Crítica | Vinte Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne

O ensaísta Antoine de Compagnon, mais uma vez, é referência para abertura de uma reflexão literária, tal como no texto sobre o romance Anna Karenina. Como já apontado, Literatura para Quê?, o autor afirma que as obras-primas que fazem parte da história literária dizem, às vezes, coisas mais consideráveis que os clássicos da Filosofia, História e da Crítica. Seguidor da corrente de acadêmicos que confere ao campo da literatura o espaço para exercício de reflexão e experiência, tendo como meta responder a um projeto de conhecimento do homem e da sua relação com o mundo, Compagnon traz em suas considerações pertinentes, referências aos ensaios de Montaigne, aos poemas de Baudelaire, aos romances de Proust, dentre outros, escritores que segundo a sua opinião, podem ensinar mais sobre a vida que alguns tratados científicos.

Publicado num período conhecido por Belle Époque, fase repleta de transformações culturais, científicas e artísticas oriundas do “boom econômico”, o livro também traz em suas marcas histórias as recusas que Verne precisou enfrentar para se firmar enquanto escritor.  Ignorado comercialmente por ser considerado “científico” demais, o inventivo autor ganhou mais espaço depois que selou amizade com o editor Pierre-Jules Hetzel, responsável por ajudar Verne a encontrar um estilo que fosse “aceitável”. Fruto de sua época, período conhecido pelo interesse no progresso, mas ao mesmo tempo, desconfiança nas instituições e inovações tecnológicas, Vinte Mil Léguas Submarinas é parte da série Viagens Extraordinárias e compõe o conjunto com A Volta ao Mundo em 80 Dias e Viagem ao Centro da Terra.

Verne é tido como um dos percussores da ficção científica, gênero conhecido também pelo marco de Mary Shelley, isto é, o assustador Frankenstein; Guerra dos Mundos e A Máquina do Tempo, de H. G. Wells e O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson.  Marco no pungente da ficção científica, a obra também é parte do gênero travel book, tipo de narrativa que se espalhou como um rizoma durante as Grandes Navegações, inserida no bojo da curiosidade e do perfil imperialista dos europeus numa época de interesse em informações acerca de terras distantes. Com os impactos da Revolução Industrial e as ressonâncias da Era Vitoriana, a modernidade ganhou espaço na época e dividiu muitas pessoas, pois havia os curiosos e os que tinham aversão, este segundo grupo, pessimista em relação às novas tecnologias, tinha Julio Verne inicialmente como um dos expoentes.

 “Corria o ano de 1866”. O preâmbulo já é uma preparação para o mergulho no estilo do autor, frequentemente preocupado com datar os acontecimentos e situar cada etapa da narrativa.  O Capitão Nemo é um homem inteligente, curioso e envolvido com a pesquisa, profissionalmente engenheiro que cortou relações com a humanidade e viver exclusivamente do mar e de suas ofertas. Ele vive no fundo dos oceanos a investigar espécies, observar o mundo à distância, mas as constantes panes do sistema causam desastres em navios e embarcações, o que faz as pessoas temê-lo, a acreditar ser a presença de uma criatura marinha gigante, talvez um “narval”, ou como ainda se pensava na época, algum “monstro desconhecido”.

O responsável por assumir a missão de resolução do problema é o Professor Aronnax, juntamente com a sua equipe formada por seu “criado” Conseil e o arpoador Ned Land. Eles partem com o navio Abraham Lincoln, da marinha estadunidense, juntamente com a tripulação destinada a caçar e livrar os mares de tal aberração, mas um desastre ocorre quando o navio e o submarino Náutilus se encontram, o que deixa toda a tripulação largada ao mar. O trio principal é resgatado e tratado como prisioneiros com privilégios, pois tinham a possibilidade de andar livremente pelos corredores do submarino, além de descobrir, sem grandes mistérios, as maravilhas científicas das pesquisas do capitão, bem como a observação de perto dos segredos oceânicos. Durante vários meses eles vivem imensas aventuras. Encontram povos e culturas desconhecidas, trafegam por uma floresta submarina, travam combate com tubarões e outros animais marinhos (inclusive uma lula gigante), etc.

Para compreender os acontecimentos, faz-se necessário os códigos para refletir sobre o período, dentre eles, a presença do gabinete de curiosidades do Capitão Nemo. O possuidor de um ambiente do topo era alguém que denotava erudição e excentricidade, em suma, um destaque na sociedade. Precursores dos museus, os gabinetes passaram do privado para o público em meio aos novos padrões sociais estabelecidos com a emergência do século XX. Fosseis, peças antigas, materiais originários de terras distantes e pouco conhecidas eram alguns dos artefatos encontrados nestes espaços.

Mobilizados pela ideia de progresso, algo demonizado por tantos filósofos, dentre eles, Walter Benjamin, um dos pensadores contrários aos desdobramentos e processos da modernidade, “trem desgovernado”, responsável pelas situações catastróficas vividas pela humanidade, em especial, na primeira metade do século XX, os europeus se mobilizaram para que estivessem espalhados ao máximo pelo planeta. A ideia era perpetuar o que se entendia por avanço no século XIX, isto é, os meios de transporte como ideias de globalização, bem como a necessidade de não deixar nenhuma parte do globo terrestre continuar em isolamento. Esse subtexto poderoso está nas linhas gerais do livro de Verne, uma espécie de crítica ao momento e aos seus processos.

É preciso refletir também que na época era inconcebível que qualquer nação estivesse distante do sentimento de cobiça no que tange aos ideais de uma potência econômica sem absorção das novas tecnologias. O desenvolvimento de cunho industrial, conforme traz sabiamente Hobsbawn em A Era dos Impérios, era embasado pelo laboratório de pesquisa, parte da expansão da economia capitalista que acompanhavam de perto a tecnologia como uma fonte de manutenção de status de um sistema global.

Adaptado numerosas vezes para o cinema, Vinte Mil Léguas Submarinas ganhou versões em 1907 (produzido pelo francês George Mélies), 1916 (por Stuart Paton), 1954 (pelos estúdios Walt Disney), 1972 (por Rankin-Bass), 1979 (por Gary Nelson, intitulada Abismo Negro), dentre outras, além das traduções para outros suportes semióticos. Com estilo que mescla a tentativa de sintetizar elementos de áreas distintas do conhecimento (ciências exatas, humanas, filosofia, religião, etc.) por meio do relato ficcional, Verne traz em sua obra uma estrutura similar aos clássicos textos relacionados aos mitos, lendas, contos de fadas, relatos imaginários, utopias e viagens imaginárias, com destaque para a abordagem do Mito de Atlântida, magicamente apresentado pela narrativa.

Vinte Mil Léguas Submarinas (França, 1850)
Autor: Jules Verne
Editora no Brasil: Abril Coleções
Tradução: Maria Rita Corrêa Vieira
Páginas: 272.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.