Crítica | Vinyl – 1X01: Pilot

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estrelas 4,5

Ao longo de suas duas horas, algo raro para pilotos de séries, Martin Scorsese e a HBO nos levam a um passeio frenético – uma verdadeira montanha-russa, na verdade – pelo cenário musical da primeira metade da década de 70 ao nos fazer acompanhar a vida de Richie Finestra (Bobby Cannavale), produtor musical e dono do fictício selo American Century, em três momentos entrecortados: no presente da série (1973), nos cinco dias anteriores e no começo de sua carreira musical. O resultado é uma descarga sensorial energética, fascinante e imperdível, ainda que não sem problemas.

O piloto, pela sua duração e por ter um roteiro redondo, completo, com começo, meio e fim, funciona quase que como um longa-metragem independente, o que só conta pontos para a grande aposta da HBO nessa produção que levou até mesmo ao adiamento do começo da sexta temporada de sua extremamente bem sucedida série Game of Thrones. Mas Vinyl merece mesmo esse destaque todo, não só pela temática fascinante, como, também, pelo cuidadoso trabalho da produção que recriou minuciosamente figurinos, maquiagem e todo o submundo musical novaiorquino da década de 70, aliado à fenomenal atuação de Cannavale, o centro absoluto das atenções. E, claro, o fato de a série ter sido criada por ninguém menos do que Mick Jagger, Martin Scorsese, Rich Cohen (prolífico editor da Variety e Rolling Stone) e Terence Winter (produtor executivo de Família Soprano e produtor executivo e showrunner de Boardwalk Empire, além de roteirista de O Lobo de Wall Street), já é pedigree suficiente para tornar a série obrigatória para qualquer um interessado em música e/ou televisão.

Começando com um Richie Finestra extremamente abalado no claustrofóbico interior de sua Mercedes esportiva em um beco de Nova York sucumbindo ao chamado das drogas que, como veríamos adiante, ele vinha tentando se afastar, Scorsese logo nos dá todas as informações visuais que precisamos sem recorrer a diálogos. Estamos diante de um milionário que veio de baixo, um homem que tem um segredo que o está destruindo, alguém que tem a vida completamente desregrada e carregada de vícios, mas um executivo extremamente antenado com as tendências e que, mesmo diante de seus problemas, não perde a chance de “descobrir” um novo som, um novo grupo despontando no mítico The Mercer Arts Center encapsulado pela apresentação ao vivo do The New York Dolls cantando o hino punk Personality Crisis. Em poucos minutos deste prólogo, entendemos que Richie será o foco dos holofotes de Scorsese, aprendemos muito sobre o personagem e compreendemos que a palavra de ordem pelo menos deste episódio piloto é “excesso” ou talvez até mesmo “caos”.

Mas é um excesso que o diretor faz funcionar graças, claro, à sua inegável habilidade na cadeira de diretor, à sua familiaridade com o cenário da música (poucos grandes diretores se dedicaram tanto a trabalhar obras documentais focadas na música como Scorsese em O Último Concerto de Rock, No Direction Home, Shine a Light George Harrison: Living in the Material World) e ao audacioso roteiro de Winter que pouco diz, mas muito mostra, jamais entregando-se ao didatismo exacerbado e aos caminhos mais fáceis e costurando três momentos temporais diferentes sem facilitar o trabalho para o espectador. Vinyl é uma obra adulta para adultos, uma bem-vinda adição à mais do que fenomenal lista de séries da HBO. E é muito interessante notar como a escolha da época retratada foi perfeita: as grandes bandas de rock estão ainda em destaque – o Led Zeppelin ganha proeminência no episódio -, mas novos movimentos, ritmos e gostos começavam a aparecer, como o pop do ABBA e o próprio punk do The New York Dolls, amplificando e abrindo o leque de ofertas musicais e obrigando o “antigo” a se reinventar. A fotografia desse momento do cenário musical reflete, também, no momento chave de mudança na vida de Richie, já que, devido a problemas financeiros, ele desesperadamente precisa fechar a venda de seu selo para a gigante teuto-holandesa Polygram, o que também permite uma visão de camarote do movimento de concentração das gravadoras e das negociatas sujas que faziam – e… aham… ainda fazem – parte desse jogo.

Contudo, não se enganem. A julgar pelo piloto, o mote da série parece mesmo ser a narração da vida do fictício (pero non troppo) Richie Finestra e não a história do estado da música naquele momento temporal. É mais do que evidente que a música em si será visitada por diversas vezes na medida da progressão da narrativa, mas ela parece ser acessória à vida de Finestra, ainda que essencial para a compreensão sobre quem ele é. Afinal, os flashbacks para seu passado mostram muito bem isso, com seu começo correto e honesto como amante da boa música e sua caça de verdadeiros talentos – que seriam moldados pela indústria – representado pelo cantor de blues Lester Grimes (Ato Essandoh) e sua conversão em alguém que trata seus músicos como meros produtos, como meros álbuns a serem vendidos (ou jogados no rio, claro…) a qualquer preço. Ao redor de Finestra, tudo gira, seja para o benefício do espectador em abordar a corrupção das gravadores, o tamanho e a importância dos jabás das rádios, a manipulação de números, a negociação de contratos que jamais beneficiariam os músicos, seja para o benefício da narrativa que tem uma qualidade caótica interessantíssima, com direito a momentos surreais e lisérgicos como o show imaginário, na festa de aniversário de Richie, de Bo Diddley – The Originator – à beira da piscina. Mas nada é simplesmente gratuito, nem mesmo os momentos surreais, pois Bo Diddley marcou uma era de transição em entre o Blues e o Rock ‘n Roll, com algo semelhante acontecendo no começo da década de 70.

O elenco de suporte – praticamente todos os demais atores – não ganha, aqui, qualquer tipo de desenvolvimento. Os sócios de Richie, Zak Yankovich (Ray Romano), Skip Fontaine (J.C. MacKenzie), Julian “Julie” Silver (Max Casella) e o advogado do selo Scott Leavitt (P.J. Byrne) não são muito mais do que adereços para dar suporte e verossimilhança ao protagonista, o mesmo valendo para Jamie Vine (Juno Temple), uma ambiciosa secretária (e traficante de todo tipo de drogas) da American Century e até mesmo para Devon, a esposa de Richie vivida pela bela Olivia Wilde. No caso de Wilde, sua presença funciona muito mais como um lembrete de que Richie tem também outra vida e que ela, provavelmente uma “mulher-troféu”, tem uma existência isolada como mãe de subúrbio, longe do glamour de seu passado, que a desagrada profundamente. Há, portanto, muito material a ser desenvolvido em capítulos posteriores, ainda que a falta de desenvolvimento deles, aqui, não atrapalhe a história encapsulada pelo piloto.

Mas, como mencionado no início da presente crítica, o esforço de Scorsese e Winter não é sem problemas. O primeiro deles é uma sub-trama envolvendo um assassinato que não se encaixa muito bem no tom do restante da narrativa. Em típico “momento mafioso scorsesano”, vemos uma morte que, ainda que não traga exatamente surpresas e seja razoavelmente bem construída, exagera no grafismo e nos detalhes sórdidos. Sim, é uma série marcada por excessos, sou o primeiro a afirmar, mas, aqui, o diretor carrega nas cores e afasta o espectador do que ele vinha construindo. Resta saber como o assunto afetará o desenvolvimento do restante da temporada.

O segundo problema é o momento catártico-transformativo ao final, envolvendo famoso evento verdadeiro ocorrido no The Mercer Arts Center. Não descreverei aqui para evitar spoilers, mas ainda que a qualidade surreal do episódio seja carregada para a visão de Richie em meio ao show do The New York Dolls (reparem como a fita começa e acaba no mesmo momento em perfeito movimento circular) tornando até difícil a separação entre realidade e ficção, a questão é que o sensacional roteiro que procura fugir do didatismo acaba caindo na armadilha e exagera na metáfora do renascimento, da recriação, da reinvenção, elementos que já haviam ficado sobejamento demonstrados ao longo da projeção. Confesso, porém, que tenho sentimentos antagônicos sobre a sequência, já que ela, sem dúvida alguma, resulta em um explosivo e inesquecível final de episódio.

Vinyl tem o potencial de ser um novo Mad Men, talvez com pitadas, aqui e ali, de Boogie Nights, o que pode ser uma combinação pitoresca. O certo é que, independente do que vier por aí, o episódio piloto da série é televisão de altíssima qualidade que não pode ser ignorado.

P.s.: Pela natureza da obra, consideramos melhor fazer a crítica da temporada completa ao seu final e não por episódio. Portanto, voltaremos à Vinyl logo depois que seu 10º episódio for ao ar, em dia ainda não definido de abril de 2016. 

Vinyl (EUA, 14 de fevereiro de 2016)
Criadores: Mick Jagger, Martin Scorsese, Rich Cohen, Terence Winter
Showrunner: Terence Winter
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Terence Winter, George Mastras (baseado em história de Mick Jagger, Martin Scorsese, Rich Cohen e Terence Winter)
Elenco: Bobby Cannavale, Olivia Wilde, Ray Romano, Ato Essandoh, Max Casella, P. J. Byrne, J. C. MacKenzie, Birgitte Hjort Sørensen, Juno Temple, Jack Quaid, James Jagger, Adelynn Elizabeth O’Brien, Paul Ben-Victor
Duração: 120 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.