Crítica | Viúva Negra: A Mais Intrincada Teia

estrelas 1,5

Sabe o que Natasha Romanova faz quando não está trabalhando para a SHIELD ou atuando ao lado dos Vingadores? Ora, ela participa de missões secretas apoiadas pela SHIELD nas quais encontra “por acaso” membros ou aliados dos Vingadores. E eu que achava tão bacana a idéia de explorar aspectos mais humanos dela…

Neste segundo volume publicado aqui pela Panini (edições #7 a 12 da revista Black Widow Vol.5), uma misteriosa organização ameaça a vida de pessoas próximas à protagonista, que precisa contar com a ajuda de aliados para obter respostas e salvar os inocentes. O autor opta então por utilizar uma abordagem mais calcada na ação e no suspense de espionagem, dando pouco espaço para conhecermos Natasha mais a fundo. Se no primeiro volume ele foi bem, apesar de ter faltado profundidade, aqui foi mais do que raso, não passou nem perto de explorar a psique da personagem.

A questão é que o tom do primeiro volume deu esse gostinho ao leitor; tinha sim ação, mas alternada com momentos mais reflexivos ou até rotineiros. Quem está lendo ou leu o Gavião Arqueiro da Nova Marvel sabe do que eu estou falando. Mas o que temos aqui é ação, explosões, tiros, lutas, quedas, perseguições e por aí vai. O desenvolvimento da personagem ficou sem espaço. O que realmente sabemos sobre a Viúva é que ela gosta, e muito, do que faz. “Mas a verdadeira razão de eu estar no meio de uma zona de guerra? Eu estava precisando de uma boa briga”.

Em apenas seis edições deste segundo volume temos Tony Stark, Demolidor, Gavião Arqueiro, Maria Hill, Soldado Invernal, Justiceiro, X-23 e Ossos Cruzados. Claro que é sempre legal vermos essas participações, mas tudo tem limite. Lembram da própria Viúva Negra aparecendo no Demolidor do Bendis? Ou do Capitão América em A Queda de Murdock? Ou mesmo do Batman em DPGC? Tudo muito legal, mas pontual, esporádico, pois há outros protagonistas. Aqui ficou meio forçado; talvez para dar mais peso ao título e atrair leitores? Achei muito cedo para tantos medalhões fazendo pontas em tão poucas edições, mesmo que pequenas em alguns casos (e até desnecessárias, pois nada agregam).

Acredito que mais tempo de desenvolvimento da protagonista seria apropriado. A edição #12 tenta fazer algo que já vimos muito em quadrinhos de super heróis: exposição de identidade secreta pela mídia. Mas Nathan Edmondson não teve habilidade para usar este plot da forma certa; tudo muito corrido, sem a devida preparação e absolutamente nenhum preparo. Afinal, qual é a vantagem de se expor a identidade de um herói com o qual o leitor não se identifica? A graça é quando o público compra a ideia, possui empatia com o personagem e se importa com ele. Mas para isso, precisa antes conhecê-lo. Aqui, Edmondson não chegou nesse estágio, por isso acredito que esteja desperdiçando munição. Não que a personagem não seja boa, nada disso. Eu, por exemplo, gosto muito dela, mas é algo prematuro para o que nos foi apresentado até aqui nesta mensal.

Além disso, o problema visto no primeiro volume permanece: soluções fáceis e inverossímeis nas sequências de ação. Aqui ainda atribuo um pouco mais de culpa à arte de Phil Noto, que deixa a desejar na narrativa gráfica. Algumas seqüências são difíceis de entender graficamente, pois mostram Natasha em cenas desconectadas, parece que há uma lacuna entre um momento e outro. Na edição #7, quando ela está num píer, sentada no banco e em seguida aparece em perseguição no terraço de um prédio (?), temos um exemplo disso.

Um ponto positivo do encadernado trazido pela Panini é que a edição da série do Justiceiro que faz crossover com a mensal da Viúva vem junto, dando ao leitor a oportunidade de ter a história completa em mãos. Lembro-me que o mesmo não ocorreu no início da publicação do Demolidor do Mark Waid por aqui; na ocasião, o arco no qual o advogado cego obtém um disco com dados confidenciais das principais organizações criminosas do mundo tinha desdobramentos na série do Justiceiro também. Só que quem acompanhava só os encadernados do advogado cego ficou sem saber o que aconteceu.

Em linhas gerais a qualidade da obra caiu. A Viúva de Nathan Edmondson não evolui enquanto personagem e a série toma o caminho mais fácil e com menos conteúdo, o que faz com que o leitor não perceba nenhum grande diferencial para prosseguir acompanhando a mensal; a história é no máximo interessante. Alguns podem dizer que a proposta consiste justamente em entregar uma série de ação e espionagem, mas a mudança de tom das edições iniciais para as posteriores (a partir do número #7) é evidente. Acredito que a Viúva Negra seja uma personagem boa o suficiente para ganhar uma série de alto nível sem precisar se apoiar em outros pesos-pesados, como já vimos com o Justiceiro, Demolidor, Gavião Arqueiro e Jéssica Jones (só pra citar alguns personagens urbanos). Mas, infelizmente, ainda não parece ser desta vez.

Black Widow #7 a 12 (EUA, agosto de 2014 a janeiro de 2015) + The Punisher #9 (outubro de 2014)
Publicação no Brasil: Viúva-negra 2 (Panini)
Roteiro: Nathan Edmondson
Arte: Phil Noto
Capas: Phil Noto
148 páginas (edição da Panini)

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.