Crítica | Viver

estrelas 5

Viver (1952) aparece na carreira de Akira Kurosawa logo após o fracasso de público de O Idiota (1951) e o sucesso internacional do laureado Rashomon (1950). Com roteiro do próprio Kurosawa em parceria com Shinobu Hashimoto (Os Sete Samurais) e Hideo Oguni (Ran), Viver sagrou-se como um dos filmes mais emotivos da filmografia do diretor e certamente um dos melhores de sua carreira.

Kanji Watanabe é um toquiota que gerencia uma repartição pública a muitos anos. Toda a sua vida foi dedicada ao trabalho, cumprimento de agendas, burocracia de escritório, horários, compromissos profissionais. Em idade avançada e às portas da aposentadoria, o sr. Watanabe percebe que praticamente viveu em um escritório a maior parte de seus áureos anos e que nada realizou para si próprio ou para os outros. Desde o início, percebemos que a escrupulosa direção de arte deixa clara a oposição entre o mundo claustrofóbico da repartição pública mergulhada em papéis, e o mundo onde a vida acontece sem memorandos, pedidos, ordens e carimbos.

Kurosawa nos convida a pensar sobre o que é a existência humana e o que se deve fazer para encontrar um possível equilíbrio entre viver e realizar alguma coisa no mundo, deixar a sua marca, ou sobreviver para acumular riqueza, títulos e dores de cabeça. Ao final da vida, o que nos sobra?

Há uma série de adequações sociais a serem cumpridas por todo indivíduo que nasce nesse planeta. O esperado é que a pessoa tenha um bom emprego, boa remuneração, um casamento feliz e filhos para – no melhor estilo monárquico de se pensar – “dar continuidade ao nome”. Mas os tempos são outros, e são outros desde há muito tempo. No caso do sr. Watanabe, vemos que a luta para criar o filho após a morte da esposa não foi recompensada na velhice. O filho seguiu a sua própria vida, afastou-se do pai, e no momento da narrativa, vemos que o esperado laço entre os dois não existe. O pai está sozinho, e para piorar, não conta com realizações pessoais além do trabalho. Mas o pior ainda está por vir, já que o sr. Watanabe descobrirá que está com um câncer no estômago e que tem pouco tempo de vida.

E então surge o desespero de (quase) todo ser humano: o medo da morte, o receio do desconhecido, a constatação de que às portas do fim de uma existência na Terra, nada foi feito. E nesse ponto, Takashi Shimura consegue realizar um trabalho de interpretação soberbo, transpondo a figura sisuda do Kanji Watanabe para uma personalização pueril, num primeiro momento, e engajada ou consciente, num segundo. Ao receber a notícia e se dar conta de que nada fez em vida, o protagonista começa a faltar ao trabalho, visita festas e bares, tenta de alguma forma ocultar para si mesmo o fracasso em seu próprio cuidado durante todos esses anos. A doença é o motivo para uma nova vida e uma nova postura. Kurosawa já havia trabalhado isso em O Anjo Embriagado e Duelo Silencioso, mas agora a questão é ainda mais profunda, uma vez que o protagonista se propõe a mudar o estado das coisas de alguma forma e no pouco tempo que lhe resta.

E então o Kurosawa político de Juventude Sem Arrependimento volta à tona, acrescentando ao roteiro uma forte carga de engajamento político, onde o sr. Watanabe põe de lado a burocracia e passa agir em benefício da comunidade. Solicitações e papéis que em outro tempo se perderiam na poeira das pastas e arquivos públicos, ganham a sua atenção. A construção do parque onde antes era um pântano, ganha  não só uma visão política e social, mas algo bastante pessoal e até simbólico, se nos lembrarmos da antológica cena do protagonista no balancinho, à noite, sob a nevasca.

E então um ciclo vicioso se apresenta. A posição de Kanji Watanabe é lembrada e admirada por todos, mas por se tratar de algo muito particular, os colegas da repartição pública acabam não compartilhando da postura do falecido e voltam a repetir a mesma roda de marasmo e não-realizações em suas vidas quase robóticas.

Nada mais precisa ser dito após essa exposição. Viver consegue articular uma visão crítica sobre o mundo, sobra a humanidade e sobre o sentido da vida, e o faz de maneira poética e política, uma dupla que raramente consegue se apresentar no cinema, mas quando acontece, o resultado é daqueles que marcam para sempre o espectador, como esta belíssima obra-prima de Akira Kurosawa.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.