e costumes do povo nórdico.

Ragnar o trata de forma decente, apesar de ser um escravo, e os diálogos entre ambos são bastante interessantes, muitas vezes de cunho filosófico. Eles cativam o espectador e são esclarecedores principalmente para entendermos os princípios e motivações do protagonista. Diferente dos seus conterrâneos, Ragnar se interessa pela língua e cultura do monge cristão, enxergando na sua convivência com ele uma oportunidade ímpar de aprender tudo sobre sua sociedade. Ele antecipa a utilidade que tal conhecimento pode lhe proporcionar futuramente.

É importante lembrar que um dos motivos que levaram ao declínio da era viking foi a introdução do cristianismo em sua sociedade, suprimindo princípios e costumes guerreiros. Os nórdicos acabaram assimilados pelas culturas com as quais se relacionaram. Não sei ao certo como a série irá abordar este tema nas próximas temporadas, mas é interessante perceber a evolução deste aspecto e os desdobramentos que pode gerar na trama.

Ainda sobre Ragnar, é um personagem de fato muito bem trabalhado. Ele é quem melhor conhecemos na série e se destaca pela perspicácia, audácia e inteligência. A história se move em função de suas atitudes: Floki (Gustaf Skarsgård) constrói o barco a seu pedido, ele é quem convence os companheiros e os lidera nas expedições ao oeste europeu, decide tomar o monge como seu escravo (sendo que pouco antes o salvou de ser assassinado friamente pelo seu irmão Rollo) e desafia Earl Haraldson (Gabriel Byrne) para um duelo, o que define o seu novo status na trama. A cena do fim da temporada na qual ele lança um desafio de inteligência à princesa Aslaug (Alyssa Sutherland) — nem vestida e nem nua, nem sozinha e nem acompanhada, nem faminta e nem satisfeita — demonstra seu lado sagaz. Se por um lado pode parecer um pouco forçado, já que o personagem parece ser o único na série a pensar de forma tão diferenciada, por outro lado a forma como os eventos fluem é totalmente plausível, dando contornos de credulidade ao roteiro.

Fora Fimmel, há outros atores que se destacam na série. O elenco é na verdade muito bom, não consigo apontar um dos protagonistas que fique devendo no papel, mas, devo destacar quatro deles em especial. Gabriel Byrne, que interpreta Earl Haraldson, está ótimo no papel do líder autocrático que ao mesmo tempo em que se sente ameaçado por Ragnar, o respeita por suas atitudes ousadas. Katheryn Winnick que dá vida a Lagertha, uma personagem forte, pouco passiva como esposa e guerreira de grande habilidade. Nathan O’Toole, que vive Bjorn, o filho de Ragnar, é um garoto de muito talento que tira de letra cenas complicadas para uma criança (o beijo numa mulher durante o ritual de iniciação, a forma como lida com a vida íntima dos pais — sexo, aliás, definitivamente não parece ser um tabu na sociedade viking — e em algumas conversas com Athelstan ou com o próprio pai, nas quais demonstra um nível de discernimento elevado para a sua idade). E também Clive Standen, o intérprete de Rollo, que nutre pelo irmão um ciúme velado (mas evidente ao espectador), que cresce a cada episódio. Clive consegue transmitir uma personalidade dúbia, que realmente inveja as conquistas do irmão, mas não consegue ainda assumir um conflito aberto com ele, dando um ar de traição iminente às ações do personagem.

Sobre a maturidade de Bjorn, vejo com bastante credulidade diante do contexto apresentado em Vikings. Vemos o personagem, ainda criança, aprender a lutar com espada, participar de reuniões entre os homens que tratam de assuntos da comunidade, fora o ritual de iniciação, no qual ele deve beijar uma mulher adulta (conforme citado anteriormente). Além disso, o sexo é um assunto tratado com naturalidade pelos adultos, mesmo na presença de Bjorn. Ou seja, num ambiente assim, me parece natural que, mesmo tão jovem, o garoto tenha uma idade mental avançada.

Após tantos aspectos positivos, devo ainda destacar o ritmo da história. Diferente de muitas outras séries, Vikings não tem a enrolação que estamos cansados de ver em tantos outros seriados; aqueles episódios que não levam a lugar nenhum, ou sequências que não servem pra nada além de prolongar uma temporada a fim de gerar maiores audiências. Aqui as coisas andam muito rápido, cada episódio faz a trama de fato progredir. Espero mesmo que esta qualidade se mantenha nas temporadas seguintes, pois é um grande atrativo de Vikings.

Na minha visão, o melhor episódio da temporada é o quarto, pois é nele que todos os elementos da trama se estabelecem; percebemos que os ataques às terras inglesas terão sérias consequências mais à frente, o conflito entre Ragnar e Earl fica declarado (evidenciando o quão longe Ragnar pretende ir para realizar seus objetivos), Rollo demonstra definitivamente sua inclinação a agir contra o irmão (apesar de ajudá-lo no final) e vimos a força de Lagertha, tanto física quanto psicológica. Além disso, a cena de batalha na praia é ótima; bem dirigida e com atuações convincentes, ela vai terminando aos poucos, com os soldados ingleses caindo um a um e os bárbaros perseguindo os últimos, que tentam fugir quando percebem a derrota iminente.

Mais ainda, há que se destacar o ótimo o final da primeira temporada. O último episódio não é exatamente uma conclusão, mas utilizado para inserir bons ganchos para o início do ano seguinte. O que eu mais gostei é que Ragnar, que demonstrou ser tão destemido ao longo dos nove episódios, encontrou seu maior desafio fora dos campos de batalha.

Vikings tinha tudo pra ser uma série cujo principal atrativo fosse as cenas de lutas, mas, felizmente, provou que pode oferecer muito mais do que somente sequências de ação. Com personagens bem construídos, roteiro ágil e boa abordagem histórica e cultural a série cai facilmente no gosto do público e gera grande expectativa para a segunda temporada.

Vikings – Season One (Canadá/Irlanda, 2013)
Criador/ Roteirista: Michael Hirst
Direção: Ciaran Donnelly, Johan Renk, Ken Girotti
Elenco: Travis Fimmel, Katheryn Winnick, Clive Standen, Gustaf Skarsgård, Gabriel Byrne, George Blagden, Nathan O’Toole
Duração: 42 min por episódio
Episódios: 9

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.