Crítica | Você Já Foi à Bahia?

“Quando você for para Bahia, meu amigo, você nunca retornará.”

A época da Segunda Guerra Mundial, e um pouco da sua pós, foi complicada para os estúdios Disney, que, no entanto, souberam se virar bem, produzindo filmes com menor valor de orçamento e concentrando-se em pacotes de curtas, os quais eram amarrados, ou não, por uma veia narrativa, posteriormente lançados como longas-metragens. Em paralelo a isso, dois dos primeiros filmes dessa era tiveram um outro viés, mais político, contemplando a América Latina de uma forma amistosa, como aconteceu com Alô, Amigos e como acontece aqui, com a “sequência” intitulada Você Já Foi à Bahia?. Segue-se, portanto, uma clara política de boa vizinhança, em que os latinos são amigos e não concorrentes dos americanos. Para frisar essa amizade improvável, existe um aspecto essencial a ser observado nestas produções. Para unir os vizinhos do sul e o todo-poderoso Estados Unidos, é curiosíssimo que a escolha para representar essa aliança tenha sido o Pato Donald. Podendo ter optado por figuras mais fáceis de se simpatizar, como o galhofa Pateta e o sempre sorridente Mickey Mouse, Walt Disney deu ao seu resmungão personagem o papel de formar, junto com o gozadíssimo papagaio brasileiro e a mais nova adição a esta mitologia, o mexicano Panchito, The Three Caballeros. A escolha não poderia ter sido mais acertada, fortalecendo laços.

A começar, mesmo tendo uma canção homônima desempenhada por essa trindade carismática, The Three Caballeros foi traduzido para Você Já Foi à Bahia? no Brasil. Uma tradução, no mínimo, equivocada, visto que apenas um segmento do filme se passa na Bahia, o qual serve, “narrativamente”, apenas para reapresentar Zé Carioca (José Oliveira) para o público. Com o intuito de chamar mais público, é claro, um pouco dessa aura de recém-formado grupo, composto por personagens de três nações diferentes, se perde no título. Até mesmo o tempo e as produções animadas posteriores da Disney, na televisão e até mesmo no cinema (este segundo que, curiosamente, dificilmente colocaria como estrelas personagens já consagrados), deixaria de nos fazer lembrar e relembrar destes três cavalheiros, que, apenas pelo que este filme de estreia mostra, denotam uma química imensa, exalando divertimento para os espectadores. Aliás, diferentemente de Alô, AmigosVocê Já Foi à Bahia? tem uma história mais bem definida, mesmo que esta seja simplérrima e apenas uma pretensão de storytelling a permitir que os curtas fluam organicamente. Sendo assim, a premissa é esta: o Pato Donald (Clarence Nash) está fazendo aniversário e seus amigos da América Latina lhe enviaram presentes, os quais incluem livros, pinhatas e até um filme.

Relevando os termos desta simplicidade máxima, nota-se que o filme já começa errando no seu primeiro segmento, Aves Raras. Incluindo tanto O Pinguim Friorento quanto O Burrico Voador, duas histórias independentes, o grande problema deste pedaço da história é que, no final das contas, ele não faz conexão alguma com o que os demais representam: além de uma simples “homenagem” (exploração ou zombaria, para os mais descrentes) à América, mas uma concreta interação de Donald com os seus camaradas do sul.

A outra costura, também esquecida nesse segmento, é em termos técnicos, em razão do longa ter decidido misturar live-action com animação, encarando um resultado deveras impressionante nesse quesito. Para variar, Aves Raras também independe do resto do filme nessa característica. Contudo, por falar nesta mistura, o contraste entre o fictício e o real é de encher os olhos, apenas ficando mais artificial em algumas partes nas quais Donald e companhia interagem para valer com as pessoas. Nas danças, as quais, até um pouco exaustivamente, preenchem boa parte do longa, Zé Carioca, Panchito (Joaquin Garay) e o pato rabugento são pares mais que funcionais para artistas da época como Aurora Miranda e Carmen Molina, tornando-se parte da cena, não meramente da cenografia. Quando o Brasil novamente faz os nossos olhos se saltarem em uma animação da Disney, Bahia nos enfeitiça e nos questiona: por que ainda não fomos para lá? Um pouco controverso, é nesse momento que vemos Zé Carioca e Pato Donald disputando os beijos de Aurora Miranda. Percebam como Zé Carioca é caracterizado como um papagaio boa-praça, que, mesmo sendo empurrado por Donald, não fica irritado e ainda cria piada em cima da cobiça irrefreável do americano por uns beijos. Pode ser demais para um cartoon, mas é hilário.

De qualquer forma, Você Já Foi à Bahia? é erroneamente denominado Você Já Foi à Bahia? porque a maior parte do filme se passa em território mexicano, um cenário que se apresenta para nós após a introdução de Panchito Pistoles. Somos, dessa maneira, teletransportados para cidades como Pátzcuaro e Vera Cruz, dentro do segmento México. Se a perseguição à Aurora Miranda foi galhofa, esperem para ver Pato Donald no meio de várias garotas lindíssimas em Acapulco. As atitudes do personagem são bastante desastrosas, mas extremamente cômicas, contrariando o apaixonado à moda antiga de momentos posteriores, fissurado por Carmen Molina e Dora Luz. Porém, acima de tudo, o deslumbre  do espectador para com o filme reside nas danças psicodélicas, abusando de tons de cores mais subversivos, incoerentes dentro de uma visão mais tradicional de animação. Desse modo, Você Já Foi à Bahia? mostra, assim como Alô, Amigos, que mesmo debaixo de panos pouco inspirados, os estúdios Disney conseguem tornar o convencional divertido e o realista mágico, além de trazer uma gigantesca revolução na forma de se fazer animação. É uma imensa pena que não mais vejamos os três caballeros juntos com tanta frequência, apenas quando se foi conveniente uni-los. 

Você Já Foi à Bahia? (The Three Caballeros) – EUA, 1944
Direção: Norman Ferguson, Clyde Geronimi, Jack Kinney, Bill Roberts, Harold Young
Roteiro: Homer Brightman, Ernest Terrazas, Ted Sears, Bill Peet, Ralph Wright, Elmer Plummer, Roy Williams, William Cottrell, Del Connell, James Bodrero
Elenco: Aurora Miranda, Carmen Molina, Dora Luz, Sterling Holloway, Clarence Nash, Joaquin Garay, José Oliveira, Frank Graham, Fred Shields, Nestor Amaral, Almirante, Trío Calaveras, Trío Ascensio de Rio, Padua Hills Players
Duração: 72 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.