Crítica | Voltron: O Defensor Lendário – 4ª Temporada

– Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

O excelente reboot de Voltron distribuído pelo Netflix ganhou sua quarta temporada pouco mais de dois meses depois da terceira, mas isso só se o espectador cair no “truque barato”. Afinal de contas, cada uma das duas primeiras temporadas da série teve 13 episódios, com a terceira ganhando sete e a quarta apenas seis para um total “coincidente” de 13 episódios. Ou seja, um temporada foi dividida em duas.

Mas isso não interessa de verdade. O que realmente é necessário saber é se algo mudou em razão disso. E a resposta é não. Voltron: O Defensor Lendário mantém sua surpreendente qualidade, contando um único macro-arco que, segundo informações iniciais, será composto de um total de 78 episódios, o que significa dizer que, se os planos não mudarem, chegamos exatamente à metade da história.

E é exatamente isso que parece com a evolução da quarta temporada. Não só a divisão de uma temporada em duas foi bem feita, com dois mini-arcos razoavelmente auto-contidos, como efetivamente vemos uma história em franca progressão, ainda que esses seis episódios sejam, no conjunto, mais fracos do que os sete que os antecederam. Mas chegarei nos aspectos negativos em breve, pois prefiro começar pelos positivos.

O primeiro deles é a interessante “dança das cadeiras” dos Paladinos de Voltron. Agora, com Allura não só como a princesa em seu castelo, mas no comando do leão azul, nós podemos vê-la no meio da ação mais constantemente, o que permite que o comecinho desta temporada seja focada nas dúvidas do soturno Keith sobre ser ou não ser o líder da equipe, no comando do poderoso leão preto, antes pilotado por Shiro que, agora, é o estrategista que fica nos bastidores da ação.

Ainda que nem todas essas modificações no status quo durem para sempre, elas funcionam para alavancar a narrativa e para colocar Keith em um interessante papel duplo como Paladino e agente do Lâmina de Marmora, já que ele sente seu aparente legado Galra o chamando. É uma pena, porém, que pelo menos aqui seu prometido aproveitamento como infiltrador seja menos aproveitado do que os primeiros episódios prometem, com sua mencionada missão de longo prazo sendo acelerada para dar espaço a um evento apoteótico que tem o condão de alterar o curso da guerra intergalática para acabar com a ditadura Galra iniciada por Zarkon.

Pidge, por sua vez, finalmente tem seu arco sobre a busca sobre sua família semi-encerrado. Sem revelar o que acontece, basta dizer que ela tem o segundo episódio integralmente para ela, em uma bela, ainda que previsível aventura com seu leão verde. A personagem solidifica sua importância para o grupo não só como a mente brilhante em basicamente tudo, mas também por suas habilidades físicas muito claramente demonstradas aqui, que abrem espaço para mais evolução ainda para ela.

Do lado do inimigo, é bom ver a volta de Zarkon, ainda que ela não seja muito bem explicada. Usando uma armadura que parece sustentar sua vida, o Imperador decide tomar as rédeas de seu Império novamente, afastando seu filho Lotor do comando. Mas, mais do que isso, Zarkon sai em uma caçada insana pelo príncipe, depois que descobre sua tentativa de manipular a quintessência inter-realidades. Confesso que Zarkon enfurecido atrás de Lotor é até interessante, mas não em detrimento de tudo o que ao mesmo tempo acontece por seu Império em franca fragmentação. Claro, há um belo plano maior engendrado pela sinistra bruxa “alteana” Haggar que nos leva a um clímax cheio de ação, mas com um final que, diria, é um tanto quanto fácil demais.

Lotor, como fugitivo, é a calma em pessoa, algo que perfeitamente mantém seu personagem dentro daquilo que aprendemos a esperar dele. Sempre cabeça fria e com planos que ainda não conhecemos, o príncipe é um inimigo formidável que não tem alianças muito bem definidas. Espero, apenas, que seu personagem não seja “simplificado” a partir da próxima temporada.

Já começando a entrar na zona cinzenta entre o bom e o fraco (não há nada realmente ruim na temporada), temos a completa ausência de desenvolvimento de Hunk, o Paladino Amarelo e de Lance, o Paladino Azul. Os dois são relegados a segundo, talvez terceiro plano, com alívios cômicos mal pensados e mal trabalhados. Afinal, nessa categoria, para o mal ou para o bem, temos Coran e seus insuportáveis trejeitos e exageros histriônicos que conseguem quebrar o tom da série toda vez que ele aparece.

E é aí que entram os problemas um pouco mais sérios desta temporada. Há um foco muito grande na comicidade aqui, algo ainda mais evidente pela existência de apenas seis episódios, com um deles – The Voltron Show! – sendo exclusivamente dedicado a transformar os Paladinos e os robôs em palhaços de circo depois que Coran passa a ser controlado por um verme no cérebro que muito me lembrou aqueles usados por Khan em Jornada nas Estrelas II. E o pior é que a comédia rasgada no estilo anime (que, como já tive oportunidade de comentar antes, jamais me agradou) não fica circunscrita ao episódio, sendo forçada em quase todos os demais de maneira, diria, mais contundente e intrusiva.

No entanto, as qualidades da série continuam a sobrepujar em muito seus problemas. É sempre um deleite ver o cuidado e a criatividade da produção na criação de novos alienígenas – aqui, temos uma hilária raça que se parece com um cabo de vassoura(!!!) – de naves e especialmente de planetas. O esmero realmente chega a surpreender pela variedade que acaba evitando as famosas repetições usadas em animações desse tipo.

Mesmo com uma “semi” temporada mais fraca do que as mais recentes, Voltron: O Defensor Lendário continua firme e forte como uma saga sci-fi em animação que merece toda nossa atenção. Há uma grandiosidade e ambição narrativa que confere à história contornos realmente profundos e marcantes, que agradarão adultos e crianças igualmente.

Voltron: O Defensor Lendário – 4ª Temporada (Voltron: Legendary Defender, EUA, 13 de outubro de 2017)
Showrunner: Joaquim dos Santos, Lauren Montgomery
Direção: Eugene Lee, Steve In Chang Ahn, Chris Palmer
Roteiro: Tim Hedrick, Mitch Iverson, Joshua Hamilton, Rocco Pucillo (baseado em série original de 1984)
Elenco (vozes originais): Steven Yeun, Jeremy Shada, Bex Taylor-Klaus, Josh Keaton, Tyler Labine, Kimberly Brooks, Rhys Darby, Keith Ferguson, Neil Kaplan, Cree Summer, A.J. Locascio
Produtora: Dreamworks Animation Television, World Events Productions
Disponibilidade no Brasil (à época da elaboração da crítica): Netflix
Duração: 23 min. (cada um dos seis episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.