Crítica | Viúva Negra: A Pequena Aranha (1999)

estrelas 2

Sabem aquela musiquinha infantil que diz que “a Dona Aranha subiu pela parede…”? Então, o equivalente para este verso, em inglês é “the Itsy-Bitsy Spider climbed up the kitchen wall“, cujo início poderia ser traduzido por algo como “a aranhazinha” ou “a pequena aranha“. E foi este título que o roteirista Devin Grayson utilizou para nomear as três edições que formam o Volume Um das aventuras em revista solo da Viúva Negra, nome que, como vocês sabem, deriva de um grupo de aranhas muito bonitas e… perigosas.

Mas o volume não é inteiramente focado na Viúva Negra que conhecemos, a vingadora Natalia “Natasha” Romanova. Há uma divisão de atenções com outra Viúva Negra, Yelena Belova, personagem criada na revista Inumanos #2 (março, 1999) pela dupla Paul Jenkins e Jae Lee, apenas alguns meses antes da publicação da primeira edição deste volume.

Com um drama envolvendo um soro mortífero em um país fictício do Oriente Médio, o Rhapastan, a nossa Viúva Negra deverá lutar para… bom, aí é que surge o maior problema de A Pequena Aranha: definir o foco da narrativa. Afinal, quem está lutando ao lado de quem aqui?

viuva negra a pequena aranha natasha

Não bastasse as incompressíveis reminiscências de Romanova em relação ao seu passado — momentos completamente desconexos da trama central e que talvez tenham sido uma tentativa do autor para mostrar um lado mais “sensível” da personagem, porém, isso acabou atrapalhando a história –, a intromissão dispensável de Yelena Belova mina toda a possibilidade de expansão do enredo para a protagonista da revista e o resultado disso é um afastamento do leitor em relação à personagem e uma dispersão e confusão dentro da própria saga, que para se justificar como um “típico drama de espionagem”, traz o ranço das falsas pistas e falsos objetivos. Nem é preciso dizer que isso acaba não dando certo em A Pequena Aranha.

O que se espera de uma pequena série da Viúva Negra é que a personagem faça o que ela pode fazer de melhor: investigar e lutar. Sendo inteligente e exímia guerreira, Romanova poderia muito bem levar três edições sozinha, sem precisar de uma contraparte russa (que mais parece soviética, se vermos o tratamento ideológico) e sem precisar de um cameo de luxo — mas convenhamos, não necessariamente ruim — do Demolidor.

Essas bem intencionadas “participações especiais” possuem, claro, uma justificativa marqueteira da editora, afinal, uma nova série sempre precisa de algo a mais para chamar a atenção, e nada melhor que personagens já consagrados ou previamente apresentados para isso. No entanto, é possível realizar esse processo sem quebrar a narrativa em pedaços que interrompem o propósito da publicação apenas para que essas participações sejam encaixadas no decorrer das páginas. Exceto pela visita de Matthew Murdock no início da edição um, as pequenas pontas não cumprem bem o seu papel de adicionar elementos à trama. Elas subtraem.

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A arte de J.G. Jones é muito boa, assim como o trabalho da equipe de coloração. Por se tratar de uma jornada investigativa com diferentes focos de interesse ao redor do mundo (EUA, Rússia, França, Suíça, Rhapastan), o artista nos dá boas oportunidades de vermos como ele cria e explora cenários completamente diferentes, bem como distintas etnias no decorrer das edições.

Pesa, porém, sobre ele, os desenhos anti-anatômicos e desnecessários das Viúvas Negras de pernas muito abertas, grandes seios em exibição, quadros com grande destaque para bundas e posições sexualizadas que até mesmo sob uma concepção… machista de olhar perdem o apelo porque não faz sentido onde aparecem. Isso incomoda algumas vezes, mas não é nada tão grave a ponto de descaraterizar a arte que, como afirmei anteriormente, é boa. A diagramação, por outro lado, começa muito bem na primeira edição mas aos poucos se simplifica, torna-se pouco imaginativa, principalmente nas cenas de luta, que me parecem uma repetição, do início ao fim. Exceto duas excelentes páginas duplas, o fluxo narrativo de A Pequena Aranha não é exatamente algo para se aplaudir.

Com lições de moral da Viúva Negra vingadora para a jovem Viúva Negra ainda sob o julgo do treinamento russo (sim, lições de moral), a saga termina mais ou menos como era de se esperar nesse tipo de história. Embora cercadas de pessoas, as personagens parecem solitárias. O drama foi resolvido mas os bandidos — e muitos deles! — permanecem em seus postos de destaque no governo, no Exército e nos laboratórios ao redor do mundo. O conceito político da história, como percebem, é bom. Faltou percorrer um igual bom caminho até chegar aí.

Viúva Negra: A Pequena Aranha (The Itsy-Bitsy Spider) — EUA, junho a agosto de 1999
Roteiro: Devin Grayson
Arte: J.G. Jones
Cores: Dave Kemp, Brian Haberlin, Ian Hannin, Andy Troy
Letras: Richard Starkings, Comicraft, Wes Abbott
Capas: J.G. Jones
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.