Crítica | Vingadores: Era de Ultron

“Eu fui construído para salvar o mundo. As pessoas iriam olhar para os céus e enxergariam esperança. Eu irei tirar isso delas.”

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Vingadores: Era de Ultron é um filme consideravelmente diferente de seu antecessor. De certa forma, é o primeiro grande projeto da Marvel Studios, com uma quantidade enorme de personagens aparecendo, diferentes trajetórias sendo criadas ao mesmo tempo, confrontos de magnitude muito maior e consequências ainda mais relevantes para o resto do universo. A proporção aumentaria significativamente em Capitão América: Guerra Civil e promete aumentar ainda mais no vindouro Guerra Infinita, mas definitivamente o segundo filme sobre a super-equipe já tinha características desse escopo megalomaníaco. Os Vingadores era um filme de equipe, Era de Ultron é um evento. Por acaso, este evento é protagonizado pela super-equipe. Da mesma maneira, observa-se uma mudança de tom, mesmo que não tão gigantesca, presente o suficiente para que notemos até uma paleta de cores diferenciada. Para exemplificar, o Incrível Hulk (Mark Ruffalo) tem uma pele esverdeada que, no final das contas, acaba caindo para tons mais acinzentados. Os cenários dos confrontos são completamente distintos dos de Os Vingadores, saindo da luxuosa Nova Iorque para ambientações marginais, muito mais empobrecidas, mas também muito mais humanas. Na trama, a presença maligna também denota mais impacto, gravidade na situação, assim como, dada a quantidade muito maior de personagens, torna-se incerto quem sobreviverá e quem irá morrer.

Este viés mais sombrio acaba sem se casar perfeitamente bem com o lado mais humorístico de Joss Whedon, diretor que gosta de trabalhar muito a relação de seus personagens pelo humor. O casamento ainda funciona, não sendo o caso de uma obra que quebra o seu peso dramático com piadas, o que aconteceria em outros casos mais para frente, mas uma produção que não sabe o que quer com as suas tiradas cômicas, muitas inseridas ao acaso como, por exemplo, a Dra. Helen Cho (Claudia Kim) comentando sobre a presença do Deus asgardiano em determinada festa. O humor como ferramenta narrativa, contudo, é excepcionalmente bem utilizado ao relacionar o papel do Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) dentro da equipe. Quando certa personagem diz que “fingir que precisamos dele é o que deixa a equipe unida”, Joss Whedon tem como seu fim caracterizar um novo lado do herói, muito falível. O diretor certamente o entende, ainda mais quando, em termos de recepção do público, o Gavião sempre fora menos adorado que os demais personagens e até mesmo esculachado pela internet. O que acaba se criando, ao adicionar pela metade do filme uma faceta completamente diferente para o personagem, quase como em uma entrega para uma morte heroica, é uma jornada contida, elemento que nem todas as figuras do filme possuem muito bem estabelecido. O caso do Poderoso Thor (Chris Hemsworth), que vai para uma caverna aleatória no meio da obra, sem sentido algum dentro desse filme, sem qualquer amarra, é o mais clássico – uma mera digressão desnecessária.

O grande alívio cômico da Marvel Studios, maior marca dos estúdios, porém, é justamente o responsável por criar a problemática principal, sendo o receptor de alguma das maiores consequências – o que cria um contraste muito interessante. Vingadores: Era de Ultron é um longa-metragem que desconstrói por completo o seu protagonista, criando uma figura muito mais falha e ambígua. Assim como é responsável, ao lado de Banner, por criar Ultron (James Spader), que mesmo com as melhores das intenções em sua criação, volta-se contra os Vingadores por acreditar que a extinção da super-equipe irá trazer “paz na Terra“, Tony Stark (Robert Downey Jr.) também é creditado como peça fundamental na origem dos irmãos Maximoff, novíssimas adições ao Universo Cinematográfico da Marvel. A desconstrução, ao mesmo passo, vem com uma construção do Capitão América (Chris Evans) como líder da equipe. Um adendo ao uniforme do herói, sem aquela pompa antiquada do traje de Os Vingadores. Uma crítica a ser feita, nesse ponto, é o fraquejamento de Joss Whedon em estudar Steve Rogers verdadeiramente no texto. As piadinhas envolvendo a boca suja de um personagem ou outro são engraçadinhas, mas o cerne não deve ser esse. Ao projetar as interações entre Steve Rogers e Tony Stark, Joss Whedon acaba por reiterar elementos de filmes anteriores, não aprofundando-se completamente em discussões morais e conflitos mais rebuscados, que poderiam criar consequências mais diretas para o Homem de Ferro logo de cara e envolvimentos novos, com cara de Era de Ultron e não meramente como prenúncio para uma Guerra Civil.

Ademais, quando vamos falar do Incrível Hulk e seu surpreendente relacionamento amoroso com a Viúva Negra (Scarlett Johansson), Joss Whedon prova saber criar conexões inesperadas, mas funcionais. Um vínculo desses, que nunca antes havia sido apresentado no Universo Cinematográfico da Marvel, é uma atitude extremamente arriscada do diretor e roteirista, que leva para frente não apenas um romance, como um arco pessoal, profundamente dramático, a ser protagonizada por Bruce Banner. As semelhanças entre ambos os personagens já existiam, mas Whedon as evidencia e procura, dessa forma, explorar ganchos na personalidade dos dois, que referenciam a si mesmos como monstros. O simples acalmar do Gigante Esmeralda cria, no início do filme, um vínculo de amizade, visto o fato de estarmos diante de uma troca em que nenhuma das partes é superior ou submissa. O roteiro, contudo, balança levemente no humor, como na atrapalhada que leva Banner cair em cima da Viúva Negra, uma clara referência mais sexual, mas ele é certeiro ao pontuar a criatura como uma terrível ameaça ambulante. Por fim, o herói acaba por ser manipulado pela Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), perdendo qualquer das lógicas de sua cabeça, agora movida apenas pelo desejo de destruição. Dessa forma, Vingadores: Era de Ultron encontra o seu maior aliado: a diversão sem compromisso. Colocar o Incrível Hulk para duelar contra a Hulkbuster é exatamente isso e Joss Whedon consegue filmar essas sequências com um imenso imaginativo.

Vingadores: Era de Ultron, portanto, são mais de duas horas extremamente divertidas; um filme que empolga pelas excelentes cenas de ação que, mesmo sem ter os efeitos especiais mais bem acabados da indústria, alguns até mesmo menos eficientes que os de Os Vingadores, denotam um controle de Joss Whedon em cena, sabendo como tratar o coletivo dentro de um grande espaço. A apresentação do grupo, na cena inicial, é exatamente isso. Em termos de ameaça em combate, assim como são os Chitauri, Era de Ultron também possui uma vasta extensão de robôs genéricos, mas, diferentemente do longa-metragem de 2012, estes “capangas” são como extensão de Ultron, tornando-se, portanto, muito mais significativo em cena. Aliás, o que Joss Whedon faz com a idealização do vilão, sem transformá-lo em um corpo por si só, vide tantas formas que o personagem assume, é criar um senso de paranoia, de uma ameaça fantasma localizada em um outro campo que não o material. Em um âmbito mais físico, James Spader entrega uma boa performance, mesmo o vilão estando distante de um acabamento de personagem mais bem estruturado. O antagonista poderia ter tido mais espaço para divagar, como faz em seu primeiríssimo contato com o mundo, conversando com Jarvis. Uma resposta para ele chama-se Visão (Paul Bettany), uma outra vertente que se abre de tantas, as quais sufocam um filme de mais de duas horas, mas que prova ser a mais bem sucedida de todas. Cria-se uma figura completamente inédita, mas que carrega muita carga do passado e que, nesse filme, alia o drama, pensamentos existencialistas, com um refinado humor, muito mais adequado.

Sob um último ponto de vista, Vingadores: Era de Ultron talvez seja um filme muito mais ambicioso do que deveria ser e do que conseguiu ser. Joss Whedon ao tentar emular uma estética de quadrinhos mais divertidos; personagens coloridos que gostamos, ora se ajudando ora se confrontando; acaba por não amarrar muito bem esse lado com a estruturação dos personagens em si e de uma história realmente singular. Joss Whedon não os negligencia, muito pelo contrário. Se acaba por “esquecer” um personagem ou outro, o roteirista, contudo, garante que a maioria deles possua, mesmo que não tão bem desenvolvido, algo a ser dito de novo – e isso é algo louvável para uma espécie cinematográfica que parece esquecer da narrativa propriamente dita. A jornada dos Maximoff, de antagonistas a heróis, é justamente isso, mesmo que, ao falarmos de Pietro Maximoff (Aaron Taylor-Johnson), não temos nem uma clara contextualização, nem uma envolvente transposição de lados, muito menos uma interessante caracterização – deixado no chinelo pela versão feito em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido. Por outro lado, demais personalidades se sobressaem, assim como, em qualquer circunstância, um determinado embate entre uma máquina de ferro poderosíssima e uma criatura monstruosa esverdeada nunca é em vão. Se é para a pretensão ser tirar sorrisos dos rostos de milhões de fãs, estupefatos pelo fenômeno da primeira experiência, tirando-os de forma honesta e bem resolvida, que seja. Mas quando temos um vilão a pedir um discurso mais “sério”, com possibilidade, apenas iniciada, de propor um debate sobre o dever do super-herói, mas que não se concretiza, há cordas que surgem impossíveis de serem tiradas da questão.

Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron) – EUA, 2015
Direção:
Joss Whedon
Roteiro: Joss Whedon
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Linda Cardellini, Chris Hemsworth, Aaron Taylor-Johnson, Hayley Atwell, Cobie Smulders, Elizabeth Olsen, James Spader, Jeremy Renner, Paul Bettany, Thomas Kretschmann, Samuel L. Jackson
Duração: 141 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.