Crítica | Visages, Villages

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Filmado antes do aniversário de 89 anos da mãe da Nouvelle Vague, Agnès Varda, Visages, Villages (2017) reúne a diretora e o fotógrafo francês JR em uma jornada por vilas de diversos lugares da França, onde tiram fotografias gigantes de pessoas, paisagens, coisas e animais e as exibem em lugares públicos homenageando moradores antigos e destacando pessoas por suas diferentes belezas, fazendo da fotografia um instrumento de quebra do marasmo cotidiano. Assim, eles convidam a olhar com outros olhos para o mundo e a pensar sobre o significado das alterações que fazem no espaço.

O trabalho de JR mistura elementos estéticos de street art e grafite com fotografia, tendo como mote a sua visão de que “a rua é a maior galeria de arte do mundo“, procurando tirar o olhar dos transeuntes da quantidade enorme de propagandas que as ruas oferecem e fazê-los ver algo humano, uma intervenção crítica ou lírica na paisagem, algo capaz de mudar ao menos por um instante o ambiente. Essa paixão de JR pela imagem (especialmente por rostos) e pela forma de exposição delas para o público é algo que ele divide com Agnès Varda e este foi o gancho que capturou os dois artistas, que dirigem e fazem juntos (ou juntos, deixam acontecer) o enredo de Visages, Villages.

Desde que se conheceram, em 2015, os dois artistas manifestaram interesse de criar algo que falasse sobre a memória, que celebrasse a vida e também dialogasse com a morte (sobre a qual a octogenária fala livremente, vide a cena em que ela e seu parceiro visitam o túmulo do famoso fotógrafo Henri Cartier-Bresson). Nesse exercício, a criatividade se juntou a uma pequena lista de funções narrativas que pontuam o roteiro espontâneo do documentário: viajar por lugares para fotografar pessoas e o que mais chamasse a atenção; rememorar, reencontrar e fazer homenagens a pessoas e lugares importantes para Agnès Varda; modificar algumas paisagens ou espaços mesmo que de maneira efêmera (destaque para a cena das casas demolidas ou para a foto de um antigo conhecido de Varda que foi colada em um bunker da época da II Guerra Mundial, caído na praia, foto destruída pela maré em um dia) e refletir sobre as armadilhas e bênçãos que a imagem podem nos trazer.

Manipulada, livre, parcial, total… não importa qual o tipo ou uso, a imagem sempre chamará a atenção e quanto mais forte ou mais humano for o seu conteúdo e quanto mais incomum for a forma como é compartilhada, mais atenção deverá atrair. Com isso em mente, os dois artistas falam do quadro cinematográfico, de fotografia e cartões postais, de histórias de vida e morte, de opções de vida, produção e comércio e de relações humanas das mais diversas. Dos desencontros iniciais dramatizados pelos diretores, passamos para um acordo entre a dupla, pela resolução de fazerem um filme livre e pela vontade de registrarem lugares diferentes da França em grande escala, colocando em cena também a dificuldade de enxergar de Agnès Varda, além das limitações de sua idade, o que os leva a “sacanear Godard” em uma revisão divertida de uma famosa cena de Band à Part.

Aí sobra espaço para Varda expor, mesmo que indiretamente, seus pensamentos feministas e a maneira de destacar a mulher, seu espaço no mundo, seus pensamentos e sentimentos. A sequência com as esposas dos estivadores do porto de Le Havre é um exemplo, embora esta sequência seja a única parte da obra que causa uma certa estranheza pelo deslocamento da proposta desde o início, algo que a própria cineasta ironiza, dizendo “a ideia era fotografar vilarejos, não portos“, mas vista de forma isolada, trata-se de um ótimo momento do longa.

Com música pontual e complementar, excelente concepção de direção ao misturar fotografia e vídeo como parte de uma grande intervenção no mundo em duas vias de imagem e um ponto final que marca bastante o espectador, diante de uma mensagem um tanto cruel de Jean-Luc Godard para Varda (o quanto de elementos pré-combinados com o “amigo de longa data” tivemos ali fica a critério do espectador, mas isso em nada afeta o sentido, a intenção e o impacto da cena), Visages, Villages é o produto de colisão de dois grandes artistas de diferentes idades e mundos mas com a mesma paixão pela arte e pela forma como ela enxerga as pessoas em volta. Ou seja, aquilo que faz toda a diferença.

Visages, Villages (França, 2017)
Direção: JR, Agnès Varda
Roteiro: JR, Agnès Varda
Elenco: JR, Agnès Varda
Duração: 89 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.