Crítica | “Villains” – Queens Of The Stone Age

estrelas 5,0

“Save me from the villains of circumstance”.

No dia 14 de junho a página do Queens Of Stone Age postou um bem humorado vídeo de anúncio de seu novo álbum, Villains, sequência do aclamado …Like A Clockwork. Nele, Josh Homme, vocalista e a grande mente por trás do grupo, é submetido a um teste de polígrafo e suas mentiras vão confirmando os detalhes a respeito do lançamento. Eis que a última pergunta do teste chama atenção: “Você gosta de dançar?”, pergunta o examinador, seguido de um “Wow, sim, eu gosto”, dito com precisão por Josh que, em divertido tom cômico, dá uma piscadela para a câmera. É justamente essa pergunta que dividirá os fãs da banda no novo trabalho. Afinal, como diria Drax em Guardiões da Galáxia Vol. 2, existem dois tipos de seres no universo, os que dançam e os que não dançam.

Produzido por Mark Ronson – responsável por produzir Amy Winehouse, Adele, Bruno Mars, entre outros – o sétimo álbum da banda sabe gerar sonoridades completamente vintages sem precisar viver na sombra do passado. É óbvio que Ronson incorpora elementos sessentistas aqui, mas o frescor que o produto final oferece é extremamente moderno e autêntico (algo que costuma não acontecer quando o produtor trabalha com nomes como Bruno Mars). A partir do primeiro momento que o riff entorpecente de Feet Don’t Fail Me entra em cena ele gruda na consciência do ouvinte e de lá não sai. É viciante. Temos aqui o que eu definiria como um exemplar perfeito do que precisa ser o rock no cenário musical atual. Uma música que saiba confrontar o propósito do pop sem perder a essência do que é rock n’ roll. Basicamente, que tenha culhões pra usar a bateria soando como beats e as guitarras quase como sintetizadores.

Enquanto The Way You Used To Do – primeiro single – era curto, direto e pop, bastante voltado para o mercado, o segundo, The Evil Has Landed, vem para acalmar os fãs mais exigentes. Temos aqui uma canção entoada com toda a atitude necessária a um bom rock n’ roll, pegando influências de Led Zeppelin em riffs flamejantes de Troy Van Leeuwen que não cansam de surpreender, chegando a vezes flertar com o progressivo durante seus 6:30 minutos. “Come Close” – Homme pede ao ouvinte para se aproximar sem medo e se deixar imergir em uma catártica construção musical. Embora os riffs roubem a cena guiando o ouvinte por um arranjo que não cansa de tomar esquinas inesperadas (compararia tal composição até a Bohemian Rhapsody), quem constrói mesmo os passos de dança é Jon Theodore, que aqui arrebenta na bateria.

Através de apenas 9 faixas o grupo vai montando uma obra extremamente coesa, sem se prender a fórmulas. Cada canção tem voz própria, ainda que siga um selo “Villains” bem característico. Veja Domesticated Animals, por exemplo, que carrega uma peculiaridade enorme comparada a outras canções: a faixa é construída basicamente em cima de um único e simplista riff, mas o que a banda extrai dela é um groove assustador e uma energia incomparável, impedindo que a monotonia sequer arrisque se aproximar. É difícil falar de evolução de músicos com tanto tempo de carreira, mas é notório o desenvolvimento de cada membro aqui. Provavelmente a que mais será percebida será a respeito do vocal de Josh Homme, que segue melhor do que nunca, merecendo destaque para sua interpretação riquíssima de tons e faces em Un-Reborn Again.

Head Like A Haunted House é o que seria uma reformulação perfeita da rockabilly para os tempos atuais. Não há economia nos riffs, que fazem questão de construir uma canção agitada, urgente e assustadoramente dançante e visceral. Tudo isso graças não somente às guitarras, mas ao groove bem pontuado do baixo de Michael Shuman e, principalmente, novamente a bateria frenética e enlouquecida de Jon Theodore. E Mark Ronson tem papel fundamental nisso tudo: a bateria soa diferente do som padrão do instrumento e deixa o som quase como o de um maquinário enfurecido (tudo a preço de um melhor rítmo propício a dança), além de requintes muito bem incorporados ao arranjo, como um discreto teremim e brilhantes backing vocals.

Mas não se deixe enganar, por baixo da abordagem aparentemente “pop” de Villains há questionamentos bastante contemplativos nas excelentes letras de Homme. Veja, por exemplo, as belíssimas baladas Fortress e Hideaway. A primeira discursando sobre amadurecimento de forma brilhante, debatendo sobre a queda das “fortalezas” e “máscaras” construídas ao longo da vida, que terminam derrubadas uma vez alcançada a completa aceitação pessoal. Já a segunda, embora possa aparentar uma canção romântica, facilmente poderia ser interpretada como uma metáfora sobre as faces de predador e presa escondidas dentro do autor, que questiona a qual dar atenção.

O fantástico encerramento do disco, com a intimista Villains Of Circumstance, corrobora mais uma vez o afirmado no parágrafo anterior. Se trata de, basicamente, um poema que discursa a imprevisibilidade da vida, o envelhecimento, as perdas ao longo do tempo e vários outros “vilões da circunstância” através de uma honestidade emocionante na voz de Josh Homme. Destaque para a instigante e arrebatadora transição dos versos para o refrão, de estrutura muito semelhante a The Vampyre Of Time And Memory, presente em …Like A Clockwork. Um lindo ato final para uma obra sólida e bem construída.

Toda banda deve se reinventar a fim de se manter relevante. Esqueça Rated R, Songs For The Deaf ou qualquer resquício stoner dos tempos de Kyuss, o QOSA aqui segue a discografia sem olhar para trás, visando cada vez mais traçar caminhos corajosos e inspirados. Nenhuma outra banda no atual cenário “rockeiro” tem conseguido se desprender do passado e se renovar com tanta perfeição quanto a trupe de Josh Homme, completando um processo iniciado em …Like A Clockwork (talvez um dos poucos álbuns influentes do gênero nessa década). Villains tem como objetivo um ponto um tanto vilanesco para os rockeiros mais “durões” e conservadores: fazer dançar. Josh Homme provou que, em plena era de sintetizadores e DJs, também é possível dançar ao som de guitarras distorcidas.

Aumenta!: The Evil Has Landed
Diminui!:

Villains
Artista: Queens Of Stone Age
País: Estados Unidos
Lançamento: 25 de agosto de 2017
Gravadora: Matador
Estilo: Rock Alternativo

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.