Crítica | Vikings – 2ª Temporada

vikings segunda temporada ok

estrelas 3

Spoilers!

Obs: Leia as críticas das demais temporadas da série aqui.

A segunda temporada pode ser considerada a hora da verdade para Vikings. Após um excelente primeiro ano, é chagado o momento de sabermos se a série é tudo isso mesmo e se o nível vai manter-se elevado após o sucesso ou se os criadores vão perder a mão, deixando a qualidade cair. Como dizem, o difícil não é chegar ao topo, mas manter-se lá em cima.

A nova temporada de Vikings começa exatamente de onde parou a primeira. Rollo se alia a Jarl Borg contra Ragnar e o que vemos no primeiro episódio é uma intensa cena de combate; Rollo luta com muita fúria, mata um dos seus ex-companheiros, deixa Floki à beira da morte, mas não consegue combater contra o irmão quando finalmente o encontra no campo de batalha. A luta termina com a vitória do exército de Ragnar e eles voltam para Kattegat, com Rollo como prisioneiro e traidor. Após isso, Rollo é julgado e absolvido “pelos deuses”, demonstrando então arrependimento pelos atos que cometeu.

Ainda no primeiro episódio, vemos a Princesa Aslaug chegar com sua comitiva a Kattegat, carregando o filho de Ragnar. Isso gera uma cisão entre Lagertha e Ragnar e também algumas cenas hilárias; as caras que o ator Travis Fimmel faz após a chegada de Aslaug não impagáveis. Ele não precisa dizer nada, mas o medo que sente da reação de Lagertha fica estampado no seu rosto, parece um garoto que fez besteira e não sabe como contar à mãe. E Lagertha faz exatamente o que se esperava de sua personagem; ela não pode aceitar a traição de Ragnar, ao mesmo tempo em que não pode obrigá-lo a rejeitar seu vindouro filho, restando-lhe a opção de abandonar o vilarejo e manter sua honra, acompanhada por Bjorn, que optou ficar com a mãe.

Se por um lado este primeiro episódio me agradou bastante, especialmente com o rompimento de Ragnar e Lagertha (porque um casal apaixonado e inabalável é muito clichê para Vikings, a meu ver), por outro lado fiquei com um pé atrás. Vimos durante toda a primeira temporada o desenvolvimento do personagem Rollo, seu ressentimento em relação ao irmão e como sua inveja crescia gradativamente com o passar do tempo, para, em apenas um episódio, ele se arrepender de tudo. Pareceu-me demasiadamente precipitado e me fez temer pela qualidade desta segunda temporada.

Uma mudança significativa em relação à temporada anterior é que agora a trama não evolui mais somente em função do personagem Ragnar Lothbrok. Pelo contrário, ele vai, em boa parte do tempo, se adaptando às decisões que outros personagens tomam. Aqui ele precisa ser mais sábio e manipulador, o inimigo não se encontra mais somente no campo de batalha. Traição e intrigas são temas fundamentais aqui. A trama então cresce, com mais personagens e mais espaço para os coadjuvantes. Consequência natural, já que a história ganhou proporções maiores desde que Ragnar se tornou Earl.

E isso é ótimo, pois alguns personagens ganham importância e proporcionam bons momentos à série: Jarl Borg (Thorbjørn Harr), Siggy (Jessalyn Gilsig), Rei Horik (Donal Logue) e Bjorn (Alexander Ludwig, após a passagem de 4 anos), são os destaques. Lagertha e Rollo continuam carismáticos e essenciais para a trama. Já a Princesa Aslaug (Alyssa Sutherland) tem participações pouco significativas, apesar de ter sido a razão da separação de Ragnar e Lagertha, mas não por culpa da atriz. Suas cenas se resumem a ter filhos, cuidar dos filhos e fazer previsões. Por ser a nova esposa de Ragnar, esperava mais relevância da sua personagem, como foi Lagertha na primeira temporada (e ainda é). Athelstan perdeu o peso que tinha na temporada inicial (já digo os motivos).

Tenho que destacar (só mais um pouco) a atriz Katheryn Winnick, que só cresce no papel de Lagertha. A personagem é muito bem construída e a atriz transmite a firmeza necessária sem perder a feminilidade. A relação conturbada com Earl Sigvard rende cenas excelentes, sendo uma pena terem sido pouco exploradas.

Sobre o roteiro (concretizando meus temores após assistir o primeiro episódio), percebe-se que se perde em alguns momentos e não consegue acolher de forma bem amarrada todos os personagens e aspectos da trama. Athelstan é crucificado quando capturado em terras inglesas, mas pouco depois aparece bem e já de pé. Lembra-se que Floki passou um tempo na cama, se recuperando, após a luta contra Rollo? Ou o próprio Rollo, ferido no fim desta temporada? Ademais, a forma como se deu a ascensão de Lagertha a Earl poderia ter sido mais bem trabalhada, pois não ficou claro como uma desconhecida conquistou tão rapidamente o respeito do povo liderado por Earl Sigvard, superando inclusive possíveis aspirantes ao poder. Além disso, era de se esperar que Earl Sigvard quisesse ter filhos com ela, mas isto nem é mencionado. Acredito que, em ambos os casos, houve uma tentativa apressada de resolver a situação para colocar cada peça em seu lugar (Lagertha perto de Ragnar e Athelstan próximo ao Rei Ecbert), para evoluir a linha narrativa principal.

Na crítica da primeira temporada, expliquei sobre quão interessante era a relação entre Athelstan e Ragnar. Aqui, nota-se a tentativa de repetir a mesma dinâmica, desta vez com o Rei Ecbert no lugar de Ragnar, mas sem sucesso. Ecbert, como personagem, não tem a mesma profundidade de Ragnar e nem a mesma empatia com o público, então a química não funciona. Assim, Athelstan fica subutilizado; se ele não existisse não faria muita diferença na trama (proponho um exercício de imaginação: tente contar mentalmente a história da segunda temporada sem mencionar Athelstan). Sua crise de fé é até bem trabalhada, mas de uma maneira meio paralela ou isolada à linha narrativa principal, sem relação intrínseca com a história, diferente do que ocorreu no ano anterior.

Outro aspecto que me incomodou foi os “vai-e-vens” da trama, às vezes dando a impressão de que a história andava dois passos pra frente e um para trás. Rollo começa louco de raiva contra Ragnar, mas logo se arrepende; Rei Horik decide que não quer mais contar com o apoio de Jarl Borg e em seguida resolve se aliar a ele novamente; Athelstan se mostra bem adaptado ao estilo de vida nórdico, em seguida passa por uma nova crise de fé e no final se junta novamente aos vikings.

Nota: de certa forma enxerguei as decisões de roteiro como uma tentativa de dar mais cadência à trama, pois na 1ª Temporada tudo acontecia muito rápido, o que, para alguns, pode ser entendido como superficial. Já pra mim, era um diferencial positivo, pois passava longe de qualquer tentativa de estender desnecessariamente a história. Porém, o resultado da 2ª Temporada, que pode ser bem visto por alguns, a meu ver foi exagerado, pelos motivos já citados. Talvez um meio termo a partir da terceira temporada caia bem.

Apesar das minhas críticas ao roteiro, a série ainda rende bons momentos. A sequência da tortura da águia de sangue, o reencontro entre Ragnar e Bjorn (ponto para Travis Fimmel nesta cena!), a tomada de Kattegat e, principalmente, o plot twist do episódio final são excelentes. O elenco, muito competente e ponto forte da série, cativa e gera empatia com o público.

Além disso, as referências históricas estão lá! Quem tiver interesse em pesquisar ou já conhece sobre a Idade Média percebe que a arte está imitando a vida. A trama se passa bem no início do período que ficou conhecido como Era Viking, com os primeiros ataques às terras ocidentais, as referências a personalidades e locais reais, costumes, religião, etc.

Porém, acredito que os deslizes apontados fazem com que a história fique meio arrastada em alguns momentos, diferente da temporada de estreia, que avançava de maneira mais consistente e a história tinha um ritmo melhor. Esta temporada não tem o mesmo encanto da primeira, mas está longe de ser ruim e reúne boas qualidades. Com isso, a série se mantém no topo, apesar desta tropeçada de leve.

Vikings – Season 2 (Canadá/ Irlanda, 2014)
Criador/ Roteirista: Michael Hirst
Direção: Ciaran Donnelly, Ken Girotti, Jeff Woolnough, Kari Skogland
Elenco: Travis Fimmel, Katheryn Winnick, Clive Standen, Gustaf Skarsgård, George Blagden, Jessalyn Gilsig, Alexander Ludwig, Linus Roache, Alyssa Sutherland, Ivan Kaye, Donal Logue
Duração: 43 min. por episódio

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.