Crítica | Voando Alto

estrelas 4

Filmes de esporte, tirando raríssimas exceções, são para um público de nicho. Tão especializados que muitas vezes possuem suas fórmulas próprias de narrativa assim como os diversos filmes de comédia romântica. Em sua grande maioria, temos um fracassado, um underdog desacreditado superando todas as adversidades para provar seu valor. Voando Alto não foge disso, mas é inegável a energia e carisma que esse longa possui.

Acompanhamos a história, parcialmente verídica, de Michael “Eddie” Edwards, um rapaz que desde de que se conhece por gente tem o sonho de virar um atleta olímpico. Tendo arriscado diversas modalidade enquanto criança, Eddie quase desiste de seu sonho após muitas investidas de seu pai que sonha em ter um filho gesseiro, assim como ele. Porém, ao observar alguns garotos praticando downhill na pista de gelo de sua cidade, Eddie decide que não será gesseiro ou um atleta olímpico, mas sim um atleta das Olimpíadas de Inverno.

Após treinar por anos sua prática com downhill, Eddie sofre mais uma desilusão, o destino parece sempre conspirar contra ele, pois um dos representantes do Comitê Olímpico de Londres não fica nada impressionando com o desempenho do rapaz. Diz a ele para desistir de seu sonho. Porém, Eddie é obstinado. Sabendo que o downhill não o levará a lugar algum, ele parte para uma jornada na Alemanha em busca de aprender a modalidade mortal do Salto com Esqui para participar das Olimpíadas de Inverno de Calgary em 1988.

Centrado no conflito já muito manjado do idealista underdog e fracassado em conquistar um sonho praticamente impossível para sua realidade, o roteiro de Sean Macauley e Simon Kelton, assim como Eddie, reconhece todas as suas limitações para retratar essa história. E isso eu aplaudo. Filmes honestos que tem essa autoconsciência, em abraçar seu verdadeiro potencial no limite do possível. Eles sabem da dificuldade em lançar algo estupidamente único e excepcional com o material que trabalham aqui. Logo, a escolha em abraçar a natureza de feel good movie não poderia ser melhor. Já tivemos um caso muito similar em 2014 com o abarrotado de clichês e fórmulas de roteiro Uma Aventura Lego. Ainda assim, a animação da Warner conquistou um público vasto, incluindo a mim.

Com Voando Alto não é diferente. O filme traz uma bela história de superação extremamente divertida, além de ser um drama competente quando requisitado. Apesar de ser um roteiro muito agradável, ele sofre, inevitavelmente, de suas limitações e também por conflitos bastante genéricos com os dois personagens que ele trabalha. O núcleo de Eddie é que o de fato é. O personagem tem carisma, seu amadurecimento é sentido no longa, as reviravoltas funcionam, sua motivação nos convence. Ele apenas não foge da estrutura clássica dessa linha. Logo, não há surpresas – é previsível ao extremo. Você saca todo o caminho que o longa percorrerá minutos antes dos acontecimentos se desdobrarem. Sabe exatamente onde Eddie triunfará ou falhará. Com quem criará laços afetivos onde o roteiro investirá tempo de tela ou com os diversos personagens simplórios, incluindo os pseudo antagonistas, que ele dedicará seletas cenas.

Já com seu treinador, o ex atleta arrogante Bronson Peary, as coisas se tornam um pouco mais complicadas. Como todo esse núcleo narrativo é fictício, os roteiristas, mesmo podendo ousar um pouco mais, se limitam em se basear em outro estereótipo – o alcoólatra fracassado que usa a bebida como escapismo de seus próprios demônios vindos de seu breve momento de glória arruinado por si próprio no passado. Convenhamos, não é preciso pensar muito para encontrar personagens assim em diversas outras obras audiovisuais ou de narrativa clássica. Cria-se pouco com Bronson e ainda por cima, o personagem auto explica seu próprio conflito, algo que é considerado muito precário dentro das artes por conta da exposição desnecessária. Porém ainda é um personagem de fácil afeição. Muito disso vem diretamente da atuação apaixonada de Hugh Jackman que traz uma singela variação do tipo Wolverine. A natureza rabugenta, pessimista e pouco ortodoxa raramente dá errado, logo é óbvio que Jackman, já acostumado ao papel, sabe muito bem o que fazer, mas agora trabalhando melhor sua comédia.

Quem realmente brilha aqui é Taron Egerton, um rosto que você verá muito nos próximos anos, pois o rapaz está se tornando o novo queridinho de Hollywood e do cinema britânico por conta do sucesso estrondoso de Kingsman. Egerton não somente retrata o excêntrico Eddie, mas vive o personagem de fato. Pesquisando um pouco sobre Eddie, é inegável como o ator encarnou essa figura curiosa. A sobremordida, a mandíbula travada, o olhar ingênuo e pequenino, a expressão corporal contida, o sorriso torto, tudo está lá! É mágico ver um ator tão novo se dedicar a um papel que praticamente ninguém daria bola. Egerton torna Eddie em um protagonista muito divertido, um herói cheio de confiança e auto estima que nos conquista com poucas cenas e nos emociona com competência no clímax de sua história. A união com Jackman também enriquece pelo contraste, além de trazer características desconhecidas por muita gente sobre o esporte.

Na direção temos o completo desconhecido Dexter Fletcher, mas mesmo com essa aparente inexperiência, Fletcher conduz o filme com mão firme. Muito disso também vem da parceria acertada com a produção de Matthew Vaughn, um dos melhores diretores do Reino Unido.

Ele sabe manipular o clima de seu filme, ora dramático, ora de comédia, mas sempre com tom muito leve. Estabelece ciclos que vem desde a infância do personagem seja nas montagens divertidas do garoto “praticando” diversas modalidades olímpicas, na bonita relação com sua mãe ou no leve antagonismo com a figura amargurada de seu pai. Já no que tange à decupagem das cenas de ação, ele consegue capturar imagens do esporte através dos mais diversificados olhares. É de verdadeira riqueza visual quando vemos os atletas saltarem. Pontos de vista diversificados, câmeras subjetivas, travellings laterais ou frontais, panorâmicas, planos abertos, plano fechados, closes, planos detalhes e até mesmo um pseudo plano sequência para denotar a ação libertadora que um personagem supressivo assume em determinado momento – um dos melhores, aliás.

A preocupação dele com a linguagem visual é algo a ser observado, mas sua encenação raramente sai do óbvio, além de trabalhar com poucas metáforas visuais. Mas no geral, em cenas mais comedidas, é tudo muito adequado e correto. Ele respeita a linguagem clássica. Outros dois fatores que Fletcher brilha intensamente é no uso da montagem, principalmente nas de treinamento, e da música original absolutamente maravilhosa de Matthew Margeson. Na trilha licenciada, ele rende um momento piegas com o uso já manjado de You Make My Dreams de Hall & Oates.

Margeson se inspira nas batidas clássicas de 1980 repleta de sintetizadores e percussões características. Há, inclusive, certa vertente influenciada pela trilha histórica de Vangelis em Carruagens de Fogo. Não há um tema ruim, é tudo cheio de energia e de um otimismo fantástico. A música realmente eleva o filme ao refletir tão bem o espírito leve de Eddie, a águia. Nisso, entra o clímax onde todas as áreas do filme convergem com tanta sintonia que é impossível não se emocionar. Fletcher usa e abusa da preparação de expectativa, da orquestra do espetáculo, de diversos slow motions para dilatar a cena, elabora reaction shots de todos que assistem ao salto de Eddie, captura closes do herói em seu esforço digno de Ícaro e eleva a música, perfeita, ao último volume. O resultado disso tudo é de um magnetismo tão belo que nos envolve completamente. Prendemos a respiração, não piscamos, completamente vidrados, para ver Eddie concluir seu salto com sucesso.

Nas duas sessões em tive o prazer de conferir o longa, pude ter esse privilégio de ver algo tão belo dessa arte. De poder contemplar não só a glória da cena, mas como os outros espectadores tendo o mesmo êxtase, essa catarse tão rara, que o filme estava provocando em mim. Capturar completamente nossa atenção, nos trazer para um universo mágico cheio de vida e emoções genuínas que podem faltar no nosso cotidiano e pequenos dramas corriqueiros. Um momento realmente poderosíssimo que por si só já faz valer o ingresso.

É impossível ficar indiferente à Voando Alto. Mesmo com todos os seus clichês declarados, estereótipos e a previsibilidade de sua trama que trabalha na margem da segurança, o filme tem tamanha força em sua forma bem-sucedida de levar a emoção de seus espectadores às alturas. Algo que pouquíssimas obras conseguem de modo tão verdadeiro como este aqui provoca. Um ótimo divertimento que se relaciona muitíssimo bem com a história de vida de Eddie, a águia. Não é o melhor filme do gênero, assim como ele não era o melhor atleta, mas certamente é cheio de espírito tanto quanto seu protagonista sonhador apaixonado pelo esporte.

No fim, nesta proposta tão honesta vinda de seus realizadores, o que realmente vale é a experiência nada menos que fantástica que esse filme nos oferece, além de uma belíssima lição de vida que serve para diversos prismas: nunca ser maior que a montanha.

Voando Alto (Eddie The Eagle, USA, Reino Unido, Alemanha, 2016)
Direção:
Dexter Fletcher
Roteiro: Sean Macauley, Simon Keaton
Elenco: Taron Egerton, Hugh Jackman, Jo Hartley, Keith Allen, Edvin Endre, Iris Berben, Daniel Ings, Jim Broadbent, Christopher Walken
Duração: 106 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.