Crítica | VIPs

estrelas 3

Baseado no livro de Mariana Caltabiano, VIPs nos traz a história de Marcelo Nascimento da Rocha, famoso estelionatário brasileiro, que ascendeu nos círculos sociais apenas através de suas mentiras. Mais que apenas uma cinebiografia, a obra é uma evidente crítica ao culto à celebridade. Embora nos traga uma história envolvente, contudo, o longa, dirigido por Toniko Melo apresenta escolhas problemáticas em sua narrativa, as quais não conseguimos relevar, apesar de seus notáveis acertos.

Um homem desce de um helicóptero em um clube, acompanhado por seguranças, ouvimos pessoas perguntando quem ele é. Em seguida somos levados ao passado, vemos Wagner Moura, interpretando Marcelo, em uma sala de aula, já evidenciando o primeiro grande problema do longa-metragem. Estamos falando de um filme lançado em 2010, com Moura contando já com seus trinta e quatro anos – independente de seu talento como ator, não há milagre que faça nos acreditar que o que vemos em tela é um adolescente – poderiam muito bem ter colocado um ator mais jovem no lugar e encurtado esse trecho, que facilmente constitui o mais fraco do filme, ao passo que tenta oferecer uma motivação, sem conseguir, para o caminho tomado pelo protagonista posteriormente. Tudo é muito artificial, chegando ao ponto de nos provocar vergonha alheia, com Moura sendo forçado a esboçar reações exageradas que combinariam com alguém mais jovem.

Felizmente, presenciamos um salto temporal não muito depois e vemos o personagem trabalhando como piloto e rapidamente se envolvendo com traficantes, mesmo sem querer. Chega a ser curioso como o roteiro de Thiago Dottori e Bráulio Mantovani dispensa julgamentos morais acerca dessas atividades de Marcelo e, de fato, não é esse o foco da obra, ao menos não até aqui. Chega ao ponto de sentirmos pena do protagonista quando esse é forçado a abandonar esse lado de sua vida, não que exista uma glamourização de tais ações, isso ocorre em virtude do excepcional trabalho de Wagner.

Três anos antes o ator nos presenteara com o capitão Nascimento, em Tropa de Elite e no mesmo ano do lançamento em circuito de VIPsTropa de Elite 2 chegara aos cinemas. É verdadeiramente surpreendente o quanto Moura consegue se distanciar desse marcante papel como policial e nos entregar algo completamente diferente. Em seu olhar na obra em questão sentimos uma confusão, misturada com angústia e impulsividade – é um homem que, claramente, deixa a vida o levar, seguindo por caminhos que nem mesmo ele consegue prever e o ator nos cativa desde que deixa de interpretar um adolescente, o que, felizmente, ocorre bem no início da obra.

Por mais que os trechos do protagonista como piloto para o traficante consigam nos entreter, a obra realmente se encontra em sua segunda metade, com os esquemas do personagem realmente tomando proporções maiores. Infelizmente, essas constantes elipses provocam uma ruptura na narrativa, a dilatando. Embora conte com apenas noventa e cinco minutos, a projeção parece se estender por muito mais tempo e, no fim, prejudicando consideravelmente nossa imersão. Um roteiro melhor trabalhado certamente contribuiria muito para uma maior fluidez, contanto que dispensasse essa estrutura episódica do longa-metragem.

VIPs consegue nos entreter, é um filme que conta com um ótimo argumento, nos prometendo contar uma história que, obviamente, parece ter sido feita para os cinemas. Infelizmente, a adaptação do livro de Caltabiano não foi tão eficaz, não traduzindo bem para as telonas a narrativa do livro. Felizmente, Wagner Moura, como sempre, não decepciona e nos envolve quase que de imediato, por mais que seja forçado a nos entregar momentos de verdadeira vergonha alheia nos trechos iniciais do filme. Dito isso, não temos aqui uma obra-prima, mas certamente uma obra que cumpre seu papel de entreter as audiências.

VIPs — Brasil, 2010
Direção:
 Toniko Melo
Roteiro: Thiago Dottori, Bráulio Mantovani
Elenco: Wagner Moura, Gisele Fróes, Emiliano Ruschel, Marcela Falci, Heitor Goldflus, Cecília Homem de Mello
Duração: 95 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.