Crítica | Vikings, Os Conquistadores

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estrelas 3

  • Crítica publicada na comemoração do aniversário de 100 anos de Kirk Douglas, em 9 de dezembro de 2016.

Vikings, Os Conquistadores (1958) traz Kirk Douglas vivendo um “vilão” viking (Einar, filho de Ragnar) e também assinando como produtor. A obra tem narração inicial de Orson Welles, muita demonização dos povos nórdicos, incoerências histórias e tramas clichês; uma verdadeira salada esperada para uma obra sobre a “cultura viking” e suas relações com os bretões. Embora o cinema não seja em nada obrigado a seguir os fatos Históricos, pois prima pelo espetacular e não há nada de errado nisso, há sim a necessidade de fazer com que as escolhas se aproximem o mínimo que seja do real — exceção aos longas propositalmente revisionistas — e que tenham correspondências dentro do próprio enredo, o que não acontece, de fato, em Vikings, Os Conquistadores.

Dirigido por Richard Fleischer, que já trabalhara com Douglas em 20.000 Léguas Submarinas (1954), o longa é uma adaptação do romance de  Edison Marshall, e foi levado para o cinema seguindo os passos do gênero “espada e sandálias”, com mesclas de drama histórico clássico (quase todas as cenas no castelo de Aella — personagem caricato demais, por sinal — demonstram isso) e intrigas políticas ou sociais dos reinos. Esses caminhos narrativos se encontram, mas não de forma harmônica, para formar a base da história: dois reinos em expansão e personagens bons e maus lutando por seus desejos. Como disse antes, o roteiro demoniza os vikings, mas se o espectador tem noção desse tom utilizado, a intenção é filtrada e é possível assistir à fita sem problemas conceituais ou ideológicos maiores.

Todavia, para além de um roteiro sobre bárbaros versus civilizados, destaca-se a fotografia de Jack Cardiff (Oscar na categoria por Narciso Negro, 1947), os figurinos e a direção de arte. Percebam como os planos abertos fazem questão de colocar cores adicionais nas vestimentas de figurantes que preenchem o espaço e como a câmera acompanha os momentos de cada um em sentidos diferentes, para colocar mais pessoas e mais objetos e dentro do quadro. A sequência da batalha na Bretanha e todas as cenas do interior da cabana de Ragnar também são um exemplo disso. Novamente se vê os vikings retratados de forma incorreta na maioria desses banquetes (a composição textual de Ragnar é um insulto, embora a interpretação de Ernest Borgnine seja muito boa e nos faça esquecer o restante).

Falta ao filme uma maior independência entre os blocos, o que acaba custando bastante ao foco narrativo. Nós entendemos que a presença de um Lorde e uma Princesa da Bretanha nas terras nórdicas é o ponto de ligação para o domínio dos vikings e a futura batalha, mas se olharmos para além disso, não há muita coisa a se considerar, não há um verdadeiro desenvolvimento desse universo. Quando pensamos que o cenário dos bárbaros está funcionando por sozinho, surge um elemento de dependência com a Bretanha. Já no caso oposto, o problema é outro. Existe uma falsa ideia de ciclo, porque a cena no castelo está lá no começo e no final, mas é preciso perceber a serviço de quais personagens o castelo aparece. E ao responder isso, voltamos ao dilema da falta de foco, certamente um grande problema dos autores durante a adaptação.

Kirk Douglas está excelente em cena, com sua lente opaca (e dolorosa de se usar) para imitar o olho ferido por um falcão, formando um par inimigo perfeito com Tony Curtis. Ambos protagonizam as melhores sequências de embate de ideias e sonhos no filme, pelo menos até a chegada ou pontual aparição de Morgana (Janet Leigh, em interpretação mediana e chorosa), um desvio impossível de não acontecer em uma obra dessas, mas que não contribui para seu avanço. O padre Godwin e o rei Aella, mesmo aparecendo menos tempo, acabam tendo um papel bem mais relevante nesse aspecto.

Vikings, Os Conquistadores tem uma produção artística admirável e belas tomadas dos diferentes lugares onde foi rodado, os fiordes da Noruega e da Croácia, mais locações na França e na Alemanha. Trata-se de um filme que rememora o épico, mas não é épico; que traz certas regras da cartilha “espada e sandálias”, mas não é um filme desse gênero; que traz boa parte da composição de vilões e (quase) mocinhos das intrigas palacianas e históricas, mas acaba sendo parcial demais ao elencá-las. O resultado final consegue divertir pela trajetória dos personagens — ninguém resiste a uma “jornada do herói”! — e por sua estética, mas o caminho até o final está cheio de problemas, notadamente de roteiro, algo que não dá para simplesmente ignorar.

Vikings, Os Conquistadores (The Vikings) — EUA, 1958
Direção: Richard Fleischer
Roteiro: Calder Willingham, Dale Wasserman (baseado na obra de Edison Marshall)
Elenco: Kirk Douglas, Tony Curtis, Ernest Borgnine, Janet Leigh, James Donald, Alexander Knox, Maxine Audley, Frank Thring, Eileen Way, Edric Connor, Dandy Nichols, Per Buckhøj
Duração: 116 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.