Crítica | Vingadores: Rage of Ultron

estrelas 4

Rage of Ultron (e não Age of Ultron) é a quinta graphic novel da Marvel dentro do projeto Marvel OGN ou Marvel Original Graphic Novels, cuja proposta, semelhante a que a editora tinha na década de 80, é trazer histórias fechadas, dentro da continuidade, em encadernados especiais em capa dura. O primeiro número do projeto, publicado simultaneamente ao redor do mundo, inclusive no Brasil, foi Vingadores: Guerra Sem Fim, em 2013.  O segundo número foi Amazing Spider-Man: Family Business, o terceiro X-Men: No More Humans e, o quarto, Thanos: The Infinity Revelation, nenhum desses publicado no Brasil ainda na data da presente crítica.

rage of ultron coverO quinto número, o primeiro de 2015 (há Thanos: The Infinity Relativity anunciado já), claramente foi pensado para se aproveitar do lançamento do arrasa-quarteirões cinematográfico Vingadores: Era de Ultron, mas, apesar da presença dos Vingadores de um lado e de Ultron do outro – e da proposital similaridade dos títulos – a OGN não tem relação com o filme e pode, portanto, ser lida independente dele. E, mesmo aqueles que não acompanham as publicações atuais dos Vingadores serão capazes de entender o que se passa, ainda que acabe estranhando a formação atual.

A escolha de Rick Remender para escrever o roteiro faz muito sentido, considerando-se que ele é o grande pivô das alterações mais recentes nos Vingadores. Ele vem escrevendo Uncanny Avengers desde seu começo, em 2014, além do título solo do Capitão América e a saga AXIS. Há, portanto, elementos retirados diretamente da continuidade normal dos heróis – como o uso dos Descendentes – além da formação da equipe, mas que não interferem na apreciação geral da obra.

O que é difícil, para os adeptos ferrenhos da continuidade dentro do Universo Marvel, é encaixar lá os acontecimentos de Rage of Ultron. A OGN toma certas liberdades que simplesmente não batem com a história clássica de Ultron em termos cronológicos. E isso se dá porque a narrativa de Remender começa no passado, com a formação antiga dos Vingadores sendo Capitão América (Steve Rogers), Thor (homem), Homem de Ferro (armadura clássica), Visão (versão clássica), Gavião Arqueiro (uniforme roxo clássico), Fera, Feiticeira Escarlate, Jaqueta Amarela e Vespa. Esses heróis começam lutando com Ultron, também em sua versão clássica e, por intermédio de um plano bem elaborado de Hank Pym, mas que envolve a traição dos sentimentos que ele mesmo tem por seu “filho”, o robozão é mandado para o espaço em um caixão de vibranium (na verdade, um Quinjet de vibranium) para nunca mais voltar. Antes que reclamem, esse não é um spoiler, mas sim a premissa da OGN.

Considerando-se a formação desses Vingadores, temos que automaticamente concluir que, conforme as histórias posteriores a esse período, Ultron voltou mais uma penca de vezes. Mas, como disse, isso só atrapalhará aqueles que tiverem “comichão de continuidade”. Em termos gerais, a história de Remender é acima da média. E, no final das contas, é isso que importa, não é mesmo?

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Os “velhos” Vingadores…

E a maioria de sua narrativa se passa no presente, depois que Ultron volta e passa a controlar Titã, a Lua de Saturno, lar dos Eternos. Eros (Starfox) é o único que consegue escapar e mal tem tempo de avisar aos Vingadores atuais, formado por Capitão “Falcão” América (Sam Wilson), Thor (mulher), Visão (uniforme de Avengers A.I.), Homem-Aranha, Mercúrio (com uniforme novo), Vespa, Gigante, Feiticeira Escarlate e Dentes de Sabre. Aqueles que não acompanham a continuidade, apenas aceitem. Os que acompanham saberão a razão da mudança radical da equipe, mas que não vem ao caso agora. Os aspectos que realmente encantam na narrativa de Remender são o embate entre Pym e Ultron e também entre Visão e Ultron, além da discussão moral que coloca Pym de um lado e Visão do outro.

O primeiro desses aspectos é conhecido de todos que já leram histórias de Ultron, mas, agora, Remender vai a fundo de verdade, lidando com as consequências psicológicas da criação de um robô homicida por Pym. O que o herói pode fazer? O que ele deve fazer? Já o conflito entre Visão e Ultron é novamente em cima da estrutura pai e filho, mas com enfoque levemente diferente. Será que Visão é mesmo superior ao “pai”?

E, finalmente, a discussão moral entre Pym e Visão sobre a ética de se “matar” inteligência artificial é absolutamente cativante. Remender se esmera em diálogos intrigantes e que realmente têm potencial de mexer com o leitor. Matar Ultron é mesmo “matar” ou é apenas “desligar”? Ele deve ser tratado como humano ou como um mero robô? E porque o tratamento de Visão deve ser diferente? Há um discurso que traz para o mundo das máquinas o preconceito racial, o medo daquilo que é diferente.

Com isso, a ação fica um pouco em segundo plano. As controvérsias morais parecem ser mais importantes para Remender do que a pancadaria desenfreada. Não que os fãs de ação não tenham o que saborear em Rage of Ultron, pois há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas o foco de Remender é na discussão dos assuntos que ele põe na mesa e ele faz uso do espaço que tem – não “atrapalhado” pela natureza mensal de publicações normais – para realmente levá-los às últimas consequências.

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Os “novos” Vingadores…

Há, porém, porém, problemas. Remender abre demais o leque e acaba não tendo espaço para fechar completamente sua narrativa. A história tem começo, meio e fim, mas o autor deixa muita coisa a resolver, especialmente o interessante último quadro que exige uma continuação e que muda o status quo de um dos Vingadores. Fiquei curioso para saber se esse status quo será refletido na continuidade comum das publicações Marvel e como ele será resolvido, se por intermédio de uma nova OGN ou dentro das mensais. Estou sendo particularmente misterioso nesse ponto para não dar spoilers sobre a obra, que vale a leitura.

A arte, por Jerome Opeña e Pepe Larraz é muito eficiente em perfeitamente capturar os espíritos das duas gerações de Vingadores que são trabalhadas na história. Há um certo olhar nostálgico na primeira parte, com traços e cores mais vibrantes e heroicos e, na segunda, vemos, marcadamente, uma espécie de olhar sombrio sobre o futuro. Mas, como havia um cronograma para lançamento da OGN, muitos coloristas foram envolvidos, além do arte-finalista Mark Morales que trabalhou com Opeña (que também teve essa função). Assim, é possível ver uma certa oscilação de qualidade ao longo da graphic novel, com alguns trechos menos detalhados do que outros, com algumas cores mais chapadas do que outras, mas o resultado geral é muito satisfastório.

Rage of Ultron, apesar de ter sido criada para se aproveitar do hype do filme, tem vida completamente independente e é uma boa diversão mais séria com os Vingadores e Ultron, que sempre foi um fascinante vilão.

Vingadores: Rage of Ultron (Avengers: Rage of Ultron, EUA – 2015)
Roteiro: Rick Remender
Arte: Jerome Opeña, Pepe Larraz
Arte-final: Mark Morales
Cores: Dean White, Rachelle Rosenberg, Dono Sanchez Almara
Letras: VC’s Clayton Cowles
Editora (nos EUA): Marvel Comics (abril de 2015)
Editora (no Brasil): não publicado quando do lançamento da presente crítica
Páginas: 112

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.