Crítica | Você Já Foi à Bahia?

“Quando você for para Bahia, meu amigo, você nunca retornará.”

A época da Segunda Guerra Mundial, e um pouco da sua pós, foi complicada para os estúdios Disney, que, no entanto, souberam se virar bem, produzindo filmes com menor valor de orçamento e concentrando-se em pacotes de curtas, os quais eram amarrados ou não, por uma veia narrativa, e lançados como longas-metragens. Em paralelo a isso, dois dos primeiros filmes dessa era tiveram um outro viés, mais político, contemplando a América Latina de uma forma amistosa, como aconteceu com Alô, Amigos e como acontece aqui, com a “sequência” Você Já Foi à Bahia?. Segue-se, portanto, uma política de boa vizinhança. Porém, além da temática, os filmes são independentes, com exceção do fato de Zé Carioca ter sido apresentado no antecedente animado de 1942. Para unir os vizinhos do sul e o todo-poderoso Estados Unidos, é de se estranhar que a escolha para representar essa aliança tenha sido o Pato Donald. Podendo ter ido para figuras mais fáceis de se simpatizar, como o galhofa Pateta e o sempre sorridente Mickey Mouse, Walt Disney deu ao seu resmungão personagem o papel de formar, junto com o gozadíssimo papagaio brasileiro e a mais nova adição à esta mitologia, o mexicano Panchito, The Three Caballeros. A escolha não poderia ter sido mais acertada.

Entretanto, mesmo tendo uma canção homônima desempenhada por essa trindade carismática, The Three Caballeros foi traduzido para Você Já Foi à Bahia? no Brasil. Uma tradução, no mínimo, equivocada, visto que apenas um segmento se passa na Bahia, o qual serve, “narrativamente”, apenas para reapresentar Zé Carioca (José Oliveira) para o público. Com o intuito de chamar mais público, é claro, um pouco dessa aura de recém-formado grupo, composto por personagens de três nações diferentes, se perde no título. Até mesmo o tempo e as produções animadas posteriores da Disney, na televisão e até mesmo no cinema (este segundo que, curiosamente, dificilmente colocaria como estrelas personagens já consagrados), deixaria de nos fazer lembrar e relembrar destes três cavalheiros, que apenas pelo que este filme de estreia mostra, denotam uma química imensa e exalam divertimento para os espectadores. Aliás, diferentemente de Alô, AmigosVocê Já Foi à Bahia? tem uma história mais bem definida, mesmo que esta seja simplérrima e apenas uma pretensão de storytelling a permitir que os curtas fluam organicamente. Sendo assim, a premissa é esta: o Pato Donald (Clarence Nash) está fazendo aniversário e seus amigos da América Latina lhe enviaram presentes, os quais incluem livros, pinhatas e até um filme. Relevando os termos de simplicidade máxima, o filme acaba errando no primeiro segmento, Aves Raras (inclui tanto O Pinguim Friorento quanto O Burrico Voador), levando em conta que este não faz conexão alguma com o que os demais representam: além de uma simples “homenagem” (exploração ou zombação, para os mais descrentes) à América, mas uma concreta interação de Donald com os seus camaradas do sul.

Já em termos técnicos, o longa decidiu misturar live-action com animação, tendo um resultado deveras impressionante nesse quesito. O contraste entre os desenhos e as gravações reais é de encher os olhos, apenas ficando problematicamente mais artificial em algumas partes nas quais Donald e companhia interagem para valer com as pessoas. Em apenas alguns destes momentos, no entanto, visto que a maioria funciona na medida do que se esperaria de uma técnica desta sendo utilizada ainda na década de 40, o que é majestoso. Nas danças, as quais, até um pouco exaustivamente, preenchem boa parte do longa, Zé Carioca, Panchito (Joaquin Garay) e o pato rabugento são pares mais que funcionais para artistas da época, como Aurora Miranda e Carmen Molina. Eles tornam-se parte dos cenários reais, e não meros adereços adicionados posteriormente. É muito gratificante ver a interação deles com os dançarinos em carne e osso, ainda mais, seguindo para a parte na qual o filme fica divertido e espirituoso de verdade, quando o Brasil novamente faz os nossos olhos se saltarem em uma animação da Disney, com Bahia nos enfeitiçando e nos questionando: por que ainda não fomos para lá? Talvez um pouco controverso, é nesse momento que vemos Zé Carioca e Pato Donald disputando os beijos de Aurora Miranda. Ambos correndo para ver quem encantaria primeiro a mulher, que no momento interpretava Os Quindins de Iaiá. Percebam, notavelmente, como Zé Carioca é caracterizado como um papagaio boa-praça, que, mesmo sendo empurrado por Donald, não fica irritado e ainda cria piada em cima da cobiça irrefreável do americano por uns beijos. Pode ser demais para um cartoon, mas é hilário.

De qualquer forma, Você Já Foi à Bahia? é erroneamente denominado Você Já Foi à Bahia? porque a maior parte do filme se passa em território mexicano, um cenário que se apresenta para nós após a introdução de Panchito Pistoles. Somos, dessa maneira, teletransportados para cidades como Pátzcuaro e Vera Cruz, todas dentro do segmento México, enquanto as visualizamos sobre um poncho voador. Se a perseguição à Aurora Miranda foi galhofa, esperem para ver Pato Donald no meio de várias garotas lindíssimas em Acapulco. É desastroso, mas bastante cômico. Mais para frente, o longa-metragem ainda dá espaço para que o personagem se comporte mais, e torne-se um apaixonado à moda antiga, fissurado por Carmen Molina e Dora Luz. Acima de tudo, o deslumbre  do espectador para com o filme está nas danças psicodélicas. É de se espantar o quanto os animadores ficaram fissurados nisto durante a confecção deste trabalho, abusando de tons de cores mais subversivos, incoerentes dentro de uma visão mais tradicional de animação. A sequência da visita de Walt Disney à América Latina, enfim, seria a última feita em um longa-metragem. Felizmente, é um package film da Disney que consegue ser amarrado por uma linha um pouquinho mais coerente, mesmo que nada incrível ou minimamente complexo. Você Já Foi à Bahia? mostra, assim como Alô, Amigos, que mesmo debaixo de panos pouco inspirados, os estúdios Disney conseguem tornar o convencional divertido e o realista mágico, além de claro, trazer uma gigantesca revolução na forma de se fazer animação. É uma imensa pena que não mais vejamos os três caballeros juntos com tanta frequência, apenas quando se foi conveniente uni-los. 

Você Já Foi à Bahia? (The Three Caballeros) – EUA, 1944
Direção: Norman Ferguson, Clyde Geronimi, Jack Kinney, Bill Roberts, Harold Young
Roteiro: Homer Brightman, Ernest Terrazas, Ted Sears, Bill Peet, Ralph Wright, Elmer Plummer, Roy Williams, William Cottrell, Del Connell, James Bodrero
Elenco: Aurora Miranda, Carmen Molina, Dora Luz, Sterling Holloway, Clarence Nash, Joaquin Garay, José Oliveira, Frank Graham, Fred Shields, Nestor Amaral, Almirante, Trío Calaveras, Trío Ascensio de Rio, Padua Hills Players
Duração: 72 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.