Crítica | Vingadores: Era de Ultron

ageofultronpc

estrelas 4,5

I’ve got no strings
To hold me down
To make me fret
Or make me frown
I had strings
But now I’m free

Os Vingadores teve a difícil tarefa de reunir seis super-heróis, quatro deles com seus respectivos filmes solo, em um único longa metragem. Sob a batuta de Joss Whedon, o filme foi um sucesso, conseguindo garantir o espaço em tela necessário para cada um dos diversos personagens. Era de Ultron, porém, dispensa esse elemento de história de origem, tão comum nos filmes baseados em quadrinhos e parte para outra direção: o futuro dos Heróis Mais Poderosos da Terra.

E que futuro seria esse? Na concepção de Tony Stark (Robert Downey Jr.), seria o fim do grupo, ao passo que seriam substituídos por um “escudo maior”, uma proteção onisciente que eles próprios não poderiam superar, algo muito similar ao que vimos em Capitão América 2, só que, teoricamente, sem ser corrompido pela Hydra. Sem muitas delongas Whedon já dá início à projeção com os heróis em combate. Em plano sequência, similar ao que vimos no primeiro filme em Nova York, cada um desses poderosos seres combatem as forças da Hydra em busca do cajado de Loki, que se encontra na base do Barão Von Strucker (Thomas Kretschmann).

Em paralelo, procurando manter a população local em segurança, drones comandados por Jarvis (à mando de Stark) tentam reduzir o dano colateral, mas não são recebidos nessas terras do leste Europeu com bons olhos. O projeto de Tony já tem início, criando uma coesão imediata com o que assistimos no final de Homem de Ferro 3. Esse, porém, ainda não é Ultron e a origem do vilão não irei estragar nessa crítica, mas posso, é claro, comentar a progressão dela, possivelmente o único ponto que me causa um certo receio na obra.

Whedon, que não precisa perder tempo com histórias de origem claramente visa explorar a fundo o principal antagonista da projeção, que dessa vez não é simplesmente tirado de outro filme, como fora o irmão travesso de Thor. Ultron é construído aos poucos nos 141 minutos de duração do filme, mas sua origem precisamente acaba deixando a desejar. Não que o conceito não esteja de acordo com nossas expectativas, o problema está na execução. Não há a criação de um suspense, um harmônico desenrolar para o surgimento do robô. Ao contrário disso – sua aparição é repentina, como se Joss não soubesse encontrar um bom balanceamento entre a pressa e a enrolação, algo que acaba diminuindo o impacto de sua ideologia ao longo do filme, ao passo que não temos tempo de nos identificar com o vilão, por mais que ele seja um homicida completo.

O mesmo ocorre com sua evolução com o desenrolar da projeção, ela é rápida e não detalhada, nos trazendo mudanças que vão da água para o vinho sem mais nem menos. Felizmente, esses aspectos negativos são contrabalanceados pela retratação de Ultron. Sua entrada triunfal parece ter sido retirada diretamente de um filme de terror, nos trazendo nítidos arrepios. Não temos nele uma simples máquina homicida e sim algo completamente humano, governado pelas nossas mais básicas emoções, o que o deixa ainda mais aterrador. É incrível como James Spader, que interpreta o antagonista, consegue passar uma humanidade maior até mesmo que Loki. O trabalho da equipe de efeitos visuais, naturalmente, desempenha um papel crucial, colocando em tela um vilão com movimentos fluidos, expressões bem definidas e, não canso de reiterar, humanos.

Mas nem tudo é Ultron e devo, novamente trazer a toda a dinâmica de toda a equipe de heróis, que, mais do que nunca, não é governada por apenas um personagem no centro. Do Gavião Arqueiro até o Homem de Ferro, cada um dos Vingadores desempenha um importante papel na narrativa, não apenas na hora de dar alguns socos, como para construir o tom geral da obra. A presença de Wanda (Elizabeth Olsen) e Pietro (Aaron Taylor-Johnson) Maximoff nem um pouco atrapalha o orgânico caminhar da trama e somente acrescentam mais tonalidades à essa guerra do bem contra o mal, sem parecerem simplesmente jogados dentro de um tabuleiro já transbordando jogadores. Impossível, aqui, não tecer elogios à retratação dos poderes de cada um, que não somente se encaixam na proposta da Marvel Studios, como oferecem um espetáculo visual à parte.

Mesmo Visão (Paul Betanny) tem sua aparição construída dentro da trama, em um roteiro que atua sob diferentes e complexas camadas, sabendo intercalar muito bem a calmaria e a ação. Ultron, que permanece como uma ameaça constante muitas vezes se constitui apenas como mais um peão dentro de um jogo muito maior, mas mesmo assim não consegue perder sua imponência, algo raro dentro dos filmes da Marvel – vide exemplos como Ronan, de Guardiões da Galáxia, ou Malekith, de Thor 2.

Um aspecto interessante a ser notado é a forma como o roteiro não se apoia completamente nos filmes anteriores do Universo Cinematográfico Marvel. Um espectador médio pode simplesmente assistir o primeiro Vingadores e não se ver perdido dentro da trama. O crédito, naturalmente, vai todo para Whedon que consegue construir uma narrativa profunda, mas sem cair em uma excessiva complexidade.

Com isso em mente é importante ressalvar que Era de Ultron é uma obra completamente diferente de seu antecessor – temos aqui um tom mais sombrio (mas ainda bem distante do estilo Cavaleiro das Trevas), mas que mantém a alma dos filmes do estúdio. As brincadeiras estão presentes, mas dividem espaço em tela com um drama maior e personagens mais amadurecidos, talvez até mais duros. Algo que não mudou, porém, é a qualidade das cenas de ação. Essas oferecem embates verdadeiramente memoráveis, utilizando uma montagem clássica que não peca por uma quantidade exagerada de cortes. A fotografia segue o mesmo estilo e dispensa a câmera tremida que tanto aflige as películas de ação da atualidade. Nesse aspecto Era de Ultron talvez só fique atrás de Capitão América 2, ainda que tal comparação seja injusta (pela quantidade de jogadores no campo).

Em última análise, portanto, Vingadores: Era de Ultron não deixa nem um pouco a desejar. Seu único aspecto mais duvidoso é deliciosamente jogado para o canto através da construção de um dos melhores vilões do Universo Cinematográfico Marvel, uma figura confusa, irritada e, é claro, humana. Joss Whedon vence novamente, sabiamente não nos oferecendo simplesmente mais do mesmo.

Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron – EUA, 2015)
Direção:
Joss Whedon
Roteiro: Joss Whedon
Elenco:  Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Linda Cardellini, Chris Hemsworth, Aaron Taylor-Johnson, Hayley Atwell, Cobie Smulders, Elizabeth Olsen, James Spader, Jeremy Renner, Paul Bettany, Thomas Kretschmann, Samuel L. Jackson
Duração: 141 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.