Crítica | “Viva Tim Maia!” – Ivete Sangalo e Criolo

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estrelas 2,5

Produzido por Daniel Ganjaman, Viva Tim Maia! (2015) é mais um daqueles desnecessários projetos de regravação que surgem com o intuito de capitalizar em cima de clássicos da música ou de qualquer outra arte. O álbum é o “produto final” de uma série de shows realizados pela improvável dupla Ivete Sangalo e Criolo, shows patrocinados pela Nivea (uma empresa de creme, segundo Ed Motta), que investiu bastante em locações de espaços para concertos gratuitos e filmagem das apresentações. Viva Tim Maia! é, portanto, o que se esperava como ponto final desse projeto. Uma realização que certamente está fazendo o “homenageado” revirar-se violentamente no túmulo.

A turnê antes do disco já tinha dado o que falar e ganhou um desafeto tragicômico em Ed Motta, sobrinho de Tim Maia, que escreveu em uma rede social, comentando o evento:

Uma empresa de creme, me procurou para fazer o ‘projeto’ Tim Maia, a grana não era compatível com meu desprazer em fazer isso… Para mim a música do Tim Maia é intocável, fica bom mesmo é com ele, é preciso honestidade e vergonha na cara para admitir isso. O cara que teria REALMENTE cabedal para um tributo ao Tim Maia seria o Claudio Zoli, por conta do timbre de voz, e também a história e envolvimento de carreira. O compromisso com o soul/funk carioca etc etc. Mais do que sacanagem, é um desrespeito por gente que dedicou a vida inteira a isso. Vontade de vomitar, que coisa PODRE.

Claro que há exagero teatral na fala de Motta, mas ele não está completamente sem razão. Tim Maia não é intocável, mas sua obra merecia uma melhor homenagem. Ivete Sangalo definitivamente não é uma grande cantora e não tem a riqueza musical necessária para levar um projeto assim para o estúdio. Criolo, por sua vez, é um grande cantor, ótimo rapper e tem os melhores acertos do disco, mas seria bom que ele estivesse apenas em uma ou duas canções e — agora concordo plenamente com Ed Motta — Claudio Zoli poderia entrar como a principal voz do projeto, tanto na turnê quanto no trabalho em estúdio.

No tocante ao acesso à cultura e lembrança de um dos grandes nomes da nossa MPB, o projeto Nivea Viva Tim Maia, com os concertos gratuitos, foi excelente. O show em São Paulo, realizado em 28/06/2015 foi um ótimo show, com boas performances e bom repertório. A banda e o calor do público ajudaram a dar uma cara diferente à proposta, tornando-a mais viva e divertida, algo que o disco não conseguiu alcançar, permanecendo em um território insosso, com produção pobre e poucos momentos interessantes. Da forma mais negativa possível, Viva Tim Maia! é um álbum medíocre.

Abrimos com Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar), uma faixa que deveria ao menos trazer a vivacidade de Ivete Sangalo nos vocais — ajudada por um arranjo que favorecesse seu tom e em um ritmo mais acelerado –, porém, nada disso acontece. Não há emoção e nem há o sabor melancólico que a canção original possui. Se a tarefa de cantar Tim Maia já é ingrata, arriscada e, em termos de regravação, desnecessária, realizá-la errado piora ainda mais as coisas. Infelizmente, essa linha menor de produção segue em Você e Eu, Eu e Você (Juntinhos), Réu Confesso, Me Dê Motivo (Criolo jamais deveria ter aceitado interpretar essa canção), Um Dia de Domingo (subtraída de qualquer emoção) e, a pior faixa de todo o disco, Azul da Cor do Mar.

Mas nem tudo é uma tragédia. Afinal, o álbum não é “podre”, como deve ter classificado Ed Motta. É um álbum medíocre e desnecessário, mas não “podre”. E o que faz dele ao menos aceitável em alguns pontos? Bem, veja por exemplo as duas boas canções do disco (que tem 12 faixas), Telefone e Chocolate. O arranjo da primeira parece daqueles bem “baratos, mas gostosos” no início, mas cresce e ganha detalhes sonoros interessantes, além de entregar o único acerto de Ivete Sangalo no álbum. Já a segunda, a melhor faixa do disco, mostra forte inspiração da versão de Marisa Monte na interpretação de Criolo, que canta a música com uma doce malícia e denuncia o duplo sentido do “chocolate”, fazendo jus ao propósito original de Tim Maia. Essa é para ouvir em volume bem alto.

Criolo volta a se destacar no final (após o desastre de Me Dê Motivo), com Coroné Antônio Bento. Suas raízes nordestinas afloram e ele tem a sorte de, além da boa interpretação, contar com o mais criativo escopo instrumental de Viva Tim Maia! nessa canção, o que nos faz pensar um pouco sobre como seria o álbum se Daniel Ganjaman realmente tivesse parado, pensado e feito algo mais cuidadoso nas outras 11 faixas.

Dito por Ivete Sangalo em entrevistas como um “sonho de vida realizado”, essa homenagem a Tim Maia seria melhor que não tivesse saído dos shows gratuitos. Em tese, o disco serviu apenas para manchar a discografia de Criolo e irritar os que gostam da música do Pai da Soul Music Brasileira. Em suma, vale a pena ouvir se você tiver tempo e paciência. Caso contrário, procure outra coisa para ouvir.

Avaliação individual das canções

Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)   Ivete Sangalo estrelas 2
Primavera (Vai Chuva)  Criolo estrelas 2,5
Lábios de Mel  Ivete & Criolo estrelas 3
Telefone  Ivete Sangalo estrelas 3,5
Chocolate  Criolo estrelas 4
Você e Eu, Eu e Você (Juntinhos)  Ivete & Criolo estrelas 2
Réu Confesso  Ivete Sangalo estrelas 2
Me Dê Motivo  Criolo estrelas 2
Um Dia de Domingo  Ivete & Criolo estrelas 2
Azul da Cor do Mar  Ivete Sangalo estrelas 0,5
Coroné Antônio Bento Criolo estrelas 3,5
Medley: Sossego / Do Leme ao Pontal Ivete & Criolo estrelas 3

Aumenta!: Chocolate
Diminui!: Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar), Réu Confesso, Me Dê Motivo, Azul da Cor do Mar.
Minhas canções favoritas do álbum: Chocolate  e  Coroné Antônio Bento

Viva Tim Maia!
Artista: Ivete Sangalo e Criolo
País: Brasil
Lançamento: 31 de julho (download) e 8 de agosto (CD) de 2015
Gravadora: Universal Music
Gênero: MPB

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.