Crítica | Vingadores da Costa Oeste (2018) #1

Entre 2016 e 2018, Kelly Thompson escreveu os títulos solo da Gaviã Arqueira (“gaviã” não existe em português, mas, aparentemente, vale tudo na ficção…) e de Miss América, com o primeiro cancelado em sua 14ª e o segundo em sua 12ª edição. Mas a roteirista, antes também responsável pelo igualmente pouco longevo Força-A, conseguiu imprimir seu estilo leve e inteligente em seus textos, mostrando que pode ter grande futuro na Marvel Comics assim que encontrar o “pote de ouro” ou assim que a própria editora souber marketear de verdade alguns de seus títulos que, por serem inovadores, exigem um trabalho de divulgação – e investimento de tempo e dinheiro – fora da curva.

Vingadores da Costa Oeste é mais uma tentativa de Thompson de emplacar um título incomum, trazendo de volta um conceito oitentista da Marvel, quando o Gavião Arqueiro e sua então esposa Harpia, por sugestão do Visão, fundaram a dissidência californiana dos Vingadores em uma minissérie de quatro edições de 1984 que abriu espaço para uma bem-sucedida série de 102 edições (com uma renomeação desnecessária para Avengers: West Coast lá pela metade) entre 1985 e 1994. O que a roteirista então procura fazer é homenagear o conceito original, trazendo Clint Barton, o Gavião Arqueiro e sua pupila Kate Bishop, a Gaviã Arqueira (em inglês, os dois nomes são idênticos, o que é bem aproveitado por Thompson) tentando montar um grupo de super-heróis – não necessariamente Vingadores, que fique claro, pelo menos não nesse comecinho – na Costa Oeste.

Em tese, Barton está ali só para dar apoio a Bishop e para a autora fazer a ponte entre a versão original do grupo e esta aqui. Afinal, é Bishop que, tendo se mudado para a Califórnia para tornar-se investigadora particular, lidera o possível grupo, que começa a ser formado por seu namorado Johnny Watts, ou Fuse, personagem criado para a série e que é basicamente a versão magra e cheia de piercings do Homem Absorvente e Miss América. A pegada é leve e cômica, com o catalisador sendo o ataque, em Santa Mônica, quatro semanas antes, de “tubarões terrestres” que Bishop tem dificuldade de derrotar sozinha e cuja ação é intercalada com entrevistas com os demais membros sem que entendamos exatamente o que está acontecendo.

Não demora muito e, em uma narrativa não linear muito bem estruturada, aprendemos que os tais misteriosos – e ao mesmo tempo surrealmente hilários – tubarões é que levam Kate a começar a entrevistar possíveis candidatos para um grupo super-heroico que é a desculpa perfeita para Thompson chutar o pau da barraca e trazer personagens bizarros como um sujeito sem poderes ou habilidades que se veste de “pão”, uma mulher esnobe que só quer saber de ser entrevistada pelo outro “Hawkeye” e um fulano (ou fulana, não sei) cujo poder é… bem, atrair aranhas. Há vários outros em uma sucessão inspirada e cativante que acaba atraindo, completamente ao acaso, Gwendolyn Poole, mais conhecida como Gwenpool que, não tendo nada melhor que fazer, fica por ali. Em seguida, completando a equipe até o momento, vem Quentin Quire, ou Kid Omega, cuja presença não poderia ser mais detestada, mas que vem com algo importante para Bishop: dinheiro para manter o grupo. Mas, como nada na vida é de graça, esse prometido dinheiro exige que ela abra espaço para um reality show interessado em Quire como parte de um grupo, o que explica as tais entrevistas que abrem a edição (e que lembra o fatídico evento com os Novos Guerreiros em meio ao seu próprio reality show que foi o estopim da saga Guerra Civil).

Kate Bishop versus tubarões terrestres!

Em outras palavras: trata-se de um grupo heterogêneo e preparado milimetricamente para dar muito errado. Ou, pelo menos, é isso que Thompson deixa entrever na dinâmica entre todos ali e na disparidade de nível de poder entre eles. A promessa de diversão, portanto, é grande se o leitor deixar-se levar pelo estilo bobo, mas cheio de coração e de graça que a roteirista imprime eu seu texto descompromissado. Se tudo o que eu disse aqui não for o suficiente para convencer alguém a mergulhar nesse título, então basta dizer que a edição inaugural acaba com uma Tigresa gigante (outra personagem com mitologia muito ligada aos Vingadores da Costa Oeste) e em estado feral aparecendo na praia e sendo enfrentada pelo grupo (é particularmente sensacional a forma como Thompson satiriza os super-heróis mega-poderosos quando coloca Quire como o cara que se oferece para “desligar” a Tigresa, sendo imediatamente vetado pelo grupo).

Mas a cereja no bolo é outra aparição completamente do nada e 100% absurda e de chorar de rir: um surfista cabeludo e com um cabeção desproporcional vestindo apenas uma calça justa de couro e uma bota branca e apresentando-se como B.R.O.D.O.K., sigla para Bio-Robotic Organism Designed Overwhelmingly to Kiss (ou, em tradução literal, Organismo Bio-Robótico Desenvolvido Esmagadoramente para Beijar). Não sei quanto a vocês e não faço ideia quem é ou como ele será desenvolvido, mas apenas sua existência já é suficiente para Kelly Thompson ter meu voto de confiança por pelo menos 100 edições dessa maravilha!

No lado artístico, Stefano Caselli adota traços leves, mas muito expressivos para lidar com os personagens que, mesmo rejuvenescendo demais Clint Barton, funciona harmonicamente com o texto de Thompson. Ele é também espartano com os detalhes de fundo quando eles não não são importantes para a progressão narrativa, mantendo a atenção do leitor no que realmente interessa constantemente. Igualmente, ele tem domínio das páginas, variando a distribuição de quadros conforme o roteiro exige, sem seguir fórmulas pré-estabelecidas e sem furtar-se de explorar páginas inteiras como a da chegada de Tigresa, que emula o pôster de A Mulher de 15 Metros, clássico dos anos 50.

Mesmo com toda a promessa que essa primeira edição contém, tenho dúvidas se esse será o título que quebrará o feitiço da pouca duração do que Kelly Thompson escreve. Afinal, o que ela faz aqui é montar um grupo estranho que só vai ficando mais bizarro na medida em que a história progride, o que pode alienar muita gente. Espero, porém, que ela ache seu público, pois qualquer pessoa que cria um personagem como B.R.O.D.O.K. merece seu lugar ao sol!

Vingadores da Costa Oeste (2018) #1 (West Coast Avengers Vol. 3 #1, 2018)
Roteiro: Kelly Thompson
Arte: Stefano Caselli
Cores: Triona Farrell
Letras: Joe Caramagna
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 22 de agosto de 2018
Páginas: 31

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.