Crítica | Vingadores: Guerra Sem Fim

estrelas 3

É bacana ver a Marvel reavivar projetos antigos. Há muitos e muitos anos, a editora publicava algumas histórias diretamente em formatos de graphic novel. Eram livros – ou revistas mais grossas – com histórias finitas dentro ou fora da continuidade normal. Saiu muita coisa boa desse projeto oitentista que, no Brasil, ganhou o nome de Graphic Marvel, como, por exemplo, Triunfo e Tormento com o Doutor Estranho e o Doutor Destino e a primeira delas, por Jim Starlin, A Morte do Capitão Marvel. E isso sem contar com o maravilhoso Dreadstar, também por Starlin.

Mas esse projeto, com o tempo, foi descontinuado e substituído pelos arcos de histórias que passaram, com enorme constância, a serem reunidos em encadernados ou paperbacks em inglês. Assim, foi com felicidade que, há muitos meses, li a notícia que a Marvel retornaria às graphic novels originais em um projeto ousado de nome óbvio, Marvel OGN ou Marvel Original Graphic Novels. A ousadia, porém, vem de outro ingrediente: eles iriam publicar a história em dezenas de países do mundo simultaneamente, nas línguas respectivas. Só de imaginar a mecânica e a organização para isso acontecer, já me dá dor de cabeça, mas o fato é que Vingadores: Guerra Sem Fim, primeira cria do projeto, deu realmente muito certo em termos logísticos. E o melhor: o livro, de 120 páginas, foi lançado também no Brasil em seu formato original de capa dura e papel de alta qualidade. Nada mal!

Acontece que, no final das contas, o que vale é a história. E, para isso, a Marvel colocou o britânico Warren Ellis no projeto, acreditando que um nome de peso era necessário pelo menos no início do projeto. Tendo feito carreira na Marvel, responsável por diversos títulos X, além de muita coisa do universo Ultimate, a reputação de Ellis o precede e, realmente, cria um bom chamariz para as vendas.

Mas nem sempre Ellis realmente acerta em seu roteiro. E esse é justamente o caso de Vingadores: Guerra Sem Fim.

Vingadores-Guerra-Sem-Fim-capaA história envolve os Vingadores tentando entender a existência de alguns drones tecno-biológicos que são usados pelo governo americano em guerra na Slorênia (esses nomes fictícios de países da Marvel não são nada discretos…). O Capitão América e Thor, lembrando-se de eventos do passado, reúnem Tony Stark, Capitã Marvel, Gavião Arqueiro, Viúva Negra, Wolverine e, mais tarde, Hulk, em uma busca que os levam dos EUA para a Slorênia e depois para uma ilha na Noruega e a pancadaria come solta.

Essa narrativa em si, é até interessante, pois tem uma forte mensagem antibelicista que a permeia do começo ao fim. O grande problema, porém, é a quantidade de coincidências que Ellis utiliza para tornar a história possível: o Capitão América se lembra de episódio que viveu durante a 2ª Guerra Mundial na ilha de Skrekklandet e que teria marcado sua vida; Thor se lembra de uma luta de um milênio atrás contra uma serpente que estaria impregnando Yggdrasil (a árvore que reúne os Nove Reinos, mais sobre ela, aqui) e que ele, vergonhosamente, acabou perdendo o controle para derrotar e o Homem de Ferro teria participado de ações paramilitares na Slorênia anos atrás. E isso tudo é contado em longos, mas inconclusivos flashbacks, que não impulsionam a história, servindo apenas de recheio insosso para um bolo quase solado.

E os desenhos de Mike McKone não ajudam muito. Não que sejam ruins, apenas não são especiais ou particularmente interessantes, como um projeto dessa envergadura precisaria. Além disso, ele peca nos detalhes dos rostos e dos corpos, transformando os heróis em clones um do outro, diferenciáveis, apenas, por suas roupas. Há pouquíssimos quadros de destaque ou splash pages chamativas ou importantes e muito da ação – e aí a culpa não é de McKone – acaba enterrada com uma narrativa “fora de quadro” de Ellis, que prefere, no grande embate final, esconder as lutas principais. O efeito dramático disso é terrível. Fica até parecendo que faltaram páginas no belo encadernado.

Mas nem tudo se perde.

Primeiro, Ellis surpreendentemente consegue manter a narrativa dentro da mitologia atual dos heróis. Em outras palavras, ele não desdiz nada que o projeto Marvel NOW! vem trazendo, usando até o modelo atual – dourado e preto – da armadura do Homem de Ferro e o uniforme mais militarizado do Capitão. Por outro lado, ele não enterra a história nos eventos de Marvel NOW! a ponto de torna-la ininteligível a leitores brasileiros, por exemplo, que de Marvel NOW! ainda não viram quase nada já que essa fase só começou mês passado por aqui.

Outro aspecto positivo é a interação entre os personagens. Nada de diálogos edificantes e heroicos. O que vemos é um bando de super-heróis que somente se aturam soltando farpas atrás de farpas entre eles, alguns sendo até extremamente maldosos, como quando Tony diz, com sua armadura paralisada, que não consegue ficar de pé e Carol Danvers responde que isso não é novidade alguma, fazendo pesada referência à época de Demônio da Garrafa, com Stark lutando contra o alcoolismo.

O mesmo vale para Wolverine, que é literalmente jogado de lado pelos demais, por ele ser “menos nobre” que todos os heróis. E ele não se importa e continua sendo menos nobre e fazendo aquilo que ele faz de melhor, sem glamour algum, sem esperar agradecimentos. Mas ele é um pária entre párias e ele sabe disso.

O Gavião Arqueiro também protagoniza diversos momentos inspirados com o Capitão América, usando muito do jeito arruaceiro de ser que caracteriza a versão mais recente de Clint Barton. Só a entrada triunfal dele, atrasado como sempre e completamente de ressaca já divertirá o leitor.

Em outras palavras, a narrativa toda lembra um pouco o que vemos na saudosa série Os Supremos (Os Vingadores do Universo Ultimate), em que o grupo era formado por um bando de gente irresponsável mais ou menos unida em volta de um propósito “egoisticamente comum”. Ou, em outras palavras ainda: gente muito mais real do que os heróis que vemos por aí no dia-a-dia de quadrinhos e filmes.

Vingadores: Guerra Sem Fim marca o início cambaleante de um projeto que, do fundo do coração, eu gostaria que desse certo. Agora é esperar a segunda graphic novel para ver se o projeto ganha corpo.

Vingadores: Guerra Sem Fim (Avengers: Endless Wartime, EUA)
Roteiro: Warren Ellis
Arte: Mike McKone
Cores: Jason Keith, Rain Beredo
Lançamento nos EUA: Marvel Comics (outubro de 2013)
Lançamento no Brasil: Panini Comics (outubro de 2013)
Páginas: 120

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.