Crítica | Voltron: O Defensor Lendário – 1ª Temporada

estrelas 3,5

Os leitores que acompanham minhas críticas sabem que sou cria dos anos 80, talvez a década mais divertida em termos cinematográficos e televisivos de todos os tempos (qualquer discordância será ignorada…). No entanto, por alguma razão misteriosa, nunca me interessei por Voltron, série animada americana de 1984, produzida pela World Events Productions e Toei Animation, e exraída dos animes Beast King GoLion e Armored Fleet Dairugger XV. Não sei se foi minha ainda problemática relação com a estética anime ou se foi mesmo falta de oportunidade ou tempo, mas o fato é que o robozão formado por cinco robôs em forma de leão passou despercebido por toda minha infância e adolescência.

Eis que o Netflix, então, anuncia a aquisição da mais nova encarnação de Voltron, produzida pela Dreamworks Animation Television e pela mesma World Events Productions original, que ganhou o subtítulo O Defensor Lendário. Com 13 episódios de 23 minutos, sendo que os três primeiros costurados em um longa de 68 minutos, a série, comandada por Joaquim dos Santos e Lauren Montgomery (ambos com passagens pela DC Animation e também pelas séries Avatar: A Lenda de Aang e A Lenda de Korra), resgata Voltron de um limbo criativo que durava desde 1998, quando Voltron: A Terceira Dimensão foi lançado e mal recebido pelo público e crítica.

O resultado, confesso, é uma animação surpreendentemente satisfatória que funciona como um reboot de Voltron e que, melhor ainda, foge da estrutura batida e preguiçosa de episódios soltos e de “vilão da semana” que poderia macular a fluidez da série. O episódio triplo de abertura, por exemplo, é eficiente em encapsular toda a nova origem da equipe que pilotaria os cinco leões mecânicos gigantes, a apresentação da ameaça cósmica que eles passarão a enfrentar e, também, um pouco sobre a raça extraterrestre que aparentemente criou os formidáveis mechas. Temos um rápido prelúdio um ano atrás em Kerberos, uma das luas de Plutão, em que uma missão espacial da Terra dá muito errado depois que uma ameaçadora nave espacial sobrevoa o local, um corte para o presente em que somos apresentados aos cadetes Lance (Jeremy Shada), Pidge (Bex Taylor-Klaus) e Hunk (Tyler Labine) e, finalmente, a chegada de uma nave contendo o humano Shiro, um dos membros da expedição de Kerberos e a ajuda inesperada de um cadete expulso da academia, Keith (Steven Yeun ). Não demora e a ação já nos arremessa, via buraco de minhoca, para o Castelo dos Leões em Arus, onde encontram a Princesa Allura (Kimberly Brooks) e seu conselheiro real Coran (Rhys Darby), ambos mantidos em animação suspensa por 10 mil anos, desde que o maléfico Imperador Zarkon (Neil Kaplan), líder do Império Galra derrotou seu pai, o Rei Alfor (Keith Ferguson) de Altea.

Contando apenas uma história que parte da estrutura que brevemente descrevi acima, os episódios vão sendo encaixados cada um no anterior, revelando a preocupação dos showrunners em tornar crível a evolução dos cinco Paladinos (como Allura batiza os pilotos dos leões) em sua relação interpessoal e também em sua ligação e manuseio de seus respectivos leões e, claro, da formação de Voltron (há uma pouco ou nada explicada fusão entre tecnologia e magia). Assim, o espectador não deve esperar apenas a estrutura básica de “chega nova ameaça-Paladinos sofrem dificuldades-Paladinos formam Voltron-paz outra vez”. Há muita ação, mas ela não é completamente dependente dos enormes robôs felinos ou do gigantesco Voltron. Ao contrário, os melhores episódios são justamente os que fogem do uso fácil e óbvio do maquinário bélico e lidam com os personagens em si e outros que vão sendo apresentados na medida em que a temporada avança. Apenas para se ter uma ideia, em uma temporada relativamente pequena, considerando-se a duração dos episódios, cinco episódios são usados para formar um mesmo arco lidando com um planeta vivo chamado Balmera que produz valiosos cristais de energia. Em outras palavras, o trabalho de Joaquim dos Santos e Lauren Montgomery foi não só o de atualizar os personagens, como também a maneira como a animação é trabalhada, realmente bebendo da estrutura de animes recentes do próprio Netflix como Knights of Sidonia.

Como disse mais acima, apesar de não gostar da estética de animes em geral, com reações exageradas, olhos esbugalhados e bocas abertas, não posso culpar a série por isso. Houve uma clara tentativa de se manter os ares da série original, usando a computação gráfica para trabalhar as sequências de batalha e as tomadas das naves espaciais, incluindo o próprio Voltron. Há, como é comum neste tipo de animação, muita repetição de sequências, além de poucos detalhes de fundo, notadamente em sequencias com muitos personagens que não se mexem se não estiverem em primeiro plano. Não chega a ser desagradável completamente, mas certamente um cuidado maior teria feito bem ao trabalho aqui. O mesmo vale para as conveniências de roteiro como “código de cores” nas roupas batendo com as cores dos leões, as personalidades e formas corporais de cada personagem também refletindo a “personalidade” dos leões e assim por diante. Mas isso era muito comum na década de 80 e, como essas conveniências só ficam mesmo salientes no episódio triplo inicial, elas não atrapalham muito o resultado final.

Voltron: O Defensor Lendário é divertimento certo tanto para os saudosistas que adoravam Voltron quanto para quem simplesmente gosta de animes e/ou histórias com robôs gigantes (impossível não gostar de robôs gigantes, não é mesmo?). O cuidado no storytelling por parte dos showrunners é visível e faz valer a temporada.

Voltron: O Defensor Lendário – 1ª Temporada (Voltron: Legendary Defender, EUA, 10 de junho de 2016)
Showrunner: Joaquim dos Santos, Lauren Montgomery
Direção: Joaquim Dos Dantos, Lauren Montgomery, Kihyun Ryu, Eugene Lee, Steve In Chang Ahn, Chris Palmer
Roteiro: Tim Hedrick, Joshua Hamilton, May Chan (baseado em série original de 1984)
Elenco (vozes originais): Steven Yeun, Jeremy Shada, Bex Taylor-Klaus, Josh Keaton, Tyler Labine, Kimberly Brooks, Rhys Darby, Keith Ferguson, Neil Kaplan, Cree Summer, Jake Eberle
Produtora: Dreamworks Animation Television, World Events Productions
Disponibilidade no Brasil (à época da elaboração da crítica): Netflix
Duração: 68 min. (primeiro episódio), 23 min. (cada um dos 11 episódios restantes)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.