Crítica | Você Nunca Esteve Realmente Aqui

Depois de Precisamos Falar Sobre Kevin, que também estreou no Festival de Cannes, Lynne Ramsay volta com uma obra ainda mais genial e idílica, e menos ufana. As relações comportamentais diretas entre pais e filhos continuam, as atuações precisas continuam e o roteiro equilibrado, feito para mostrar tudo que é preciso no menor tempo possível, também continua. Além de tudo, o que mais agrada em ver um filme como Você Nunca Esteve Realmente Aqui é sua estrutura toda estilizada, não somente a parte visual ou somente a sonora, são os dois juntos e as atuações também entram nessa. Na primeira cena o filme ganha o espectador, com um visual noturno e imagens construídas a partir de faixas de luz em pontos específicos, a música, como sempre, perfeita de Johnny Greenwood – por favor, leitores, ouçam as trilhas desse grande compositor, em especial essa e Phantom Thread – que carrega a mesma responsabilidade de ares experimentais coerentes do visual, mais a sensacional performance de Joaquin Phoenix como Joe – e a de um sujeito que só aparece para levar uma cabeçada dele, todavia uma ótima atuação.

Sem querer comparar muito com seus outros filmes, pode-se dizer que Ramsay atingiu seu ápice no quesito visionária, mesmo após um filme como Kevin que, além do público cult, pegou boa parte do mesmo público teen que assiste, digamos, 13 Reasons Why – uma série que, é bom ressaltar, tem acertadas influências do filme da diretora escocesa. Nessa história de veterano do exército americano que volta traumatizado e vira um assassino de aluguel ou algo do tipo, que já ouvimos mil vezes desde a era pós-Bush, somos pegos de surpresa por um material inesperado, afinal de contas o roteiro, certeiro, não entrega tudo de uma vez, todo um passado que define o universo psíquico do personagem nos é mostrado quanto mais nos é necessário saber sobre esse universo psíquico e, assim, toda a história nos vai ficando mais clara na construção de um quebra-cabeça de peças temporais e psíquicas do protagonista, e é mais ou menos tudo isso que importa no filme: montar o quebra-cabeça o expectador por si próprio. Algo muito bom de se fazer é assistir ao filme com mais pessoas, pois é garantida uma extensa conversa sobre as interpretações a respeito de Joe, e é a partir delas que sairão as interpretações temáticas do filme.

Uma das melhores coisas na trama de Você Nunca Esteve Realmente Aqui é falta de pudor em triturar moralmente aqueles que estão no poder. Jonathan Ames, escritor do livro em que se baseia o longa de Ramsay, de roteiro escrito por ela, não mede as circunstâncias ignominiosas e iniquidades nas quais colocará seus personagens políticos, envolvidos com todo tipo de distorção moral que existe: corrupção dos meios de uso da força (diga-se, a polícia), uso vil do poder, exploração do mundo dos narcóticos, redes de pedofilia com pequenos acordos de trocas das crianças uns com os outros, e por aí vai.

E deixar os políticos nus moralmente como essa história faz é inexistente hoje, numa época em que artistas se saem muito bem ao criticar um lado e conseguem destruir tudo com propaganda política para outro lado. Ramsay e Ames são altamente independentes de qualquer ideologia política – eles estão do lado do que é moral e observando aquilo que não é, nada fora isso importa – porque de fato são artistas independentes intelectualmente, deixando claro que não precisam de nenhum tipo de propaganda (ou auto propaganda), para nenhum lado, para se firmarem enquanto artistas bem resolvidos. E o assunto mesmo em pauta aqui é a violência extrema – sim, o filme é violento demais, estão avisados – sempre vetorizada pelos detentores de poder tirânico, existindo eles, em um mínimo exemplo, dentro de casa, como o pai de Joe, um dos maiores traumas de sua vida e espancador cruel de sua mãe, e, em máximo exemplo, os governantes.

Há muito de Kubrick, há muito de Cronenberg – a sequência na casa do governador há muito o que lembrar da sequência na casa do personagem de William Hurt em Marcas da Violência – e há algo de Kieslowski, mas, acima de tudo, há muito da pouco comentada no mundo do cinema (principalmente para o quanto deveria) Lynne Ramsay, e isso é um motivo de comemoração. É uma diretora moderna que não entende de pobreza artística nem se deixa cair pela rampa íngreme da propaganda política. De certo uma artista notável de nosso tempo e com Você Nunca Esteve Realmente Aqui deixa cravado um patamar de pulso artístico que não pode ser levado na brincadeira.

Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here) – Reino Unido, França, EUA, 2017
Diretor: Lynne Ramsay
Roteiro: Lynne Ramsay (baseado na obra de Jonathan Ames)
Elenco: Joaquin Phoenix, Ekaterina Samsonov, Dante Parreira-Olson, Judith Roberts, Vinicius Damasceno, Frank Pando, John Doman, Alex Manette, Edward Latham, Neo Randall, Larry Canady, Claire Hsu, Denis Ozer
Duração: 89 minutos

GABRIEL FERREIRA VIEIRA . . . Vivi em Recife por um longo tempo... até que eu fiz uma viagem para a Inglaterra dos anos 1990. Passei tanto tempo lá, ouvindo Radiohead em um apartamento melancólico, que nem lembro mais quanto foi. Depois voltei mais duas décadas no tempo e fui para o condado de Enfield (descobri que a casa lá era mal-assombrada mesmo). Quando já não dava mais de tanta depressão eu fui pra a Itália torcer para o Juventus e aproveitar o verão. Com essa turnê pelo mundo eu me senti preparado para começar a escrever...