Crítica | Virando a Página

estrelas 4

A indústria hollywoodiana possui os seus defeitos e todos nós sabemos disso, mas se há uma coisa que os estadunidenses fazem muito bem é exercitar a boa e velha metalinguagem. Tramas sobre bastidores em crise, roteiristas sem as devidas tempestades de ideias, atrizes histéricas e a emergência do lodo que envolve a corrupção por detrás de muitas produções não são apenas didáticas e nos ensinam certos mecanismos que engendram a história do cinema no geral, mas também são canais para o cinema refletir o seu próprio estatuto enquanto arte.

Ciente das vantagens em trabalhar com o talentoso Hugh Grant, Marc Lawrence decidiu procurar o ator para a quarta parceria. Ambos já haviam divertido plateias com o inteligente Amor à Segunda Vista, protagonizado ao lado de Sandra Bullock, com um roteiro cheio de bons diálogos e situações irreverentes, lançado em 2002. Mais adiante, em 2006, a parceria se repetiu com Letra e Música, igualmente divertido e ácido, desta vez, com a simpática Drew Barrymore. Logo depois, em 2009, juntaram-se para divertir mais uma vez o público, desta vez com menos intensidade, na comédia Cadê os Morgans?, tendo Sarah Jessica Parker como par romântico.

Em Virando a Página, o tom debochado típico dos trabalhos anteriores está presente, mas a reflexão e a evolução do protagonista recebem contornos mais maduros, o que torna o filme um brilhante relato sobre a necessidade (e as possibilidades) de reinventar-se sempre que necessário para driblar os obstáculos cotidianos. Minhas observações podem parecer reflexões baratas de autoajuda, porém acredite, o filme vai além de tudo isso.

Em Virando a Página, Keith Michaels (Hugh Grant) já foi um roteirista de muito sucesso e colecionador de prêmios, mas como ocorre com muitos na dança das cadeiras hollywoodiana, a fama desapareceu e, como consequência, os problemas financeiros surgiram, o que não impediu o tom prepotente, arrogante e machista que o personagem encara a vida. Amargo, Keith é convidado para exercer algo que sempre detestou: dar aula de roteiro para estudantes universitários.

Apesar de desprezar a profissão e considerar que este é um dos campos que envolvem o talento nato, e por isso, é algo que não se ensina em sala de aula, ele aceita a oferta, mas precisa lidar diariamente com a fama, a falta de instrumentos pedagógicos e de uma didática nada funcional e tampouco ética, além de problemas com uma supervisora que não aprova a sua metodologia nada ortodoxa: além de mulherengo, o novo professor menospreza o discurso acadêmico e tece altas críticas aos “burocratas do conhecimento” que vivem encastelados no meio universitário.

Como é de se esperar em qualquer narrativa, muitos laços serão atados e desatados no percurso do personagem. No local, conhece Holly Carpenter (a sempre ótima Marisa Tomei), uma mãe solteira, ocupada, dedicada aos filhos, o que não impede que se torne uma das suas mais dedicadas alunas. Há ainda o caso com uma estudante jovem e histérica, além da turma bastante heterogênea: os estereótipos gravitam durante as aulas, sendo o nerd introspectivo, a amante do cinema europeu e a fã abobalhada como algumas ilustrações desse multifacetado ambiente de aprendizado. Como colegas, Keith Michaels tem o Dr. Lenner (J.K. Simmons), gestor da instituição, e Jim (Chris Elliot), professor especialista nas obras de Shakespeare.

Por falar em especialista, creio ser necessário tocar em dois grandes pontos do roteiro, assinado por Marc Lawrence, que também assumiu a direção: a crítica ao discurso prepotente da academia e o tom metalinguístico da narrativa, espécie de centro nervoso do enredo.

Lógico que após passar diversos anos estudando determinado assunto, somos tomados por um sentimento de pertencimento e envolvemos os nossos objetos de pesquisa em nossas vidas. Sabemos que é de total merecimento o reconhecimento pelo trabalho que nos faz, em muitas oportunidades, nos distanciarmos dos amigos, da família, tendo ainda a saúde e os relacionamentos amorosos postos em crise, tamanha a necessidade de dedicação para o desenvolvimento de uma pesquisa acadêmica. No entanto, é assustador participar de alguns eventos e perceber que muitas pessoas perderam a noção e o senso do ridículo: quando não são ataques que beiram a histeria diante de alguém que discorda de determinado ponto de vista, temos os “donos” do conhecimento. Sabe aquele pesquisador chato que não sabe falar nada sem precisar citar Foucault, Derrida, Montesquieu, Bacon, ou qualquer filósofo que legitime o seu posicionamento positivista? Pois então, há uma cena em Virando a Página que nos remete a esta abordagem.

Numa determinada noite, Keith é convidado para uma pequena festa na universidade, um evento que envolve pessoas importantes do âmbito acadêmico, numa ótima oportunidade de sociabilidade. Ao chegar, o novo professor não é bem recepcionado pela supervisora Mary Weldon (Allison Janey), pois esta o considera um profissional menor por ser roteirista, alguém não merecedor da alcunha de escritor. Cheio de anedotas e com senso de humor, Keith questiona o trabalho da supervisora, que também atua como pesquisadora especialista em Jane Austen, apontando problemas discursivos na obra aparentemente não perfeita da escritora responsável por clássicos como Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito e Emma.

A recepção não é nada boa, pois como há relações de poder que erguem o espaço universitário, os convidados mais próximos enxergam na atitude de Keith uma afronta que poderá custar o seu emprego, porém, cabe ressaltar que apesar de nos fazer vibrar com a crítica ao posicionamento arrogante da supervisora, uma pessoa que age como se fosse a “dona” de Jane Austen, o que se passa com o personagem é o reflexo da maneira como este concebe a sua existência. Arrogante e cheio de si, Keith se considera a quintessência dos roteiros, num posicionamento que não se diferencia da postura elitista da professora Weldon.

No que tange aos aspectos da metalinguagem, Virando a Página é tributário dos filmes que refletem o exercício da linguagem, num jogo de espelhos que narra a arte falando de si própria. A figura do roteirista como personagem central dos enredos é uma aposta que já rendeu bons filmes: Nine, dirigido por Rob Marshall, faz um pastiche de Oito e Meio, do italiano Federico Fellini, para mostrar um diretor-autor que não consegue criar o seu próximo filme. Com Daniel Day-Lewis, Nicole Kidman, Kate Hudson, Penélope Cruz e grande elenco, o musical é primoroso, apesar do ritmo letárgico que envolve a narrativa. No complexo Barton Fink – Delírios de Hollywood, os irmãos Coen quebram a “quarta parede” dos bastidores e apresentam um jovem dramaturgo contratado por um estúdio, mas que sofre de sérios bloqueios que prejudicam a sua possível permanência na indústria ágil e de relações descartáveis, características muitas vezes associadas ao meio hollywoodiano.

Dentre tantos filmes memoráveis, há ainda o bem orquestrado O Jogador, de Robert Altman, um “suspense cult” sobre um produtor de Hollywood que sofre ameaças enviadas por um roteirista anônimo, provavelmente rejeitado, numa crítica inteligente ao esquema dessa indústria que continua crescendo vertiginosamente, mas que descarta profissionais de conteúdo por conta das demandas do mercado que envolvem uma geração Y cheia de anseios e novidades, rejeição que faz parte do cotidiano de Keith Michaels, nosso herói (ou anti-herói?) de Virando a Página, profissional que precisou adentrar no magistério por conta das frequentes propostas negativadas pelos executivos de estúdios, pessoas que o consideram competente, mas ‘”ultrapassado”.

Por falar em rejeição e roteiro, foi preciso um bom argumento, seguido de um bom texto, para convencer Hugh Grant, pois segundo divulgado em entrevistas nas coletivas de imprensa, o ator estava envolvido com questões políticas e “de licença” das produções cinematográficas. Ao receber o roteiro, o ator mergulhou bem no personagem e nos faz lembrar o canalha Daniel Cleaver, do igualmente divertido e inteligente O Diário de Bridget Jones, haja vista a sua chegada ao campus universitário, cheio de si, viril, egocêntrico, mas escondendo em seu interior uma baita crise de meia idade.

Ao longo dos 107 minutos de duração, Virando a Página consegue aliar bem entretenimento e tom crítico, tendo em mira o seu protagonista, um dos maiores responsáveis pelo bom caminho trilhado pela narrativa. Cabe ressaltar que há tempos estamos em um terreno cultural onde as pessoas não sabem equilibrar os dois lados da moeda: ou entregam filmes enlatados como entretenimento, cheio de piadas preconceituosas e escatologia, numa convicção tola de que estão nos divertindo, ou então, mergulham de forma abissal em narrativas herméticas e tediosas, distanciando o que seria um ótimo exercício crítico do público, naufragando nas tenebrosas pretensões. Nem tanto, nem tampouco, Virando a Página é um daqueles filmes que nos fazem rir sem a tal necessidade de “desligar” o cérebro para se divertir. Em suma, um entretenimento dos bons.

Virando a Página (The Rewrite, EUA – 2014)
Direção: Marc Lawrence
Roteiro: Marc Lawrence
Elenco: Hugh Grant, Marisa Tomei, Allison Janey, J. K. Simmons, Bella Heathcote, Chris Elliot, Annie Q, Aja Naomi King.
Duração: 107 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.