Crítica | Vikings – 3ª Temporada

estrelas 3,5

Obs: Leia as críticas das demais temporadas da série aqui.

Cada temporada de Vikings tem se diferenciado uma da outra, como se Michael Hirst, roteirista e produtor da série, fizesse pequenos experimentos a cada ano; ou para ver o que funciona melhor ou para explorar aspectos diversos por temporada, fazendo a série encorpar gradativamente. O que dá o tom do primeiro ano é a ambição (é o que motiva as ações de Ragnar e seu antagonista, Earl Haraldson). No segundo ano é a traição que permeia a história (nunca sabemos em quem confiar; a reviravolta do episódio final evidencia isso). Neste terceiro ano o tema predominante é o poder. Com Ragnar consolidado como rei, a série dedica bastante tempo ao desenvolvimento das relações de soberania. Ragnar e Ecbert são as peças fundamentais, sendo, respectivamente, reis da Escandinávia e Wessex (este último, o reino mais estável da Inglaterra). Temos também, em outras posições de liderança, Lagertha, Kalf, Kwenthrith, Aethelwulf, Aelle, Charles e Gisla.

Pode-se dizer que Ecbert e Ragnar jogam uma partida de xadrez, escondendo suas reais intenções e preocupações, mas, ao mesmo tempo, tentando tirar algum tipo de vantagem um do outro. Enquanto isso, reis de outros reinos, princesas, príncipes e earls são manipulados pelos dois para que, na hora certa, estejam devidamente posicionados.

É um bom plot para a história, principalmente pelo fato de que os personagens citados possuem personalidade bem diferente uns dos outros, proporcionando uma dinâmica bastante interessante. Neste aspecto a série tem sido muito boa desde o início, pois consegue, em poucas cenas, falar muito de cada personagem, concedendo a eles um bom nível de profundidade. O próprio Ecbert, que ficou um pouco deslocado na temporada anterior, agora tem papel fundamental na trama, se mostrando tão astuto quanto Ragnar. Além dele, o oportunista Kalf, o fraco Rei Charles, a determinada Princesa Gisla, o pau-mandado Príncipe Aethelwulf e a depravada e sedutora Kwenthrith foram excelentes acréscimos ao já ótimo elenco.

Em meio a golpes, alianças, traições, acordos e tramoias há de se destacar a Rainha Kwenthrith da Mércia, interpretada pela atriz Amy Bailey. Ela consegue dar vida a uma personagem que ao mesmo tempo é degenerada, traiçoeira, charmosa e corajosa. O que ela fez com o irmão no quarto episódio foi de uma frieza sem igual, numa cena excelente, tanto pela surpresa do acontecimento em si quanto pelas interpretações de todos os presentes. Melhor cena da temporada, fácil!

Ah, só pra não perder o costume, tenho que tecer mais alguns elogios à personagem Lagertha, de Katheryn Winnick. Suas relações amorosas (isso mesmo, no plural) são muito bem inseridas, pois ela não é o tipo de mulher facilmente seduzida que cai na conversa de qualquer um. Pelo contrário, os homens é quem caem na conversa dela (haha). É a típica mulher dona do seu nariz que dá vazão aos seus desejos sem se deixar envolver ou dominar. Durona e feminina, ela se entrega sabendo onde está pisando; a cortada em Ecbert, após a cena de sexo sugerido, e a ameaça para Kalf, antes de se entregar a ele, deixam isso muito claro.

Na direção, o destaque fica para Kelly Makin, que só trabalhou em dois episódios de toda a série. E coube a ele a missão de dirigir a maior batalha de Vikings até aqui: a invasão a Paris. O episódio 7, Paris, serve como preparação do terreno, retratando a insegurança do Rei francês diante da guerra iminente e o trabalho de planejamento dos nórdicos, liderados por Ragnar. O episódio seguinte, To the Gates!, nos presenteia com a mais longa (30 minutos) e empolgante sequência de batalha de toda a série. É sensacional a forma como vemos a organização dos vikings para romper as barreiras de Paris e os recursos defensivos que os franceses apresentam. Durante a ação, a câmera acompanha a evolução do confronto em takes aéreos ou laterais, não muito próximos, que nos permite ver os detalhes de tudo o que acontece. As coreografias de luta também são muito boas, principalmente as do ator Clive Standen (Rollo), que encarna aqui um verdadeiro berserker.

Mesmo sendo uma ótima cena, cabe ainda uma crítica para os núcleos narrativos apresentados. A batalha é vista de duas perspectivas principais: o grupo liderado por Lagertha e Kalf que investe contra o portão principal e a torre de madeira (que é só uma de dezenas) na qual se encontra Rollo, Bjorn e Ragnar. Isso minimiza a dimensão da batalha e só conseguimos visualizar o tamanho real do combate nos planos abertos, que são feitos com bom uso de CG. Aí a sequência fica muito oito ou oitenta; acredito que poderia ter havido mais núcleos narrativos para compor melhor o panorama da batalha.

Acerca do roteiro, há ainda algumas falhas que incomodam um pouco aos mais atentos. A onipresença de Floki, principalmente no começo da temporada, resgatando a pulseira que Athelstan joga no mar (sei lá como, mas enfim) e encontrando o sobrevivente do massacre na colônia nórdica em Wessex. Quando Ragnar mata esse sobrevivente (cujos motivos até então são meio nebulosos) não sabemos como ele se livra do corpo. Ou como ele leva o corpo de Athelstan (assassinado por Floki) para fora de Kattegat sem ninguém perceber. São pequenas facilidades que acabam empobrecendo o roteiro; um pouco mais de cuidado resolveria.

Um elemento curioso, que valoriza a inteligência do público, é a passagem do tempo. Vikings não usa as clássicas legendas do tipo “dois anos depois” para explicar ao espectador o tempo decorrido. Nós é que devemos prestar atenção aos detalhes para perceber esta dimensão: as estações do ano (visíveis na paisagem e nas roupas), o envelhecimento dos personagens e as mudanças de visual (cabelos, barba, etc). Só uma vez me lembro de legenda informando o ano vigente da história, sendo que foi logo no começo do primeiro episódio da série, para situar historicamente o espectador.

No âmbito geral, são três pilares que mantém a série firme desde o início: elenco talentosíssimo, um protagonista bem desenvolvido e esmero ao abordar aspectos históricos (que, aliás, é uma marca registrada de Michael Hirst, considerando seus trabalhos pregressos como The Borgias, The Tudors, Elizabeth e Elizabeth – A Era de Ouro). Tais elementos mostram-se mais do que suficientes para sobrepujar os poucos pontos fracos. Este terceiro ano só não é melhor do que o primeiro, o mais equilibrado e tecnicamente competente de todos até aqui, mas consegue entregar uma obra de alta qualidade, mantendo o interesse do público e sempre deixando bons ganchos para a temporada seguinte.

Vikings – Season 3 (Canadá/ Irlanda, 2015)
Criador/ Roteirista: Michael Hirst
Direção: Ken Girotti, Jeff Woolnough, Helen Shaver, Kelly Makin
Elenco: Travis Fimmel, Katheryn Winnick, Clive Standen, Gustaf Skarsgård, George Blagden, Jessalyn Gilsig, Alexander Ludwig, Linus Roache, Alyssa Sutherland, Amy Bailey, Sarah Greene, Jefferson Hall, Moe Dunford
Duração: 43 min por episódio
Episódios: 10

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.