Crítica | Vikings – 4ª Temporada: Parte 2

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estrelas 5,0

spoilers. Leia as críticas das demais temporadas da série aqui.

O criador da série, Michael Hirst, já disse em entrevistas que Vikings é uma trama geracional, que não fala sobre um personagem em específico, mas sobre como as aventuras de um povo puderam influenciar o mundo. Depois dos eventos da segunda parte da 4ª Temporada, olhando em retrospecto, podemos perceber o quanto isso é verdade. Alguns podem dizer “ah, mas agora está na cara“; então eu digo que a questão não é estar ou não na cara, mas avaliar tecnicamente o quanto a trama tem sido bem trabalhada para chegar até aqui. Principalmente, como coadjuvantes e subtramas foram bem desenvolvidos e estruturados para, mais tarde, ganharem o protagonismo da série, dando então o caráter geracional pretendido pelo autor.

Se você conhece um pouco de História, com certeza “sacou” muitas passagens que estavam por vir. Mas o mérito está na forma como isso se desenrolou em tela. Simplesmente colocar um acontecimento após o outro só porque é o que a História diz não tem muito valor. Neste ponto, Vikings acerta, pois os fatos são muito bem amarrados, o roteiro é bem conduzido e os personagens têm bastante profundidade. Tudo isso dá ao roteirista muitas cartas na manga para usar quando preciso. E acredite, Hirst usa todas elas.

Esta segunda parte começa com o retorno de Ragnar Lothbrok após anos desaparecido, tendo de confrontar os olhares desconfiados de seu povo e, principalmente, dos seus filhos. Enquanto isso, os ingleses tiveram alguns anos de certa tranquilidade (que estão prestes a terminar), Rollo encontra-se estabelecido na França ao lado da Princesa Gisla, com a qual teve três filhos e Lagertha não está satisfeita com o reinado de Aslaug. Neste cenário, a trama mais importante é a de Ragnar. O público tem acompanhado sua trajetória desde os tempos de fazendeiro, earl e posteriormente rei, até o início de sua decadência física e mental, já recorrentes na primeira parte do quarto ano. Aqui, a grande expectativa gira em torno de sua motivação: o que Ragnar está tramando, afinal de contas?

A princípio, não gostei da forma como ele conduziu sua vingança contra os ingleses, pois me pareceram ações desconexas, sem uma finalidade específica. Por exemplo, Ragnar tentou se livrar da própria vida, da responsabilidade que amigos e família enxergavam sobre suas costas. Neste momento pensei: o que ele pretende com isso? Voltou só para se matar? Então por que voltou? Só depois, após o fracasso da sua tentativa, que teve o lampejo de levar adiante sua vingança da forma como de fato vimos. Ou seja, não foi o que ele planejou com o seu retorno, mas foi a ideia que simplesmente lhe ocorreu. O personagem demonstrou muita sabedoria, perspicácia e inteligência ao longo da série, talvez por isso eu esperava algo mais bem elaborado e assertivo de sua parte, não uma atitude puramente emocional. Será que o roteiro da série estava lhe dando atitudes que contradiziam as características do personagem?

Por outro lado, pensando melhor, Ragnar é humano. Tem suas qualidades e também seus defeitos, sente orgulho de algumas atitudes e se arrepende de outras. Como qualquer um, Ragnar envelheceu, adoeceu e não tem demonstrado a mesma firmeza já há algum tempo; entre erros e acertos, tem também muitas dúvidas sobre si mesmo, pois a coroa de um rei é deveras pesada. Sendo assim, seria natural que ele não retornasse absolutamente íntegro para esta segunda parte, e foi o que aconteceu. Porém, algo do grande Ragnar Lothbrok ainda existia, o que o levou até ali ainda estava vivo dentro de si e foi por isso que, só depois, ele colocou em prática as ações que desencadeariam sua vingança, da forma que lhe coube. Seu discurso final é tocante, bravo e digno de sua reputação. Então, na verdade, o roteiro deu ao protagonista atitudes que complementaram de maneira épica a trajetória de um grande herói.

Neste ponto é interessante salientar os simbolismos envolvidos na morte de Ragnar, comparando-a com a morte de Jesus. A série tem trabalhado muito bem, desde o primeiro episódio, os elementos religiosos, fazendo paralelos entre as crenças nórdica e cristã. Mas, no episódio 15, é impossível não perceber a intenção do roteiro de endeusar a figura de Ragnar, comparando-o com Jesus. Ambos tiveram de peregrinar até o local de sua morte, sendo torturados e zombados pelo caminho; só que a cruz que Ragnar carrega é a jaula onde está aprisionado, que é também objeto do seu constante desconforto e parte de sua punição, assim como a cruz de Jesus. Ambos são golpeados por uma lâmina na barriga (sendo uma lança e um punhal, no caso de Jesus e Ragnar, respectivamente). A faca de Aelle corta a testa de Ragnar, assim como a coroa de espinhos o faz com Jesus. Também há destaque para suas mãos, quando as cobras as mordem, uma referência às chagas de Cristo. Além disso, os dois dão suas vidas por seus povos: Jesus para redimir os pecados da humanidade e Ragnar para expiar os seus próprios (pois se sentia culpado pelo massacre no assentamento viking), dando aos nórdicos um mártir pelo qual se uniriam (menos nobre, eu sei, mas ele era um viking). Por fim, se entregam aos seus destinos de forma deliberada, aceitando o que lhes aguarda com paz interior; Jesus o faz sem negar o seu Deus, assim como Ragnar não pede a absolvição exigida pelo Rei Aelle.

Olhando não somente para esta sequência, mas para a série como um todo, vejo isso como uma crítica à hipocrisia religiosa, mais especificamente ao cristianismo, desde a inquisição até aos casos recentes de pedofilia, comprovados pela imprensa e acobertados dentro da igreja. Os vikings são considerados bárbaros, somente por não se adequarem ao padrão de ‘civilidade cristã’. A série também os retrata com uma mentalidade mais aberta em relação à sexualidade. Porém, não vemos os nórdicos esconderem ou se envergonharem do seu estilo de vida, pelo contrário, têm orgulho e se vangloriam de suas escolhas. Já os cristãos cometem crimes “em nome de Deus” e vivem na libertinagem, apesar do que dizem os princípios de sua fé. Lembram da orelha cortada de Judith? Ou a relação dela com o Rei Ecbert, pai do seu marido, Aethelwulf que, por sua vez, cria o filho dela com o monge Athelstan, concebido fora do casamento? Então, quem são os bárbaros afinal de contas?

Veja bem, não estou dizendo que os atos dos vikings sejam louváveis. Eles saqueiam, torturam, pilham e matam. Mas é um estilo de vida honesto com ele próprio (ninguém prega uma coisa e faz outra), dentro de parâmetros até certo ponto aceitáveis na Idade Média ou cultura desses povos. Já os cristãos são diferentes; pregam amor, humildade e misericórdia (lembrem dos Dez Mandamentos) mas suas ações dizem o contrário. Historicamente, foi o cristianismo que prevaleceu mas, até este ponto da série, os ingleses deram aos nórdicos um mártir que terminou sua vida tal qual Jesus (que ironia!), e um motivo para de fato declararem guerra e exigirem vingança.

A partir daqui, outros personagens importantes têm a responsabilidade de levar a série adiante, dentre eles Bjorn e Lagertha. Ambos sempre tiveram importância na trama e seus intérpretes, Alexander Ludwig e Katheryn Winnick, têm se destacado desde o início pelas excelentes atuações. Um grande acréscimo ao elenco deste quarto ano (e que, com certeza, será essencial também do próximo) é o ator Alex Høgh Andersen, ao qual coube o papel de Ivar, um dos filhos de Ragnar. O personagem havia criado muita expectativa na 1ª Parte da temporada, conforme detalhado na crítica anterior, e o ator não decepciona. Imprevisível, agressivo e inteligente, ele busca afirmação e glória, saindo da sombra do pai e superando a subestimação nutrida por seus pares, por causa de suas limitações físicas. O ator entrega um personagem extremamente expressivo, conseguindo dizer muito com um simples olhar. Destaque para duas cenas suas: quando descobre a morte da mãe, com seu olhar gelado e raivoso e na emboscada a Lagertha, juntamente com seu irmão Ubbe. Quando ele se arrasta em direção a ela, fincando estacas no chão, sua expressão de ira é sensacional. Este é o seu primeiro papel de maior expressão, mas vale a pena ficar de olho nos próximos.

Desta forma, se concretiza uma etapa da passagem de bastão da série, de velhos e saudosos para alguns novos personagens e outros nem tanto. Foi ótimo ver a interação entre os cinco filhos de Ragnar, sendo que o fato de terem mães diferentes e um mesmo interesse amoroso contribuiu muito para a sua dinâmica e desenvolvimento. Aethelwulf também teve mais tempo de tela, o que fez muito bem ao personagem. Apesar de sempre ter sido submisso ao pai, acredito que a forma como ele termina o último episódio determinará uma postura diferente no ano seguinte. Sobre Lagertha, já a elogiei muito nas críticas passadas (tanto a personagem como a atriz); devo dizer somente que ela continua incrível, sempre roubando a cena. Espero sinceramente que a personagem sobreviva até o fim da série.

Esta segunda parte tem um tom diferenciado da primeira. Os dez episódios iniciais foram mais frenéticos, com eventos mais grandiosos. Os dez finais são mais cadenciados, mas sem perder em dramaticidade. Pelo contrário, a dinâmica entre os novos personagens, bem como o desfecho de alguns arcos, acrescentam tensão à trama e os ganchos para a temporada seguinte são muito empolgantes.

A missão de Vikings era difícil: se despedir de seu carismático protagonista e, ao mesmo tempo, manter a consistência do arco dramático principal. Até aqui, deu tudo certo. Decisão corajosa dos produtores e do roteirista Michael Hirst, com pelo menos 20 episódios para o fim da série, talvez mais. Vemos tantas produções, entre séries e filmes, se apoiarem em um único personagem ou até em fiapos de roteiro, enquanto Vikings se dá ao luxo de abrir mão do seu protagonista em prol de buscar voos mais elevados, apostando no crescimento de arcos secundários e no consistente desenvolvimento de personagens.

Vikings – 4ª Temporada: Parte 2 — Canadá/ Irlanda, 2016/ 2017
Criador/ Roteirista: Michael Hirst
Direção: Ken Girotti, Ciaran Donnelly, Jeff Woolnough, Helen Shaver, Ben Bolt, Daniel Grou, Sarah Harding
Elenco: Travis Fimmel, Katheryn Winnick, Clive Standen, Gustaf Skarsgård, Alexander Ludwig, Linus Roache, Alyssa Sutherland, Moe Dunford, Georgia Hirst, Jennie Jacques, Alex Høgh Andersen, David Lindström, Jordan Patrick Smith, Marco Ilso, Ida Nielsen, Ivan Kaye, Peter Franzén
Duração: 10 episódios de 43 min.

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.