Crítica | Vocês Ainda Não Viram Nada!

estrelas 4

Alain Resnais fez questão de repetir nas entrevistas que deu em Cannes, que seu novo filme (indicado à Palma de Ouro) era diferente de tudo o que ele já havia feito. Vocês Ainda Não Viram Nada (2012) é um drama teatral e farsesco sobre um dramaturgo que morre e convoca seus amigos mais próximos para a abertura de seu testamento. O mordomo da casa fica encarregado de receber os convidados e mostrar-lhes um vídeo gravado pelo patrão. Na película, o dramaturgo diz que todos os amigos ali presentes já interpretaram, em algum momento de suas vidas, algum papel em sua peça Eurydice e agora tinham a responsabilidade de julgar a proposta de uma Companhia Teatral que tinha a intenção de fazer uma nova montagem da peça.

Em tese, o filme é dividido em três mundos ou momentos cênicos específicos: a) o filme Vocês Ainda Não Viram Nada; b) a representação de Eurydice pela Companhia da Teatro; c) a representação da mesma peça feita pelos mesmos atores do item “a”.

Embora o último ponto possa ser considerado “parte corrente do filme”, ele representa um mundo à parte, não a vivência diegética de um grupo de amigos tristes por causa da morte de alguém que gostavam muito. Essa mixagem de elementos cênicos e mundos representativos é sem dúvida o grande atrativo da fita, e demonstra um admirável vigor na concepção cinematográfica de Resnais, um cineasta prestes a completar 91 anos de idade.

Um espectador desatento que porventura lesse a sinopse do filme provavelmente rejeitaria a proposta ou acharia chata demais a possibilidade de participar de um exercício fílmico desses. Ledo engano. Vocês Ainda Não Viram Nada pode parecer tedioso, mas há uma vitalidade tão assombrosa no filme e uma dinâmica cênica (teatral, mas não no sentido negativo a que geralmente se dá a essa nomenclatura no cinema), que é impossível ficar indiferente ao que se passa na tela. Conforme os atores recriam suas próprias versões de Eurydice e conforme o diálogo com a peça filmada no galpão é realizado, cria-se uma dualidade de mundos e possibilidades que mantém o público entretido e em constante exercício de reflexão.

Mas, para além da concepção narrativa meta-metalinguística, o filme apresenta uma escrupulosa concepção estética, da fotografia à montagem e trilha sonora, além da predominância em espaços internos, o que aumenta ainda mais a impressão de palco durante a projeção. É como se tudo fosse representação, farsa, peça, e no desfecho do filme, vemos claramente que essa intenção do diretor ganha pleno espaço. O que era embuste, se torna realidade. A linha divisória entre os mundos e espaços do filme ou das peças é muito sutil, e essa tênue concepção é percebida através de diversos truques, seja por mudanças de cenário, por diálogo com palco e tela ou por uma inteligente dinâmica de iluminação e montagem, com aparecimento e desaparecimento de personagens, o que adiciona a toda farsa um bem vindo toque sobrenatural.

O conteúdo nostálgico, a ligação entre a memória de um passado artístico ou dos primeiros amores se sobrepõem ao presente. Vemos claramente uma reflexão sobre a vida, a morte, as paixões arrasadores e uma forte crítica ao imediatismo da juventude contemporânea, que não sabe lidar com frustrações e buscam o prazer despreocupado a todo custo, sem se importarem com o passar da idade ou as dificuldades futuras da vida adulta. Um dos momentos mais marcantes da fita é quando Eurídice clama pela sua existência, implorando a Orfeu que não olhe para trás. O egoísmo se junta a uma anunciada paixão e a própria tragédia ganha outros contornos, se torna banal, uma parte de eventos cotidianos muito próximos de nós. Mais uma vez, a farsa se mistura à realidade.

O grande problema de Vocês Ainda Não Viram Nada está na sua finalização. Se durante todo o tempo Resnais foi parcimonioso em relação ao tempo, o final apresenta uma série rápida de acontecimentos isolados, de certa destacados de toda a trama (teatral e fílmica) abordadas anteriormente, o que acaba apagando parte do fulgor da obra. Todavia, mesmo com um final pouco atraente, e de certa forma, apartado da proposta estrutural do filme, a nova realização de Resnais é um belo exemplar de ligação entre duas grandes artes, e também, uma válida reflexão sobre as relações humanas (amorosas ou não) em tempos de desapego.

Vocês Ainda Não Viram Nada! (Vous n’avez encore rien vu) – França, Alemanha, 2012
Direção: Alain Resnais
Roteiro: Alain Resnais, Laurent Herbiet (com base em peças de Jean Anouilh)
Elenco: Mathieu Amalric, Pierre Arditi, Sabine Azéma, Jean-Noël Brouté, Anne Consigny, Anny Duperey, Hippolyte Girardot, Gérard Lartigau, Michel Piccoli, Denis Podalydès, Michel Robin, Andrzej Seweryn, Jean-Chrétien Sibertin-Blanc
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.