Crítica | Vizinhos (2014)

estrelas 2

Obs: Crítica originalmente publicada em 21 de junho de 2014, por ocasião da estreia do filme no Brasil.

Vizinhos é uma tentativa frustrada de se fazer uma comédia adulta de Judd Apatow sem Judd Apatow. A fórmula está toda lá: um casal que recentemente teve uma filha vive uma vida de sonho em uma casinha de subúrbio, até que uma fraternidade de uma faculdade próxima se muda para a casa ao lado, acabando com a tranquilidade. A guerra, claro, começa.

A premissa é extremamente batida e todas as piadas que valem a pena estão nos trailers. Isso é um problema do filme ou dos trailers? Tenho para mim que dos dois, pois os editores de trailers, hoje, tem a mania irritante de desaguar em dois minutos todas as surpresas, mas, por outro lado, uma fita, especialmente de comédia, não pode ter tão poucas situações engraçadas a ponto de elas serem esgotadas em dois minutos de projeção. Mas é o que acontece com Vizinhos, que sofre de um roteiro que tenta ser “pesado”, mas é idiota e que, apesar de se basear em um meta-comentário inteligente, faz de tudo para estragá-lo com repetições ad nauseam.

E que meta-comentário é esse? – vocês hão de perguntar. Ora, o óbvio: tanto Zac Efron, que faz o presidente da fraternidade Delta Psi, quanto Seth Rogen, o pai de família, estão vivendo papéis estereotipados de si mesmos. Efron é o bonitão musculoso – “como se saísse do sonho de um gay”, como Mac Radner (Rogen) logo o classifica, admirando-o com alguma nostalgia – e Rogen é o adulto desleixado, gorducho e barbado, que está psicologicamente entre tentar ser um membro bacana e descolado de uma fraternidade e o pai de família responsável e quadrado (como se só existissem esses dois pólos).

A meta-brincadeira funciona bem nos primeiros dez minutos. Mas aí o roteiro de Andrew J. Cohen e de Brendan O’Brien, ambos debutando nessa capacidade em longas, começa a tratar os espectadores como completos energúmenos, repetindo a mesma ideia de novo, e de novo e de novo. Sim, meus caros, nós já entendemos que Efron e Rogen estão brincando com eles mesmos, mas dá para por favor fazer a trama prosseguir por outros caminhos sem nos lembrar disso a cada 15 segundos?

E aí não tem jeito. Efron passa o filme inteiro sem camisa e falando “bro”, sem dar uma chancezinha ao ator – que até sabe atuar, vale dizer! – para mostrar a que veio e a justamente se emancipar desses papéis rasos como o proverbial pires. Seth Rogen, por outro lado, tem muito mais timing para comédia, mas, em Vizinhos, esse timing é desperdiçado com situações forçadas e, em última análise, chatas. Percebam, por exemplo, quantas vezes o verbo “ordenhar” é usado na sequência em que, bem, Mac tem que literalmente ordenhar sua esposa Kelly (Rose Byrne). Chegaria a ser constrangedor se não fosse tão ridículo e pouco natural. E olha que costumo ser leniente com Rogen, por simplesmente simpatizar com o ator.

Aliás, falando em simpatizar, o que é essa Rose Byrne? Australiana e egressa de papéis absolutamente inexpressivos, Byrne não consegue falar uma palavra sem parecer que está em trabalho de parto. Tudo é um dificuldade para ela, que está deslocada entre os adultos, os adolescentes e até mesmo com sua linda bebezinha (aliás, um parênteses, a filhinha do casal, vivida pelas gêmeas Elise e Zoey Vargas é irresistível). Seu timing para piadas é inexistente, sua dicção australiana não consegue nem ser divertida por natureza, suas expressões são vergonhosas e sua química com o coitado de Seth Rogen é tão perfeita quando a mistura de óleo com vinagre. Perto dela, todos os demais atores de Vizinhos são Laurence Oliviers…

A direção de Nicholas Stoller, cuja carreira, assim como a dos roteiristas, é tendente a zero, até tenta, mas não consegue ultrapassar as deficiências do roteiro com uma montagem rápida, uma câmera intrusiva e íntima e algumas tomadas interessantes, especialmente dentro da fraternidade, emulando o espírito dos baderneiros. Mas nada salva um filme em que os adultos são mais imbecis do que os jovens e que simplesmente não tem uma resolução minimamente aceitável.

Sem dúvida alguma, a tentativa de se imitar o estilo Apatow de dirigir e escrever (nada contra a imitação, aliás) foi completamente destruída pela inabilidade dos roteiristas de entenderem que uma comédia desse tipo precisa ter alguma substância que não seja uma premissa repetida até irritar. Zac Efron e Seth Rogen mereciam mais do que isso. E nós também.

Vizinhos (Neighbors, EUA – 2014)
Direção: Nicholas Stoller
Roteiro: Andrew J. Cohen, Brendan O’Brien
Elenco: Seth Rogen, Zac Efron, Rose Byrne, Elise Vargas, Zoey Vargas, Brian Huskey, Ike Barinholtz, Carla Gallo, Dave Franco, Halston Sage, Christopher Mintz-Plasse
Duração: 97 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.