Crítica | Vizinhos (1952)

estrelas 4,5

Uma das obras-primas de Norman McLaren, o oscarizado Vizinhos (1952) é um curta-metragem peculiar, seja em forma, seja em conteúdo. Realizado após o retorno do diretor ao Canadá, vindo de uma viagem à China maoista, Vizinhos é uma metáfora de seu tempo, apresentando indícios das disputas ideológicas ocorridas na Guerra Fria, então em vigor, e com relação direta à Guerra da Coreia (1950 – 1953).

A história do filme é daquelas falsamente simples. Dois vizinhos convivem em paz. São burgueses comuns, sentados em suas cadeiras e lendo jornal. Sorriem e compartilham o momento do ócio e do cigarro. Mas o nascimento de uma flor na fronteira entre o território em comum põe fim à convivência pacífica. Eles travam uma guerra mortal a fim de conquistar o direito de ter a flor para si, e não se dão conta de que ao fim da disputa, a flor não existirá mais, logo, terá sido em vão a luta.

Podendo ser aplicada a qualquer guerra ou disputa territorial e de posse, a situação é vista pelo diretor com ironia e negatividade. Uma situação de teor semelhante acontece em Duas Soluções Para um Problema (1975), de Abbas Kiarostami. A diferença é que no filme do mestre iraniano, vemos os dois lados possíveis, e o modo mais simples e mais bonito é escolhido pelos protagonistas. Em Vizinhos, isso não acontece. Compartilhar a preciosidade que era aquela flor (aparentemente com propriedades alucinógenas) deveria ser direito de apenas um dos homens, o reflexo de nossa sociedade capitalista, onde a propriedade privada é defendida e necessária, como se fosse algo vital ou pré-requisito para a felicidade.

O final trágico dos protagonistas nos mostra muito mais do que o horror da guerra. A escolha pela disputa desumaniza o homem, descaracteriza a sua civilização, e ao fim de uma longa briga onde nem os inocentes são poupados (o diretor deixa isso muito claro), ninguém se sagra vencedor. O pior é que se trata de uma situação facilmente resolvida através de um diálogo ou acordo entre as partes interessadas, o que num dado momento é cogitado pelos vizinhos através do convencimento de propriedade única, mas nunca de compartilhamento.

Através de um processo de animação com humanos, Norman McLaren cria e trabalha uma situação profunda e polêmica de uma maneira simples e até engraçada. Sem diálogos, a música assume o papel da narração da história, e os sons sintéticos caracterizam muito bem as personagens que poderiam muito bem ser qualquer estadista líder de uma guerra, ou qualquer indivíduo que não vê outro modo de conseguir as coisas que não seja a violência. Vizinhos mostra um espelho do homem que pode estar ao seu lado, e que mais cedo ou mais tarde se aproxima e se faz perceber… afinal, em um mundo com disputas de todos os lados, alguém, alguma vez, já passou por uma situação ao menos metaforicamente semelhante.

* Atenção para as manchetes dos jornais que os vizinhos estão lendo!

Vizinhos (Neighbours, Canadá, 1952)
Direção: Norman McLaren
Roteiro: Norman McLaren
Elenco: Grant Munro, Jean Paul Ladouceur
Duração: 8min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.