Crítica | Vikings – 5ª Temporada: Parte 1

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Há SPOILERS. Leia as críticas das demais temporadas da série aqui.

Com o final da 4ª Temporada, o grande desafio de Vikings era manter o sucesso mesmo após a morte do seu protagonista, Ragnar Lothbrok. Para isso, Michael Hirst, criador e roteirista da série, apostou no desenvolvimento gradativo de outros personagens para que pudessem, então, assumir a responsabilidade de encabeçar as ações do enredo. Desta forma, Ivar, Bjorn e Lagertha tiveram esta incumbência, ladeados por Harald e o Bispo Heahmund, sendo este último uma adição ao elenco para a 5ª Temporada.

Com Ragnar morto, os nórdicos têm agora a tarefa de consolidar a vitória contra os ingleses através de novas batalhas de uma guerra que deve ainda render muitos bons momentos para a série. Além disso, cresce a ameaça de uma guerra civil, já que os filhos de Ragnar, sua ex-esposa Lagertha e Harald lutam pela coroa de rei.

E a série já volta com “o pé na porta”, com um primeiro episódio mais do que empolgante, no qual Bjorn e Halfdan partem para explorar novas terras, enquanto Ivar demonstra astúcia e inteligência ao elaborar planos de batalha que sobrepujam os de seu irmão Ubbe e Lagertha enfrenta a desconfiança dos seus liderados. Paralelamente, o Bispo Heahmund, a serviço do agora Rei Aethelwulf, define táticas de ataque e contenção contra os nórdicos e Floki parte sem rumo pelo mar. Com ritmo preciso e frenético, característico da série, a nova temporada retoma o enredo de forma consistente e prende facilmente o espectador.

Ainda no primeiro episódio há uma boa amostra do nível de barbárie e crueldade perpetrada pelos vikings, principalmente na impressionante cena da invasão a York, que termina com o brutal assassinato do padre que rezava a missa. Além de proporcionar bons momentos de ação, a violência não é gratuita, pois, neste caso, é um elemento do roteiro usado para retratar o caráter predatório dos “bárbaros”; cada vilarejo ou nação invadida serve para prover recursos (ouro, prata, terras, etc) à subsistência e expansão nórdica.

No entanto, infelizmente, a agilidade do roteiro fica de lado com a inserção de algumas subtramas bem mais lentas e um tanto desnecessárias. A primeira é a viagem de Bjorn a uma região da Itália e do Oriente Médio, que tomou parte dos seis episódios iniciais da temporada e terminou sem amarração significativa com a linha narrativa principal. Para se ter uma ideia, se nada disso tivesse sido mostrado, a compreensão da trama teria sido exatamente a mesma. Sua função como evolução narrativa (aproximação dos personagens Bjorn e Halfdan) é simplória demais para justificar a quebra de ritmo como consequência. Outra subtrama deslocada é a empreitada de Floki na nova terra. É mais uma passagem que quebra a imersão do espectador toda vez que surge na tela e, lamentavelmente, também se mostrou desconectada do enredo. Mesmo ainda sem conclusão, foi responsável por momentos arrastados.

No entanto, a trama principal é muito bem conduzida, ágil e envolvente. Por exemplo, quando Hvitserk sugere solicitar a Rollo o apoio do seu exército, imaginei que o desenrolar levaria uns três episódios para se concretizar (viagem de ida, percalços, chegada, conversa, espera pela resposta, volta, blá, blá, blá…); porém, felizmente, no mesmo episódio, Hvitserk já informava a Ivar que Rollo aceitara seu pedido. Ou seja, neste caso, é mostrado só o que importa.

Sem a presença de Ragnar, o roteiro busca distribuir o tempo de tela entre seus principais personagens. Dentre eles, talvez Ivar (Alex Høgh) e Lagertha (Katheryn Winnick) tenham tido maior destaque, o que é natural, já que ambos encabeçam as ações que dividem os nórdicos. E os dois atores com certeza têm competência para tal responsabilidade, como já havia comentado na crítica da quarta temporada. inclusive, a personagem de Katheryn Winnick vive agora um momento bem diferente de todo o resto da série, exigindo que a atriz dê novos tons dramáticos à personagem. Até então, a aparentemente inabalável Lagertha percorreu uma trajetória ascendente, conquistando cada vez mais espaço e respeito como guerreira e rainha. No entanto, dúvidas e intrigas começam a surgir no seu círculo interno de confiança, fazendo com que muitos duvidem de sua capacidade de liderança. O texto deixa claro que ela está cansada de lutar e de ser traída, que é o mesmo tipo de pensamento que assolou Ragnar ao longo da temporada passada, antes da sua morte. Isso, somado ao desfecho trágico do seu combate com Astrid e ao seu estado no final do último episódio, faz crer que a personagem talvez esteja com seus dias contados.

Por falar em Astrid, sua intérprete Josefin Asplund faz um trabalho sensacional com a personagem, que teve agora mais espaço do que nunca. A cena mais difícil da temporada (que envolve uma sugestão de estupro coletivo), no sexto episódio, foi seu melhor momento. Com atuação vivaz e cheia de nuances, a atriz merecia uma trajetória mais longeva na série.

Um grande chamariz para o quinto ano de Vikings com certeza foi a presença de Jonathan Rhys Meyers interpretando o Bispo Heahmund, que surgiu na última cena do quarto ano. Ele é um bispo guerreiro inglês que encontra Aethelwulf com o objetivo que rechaçar as investidas nórdicas. O personagem é de fato muito interessante, pois apresenta características controversas, sendo muito bem personificado por Meyers. Seu lado guerreiro é voraz e mortal no campo de batalha, podendo até ser comparado aos melhores combatentes vikings da série; além disso, ele usa de sua posição para se aproveitar de donzelas desamparadas em busca de orientação. E, é claro, sempre utilizando a palavra de Deus para justificar suas ações.

No quinto episódio, após ser capturado pelo inimigo, ele tenta, através da fé, encontrar razão ou sentido em sua jornada pessoal. A partir daí, decide guerrear ao lado de Ivar; depois, ferido em batalha, é salvo por Lagertha e, por isso, coloca sua espada a seu serviço. No entanto, essa mudança de lado (ao menos temporária) torna o personagem menos interessante. Enquanto inimigo dos nórdicos ele constituía um adversário à altura, tanto mentalmente, com sua experiência em batalhas, quanto com a espada em punho; já como aliado ele fica menos relevante, perdendo espaço quando o foco narrativo passa a ser somente a guerra civil viking.

O episódio final traz uma abordagem de direção bem diferente do que nos foi apresentado na série até aqui. O diretor Daniel Grou narra a sequência da segunda batalha do exército de Lagertha contra o de Ivar de perspectivas individuais e de forma não linear. Sob os olhares pessoais de Harald, Halfdan, Astrid, Lagertha, Ubbe e Hvitserk, o que vemos na verdade é a luta interna de cada personagem, com memórias e sentimentos que cada um carrega consigo ao campo de batalha. Grou intercala habilmente instantes do presente, passado e futuro para mostrar uma guerra que coloca frente a frente irmãos, aliados e amigos. Ademais, o design de produção em Vikings continua soberbo; cenários, decoração, objetos de cena e figurinos remetem à sensação de rudeza e austeridade no modo de vida e também à rotina laboriosa dos vikings, que são aspectos que dialogam diretamente com o teor da série.

Nesta metade inicial da nova temporada o roteiro peca em aspectos importantes. Com tramas paralelas que ficam soltas, dois importantes personagens acabam sendo mal aproveitados, Bjorn e Floki (sem Ragnar, ambos poderiam ter tido participação mais relevante). Heahmund é um ótimo novo personagem, mas que acaba perdendo espaço a partir do sexto episódio. Por outro lado, o último capítulo traz a esperança do retorno consistente de Rollo; irmão de Ragnar, Rollo acabou sendo pouquíssimo aproveitado após seu estabelecimento em Paris. Além disso, a trama principal flui muito bem e o elenco, sempre excelente, conta com atores que sempre atendem ou superam as expectativas.

Mas afinal de contas, Vikings consegue manter a qualidade mesmo sem Ragnar? No geral não, pois esta foi a temporada mais morna da série até o momento, pelos motivos aqui explorados. No entanto, tais motivos não têm necessariamente relação direta com a morte do protagonista; são fatores que, se tivessem sido melhor trabalhados, teriam contribuído muito para tornar a temporada bem mais azeitada. Desta forma, há ainda bastante conteúdo e potencial a serem explorados afim de manter a fidelidade dos fãs. Ou seja, os dez episódios finais do quinto ano, que devem sair ainda em 2018, têm agora a responsabilidade de fazer o que a primeira metade não conseguiu com consistência.

Vikings – Season 5 (Canadá/ Irlanda, 2017 – 2018)
Criador/ Roteirista: Michael Hirst
Direção: Daniel Grou, David Wellington, Steve Saint Leger, Ciarán Donnelly, Jeff Woolnough
Elenco: Katheryn Winnick, Gustaf Skarsgård, Alexander Ludwig, Jonathan Rhys Meyers, Moe Dunford, Georgia Hirst, Jennie Jacques, Alex Høgh Andersen, Jordan Patrick Smith, Marco Ilso, Ida Nielsen, Peter Franzén, Jasper Pääkkönen, Josefin Asplund, Ferdia Walsh-Peelo
Duração: 43 min por episódio
Episódios: 10 (primeira metade da temporada) – sendo que o primeiro episódio foi duplo.

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.