Crítica | Viva a Liberdade

estrelas 4,5

Um rosto que mostra a derrota e a falta de ânimo. O outro que mostra a segurança e o otimismo. Qual desses dois é o rosto de um político? Em um retrato que remete à paralisia política enfrentada pela Itália no cenário atual, o diretor Roberto Andò cria uma dualidade fácil de ser reconhecida a partir da dupla figura profissional demonstrada por dois irmãos gêmeos, que desempenham o mesmo cargo no principal partido de oposição.

Isso se dá a partir da substituição entre os dois no momento em que Enrico Oliveri, o secretário geral de um dos principais partidos da oposição, decide escapar do embaraço e se esconder por um tempo. É assim que Giovanni Ernani entra em cena para fazer um contraposto com a dureza com que o irmão encara o trabalho.

A maneira como cada um lida com o desafio de trazer a esperança para dentro do discurso político se difere desde logo. Giovanni mais parece alter ego da população enquanto que Enrico parece incorporar todas as fraquezas e dificuldades enfrentadas por um político que se perde no caminho até o poder. Toni Servillo interpreta ambos personagens de maneira esplêndida.

A substituição que ocorre entre as personagens remete ao filme Dave – Presidente por um Dia, com Kevin Kline, em que ele é sósia do presidente dos Estados Unidos e com bastante dinamismo e energia consegue melhorar a popularidade dele durante uma crise.

Retomando o filme em questão, o contraste entre a Itália fora das telas e a que poderia ser contada no cinema é alcançado pela maestria com que o ator consegue explorar as emoções. É preciso uma voz clara. Em discurso proferido para uma plateia descrente, Giovanni consegue arrancar aplausos ao questionar a situação de fraca visibilidade que o próprio partido exerce dentro do cenário político. Até então se torna admirável a maneira como ele reverte a opinião pública a respeito da própria atuação como secretário.

No entanto, nessa descrição de mudança positiva se esconde o argumento do filme de que tudo tem dois lados e que existe um cenário ideal para a política e aquele da realidade, representados respectivamente pelos dois irmãos. Enquanto um renova a esperança do povo, o outro renova a esperança em si mesmo.

E isso acontece a partir de uma narrativa repleta de momentos bem humorados se contrapondo com uns mais intensos, o que descreve bem o equilíbrio no roteiro. Além disso, o longa-metragem permite que o personagem de Giovanni aproveite bem o espaço físico e a interatividade corporal, atraindo para si certa excentricidade. Já que Enrico é uma personagem contida, presa atrás da imagem que quer associar a si com a mesma autenticidade da coloração de seus cabelos.

Viva a Liberdade (Viva la Libertà, Itália, 2013)
Diretor: Roberto Andò
Roteirista: Roberto Andò
Elenco: Toni Servillo, Valerio Mastandrea, Valeria Bruni Tedeschi, Michela Cescon, Gianrico Tedeschi, Eric Nguyen
Duração:  94 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.