Crítica | Voltron: O Defensor Lendário – 5ª Temporada

– Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

A estratégia da Netflix de quebrar o que seria uma temporada de 13 episódios em duas, uma de seis, outra de sete episódios, é vencedora. Torna tudo muito fácil e agradável de assistir e reduz o intervalo entre cada nova temporada, especialmente considerando que os showrunners, em razão dessa escolha, têm conseguido criar, desde a 3ª temporada, quando isso começou, arcos bem definidos em cada metade, aumentando a sensação de satisfação do espectador. Agora só falta o canal de streaming criar o botão “pular transformação”, na mesma linha do “pular introdução”, pois ninguém aguenta mais a sequência padrão em que os cinco leões tornam-se um robô gigante…

De toda maneira, a série continua firme e forte, já começando um tempo indefinido depois dos eventos finais da temporada anterior em que Lotor finalmente faz contato com os Paladinos, salvando-os no último segundo. Sem perder tempo, o episódio inicial, O Prisioneiro, estabelece que o filho de Zarkon vem ajudando os esforços liderados pela princesa Allura, Lâmina de Marmora e a coalizão de ex-escravizados pelo cada vez mais fragilizado Império Galra. Com suas informações privilegiadas que Lotor entrega como forma de ganhar a confiança dos heróis, Voltron tem grande facilidade em destruir alvos estratégicos pela galáxia, solidificando ainda mais a “virada de mesa” contra as forças imperiais milenares.

Lotor é, portanto, peça-chave da temporada e, conscientemente, muito do tempo de cada um dos seis episódios é usado para conectar o aparentemente ex-vilão com os Paladinos, com ele começando preso em uma cela de energia e acabando ao lado de Allura descobrindo a terra mítica interdimensinal de Oriande, berço da alquimia Alteana. O caminho de uma ponta a outra é lógico e bem sustentado, ainda que, talvez, um pouco rápido demais. Lotor, um formidável oponente tanto do pai quanto dos Paladinos, mostra-se bonzinho demais ao ponto de levar qualquer um à desconfiança, com os roteiros espertamente trabalhando essa dúvida e plantando uma interessante semente no episódio final, O Leão Branco, onde o vemos revelar seu eu verdadeiro no plano astral da cidade mágica sem que, porém, a dúvida seja dissipada completamente.

Claro que, porém, a forma como Lotor elimina – em tese completamente – seu pai da equação, em um combate simples demais, fácil demais, incomodou. Zarkon passou grande parte das temporadas anteriores em coma e, ao final da imediatamente anterior, ganhou um armadura que, como percebemos em Duelo de Sangue, nem é tão poderosa assim, apesar de parecer ameaçadora. O fim de Zarkon empalado por seu filho pareceu-me uma saída fácil demais para um personagem tão poderoso e tão venerado. O outro lado da moeda, no entanto, é o conflito interno que a ausência do imperador gera no que resta do Império Galra, com os mais diversos pretendentes ao trono digladiando-se em Kral Zera, o episódio quatro. São bons momentos de combate e, principalmente de uso de Lotor reclamando o trono, Shiro enfrentando seus colegas para ajudar o pretendente a imperador e também de Keith, como espião do Lâmina de Marmora em plena missão de infiltração e destruição.

Outro elemento que já vinha sendo discretamente explorado há algum tempo e que ganha mais destaque nesta temporada é o “controle” (por falta de palavra melhor) de Shiro por Haggar, algo que fica sem resolução aqui, mas que certamente terá grande relevância ao longo dos 33 episódios que restam com base na encomenda de um total de 78 pela Netflix. Aliás, Haggar também começa a assumir um papel mais interessante e insidioso, ainda que tenha sido uma surpresa para mim Lotor, tão inteligente, não saber que ela é a mãe dele mesmo depois que Allura chega a essa conclusão pesquisando os arquivos da velha bruxa alteana.

E aqui chegamos ao ponto mais fraco da temporada, que substitui o problema da comicidade exacerbada da anterior: as intermináveis questões envolvendo parentesco. Se a procura de Pidge por seu irmão e pai é algo que vinha sendo construído desde a primeira temporada, com encerramento agora com o resgate do pai, o mesmo assunto envolvendo Keith e sua mãe galra é um bis in idem que narrativamente parece forçado e, em última análise, desnecessário. Sim, sua linhagem galra já havia ficado bastante explícita quando ele conseguiu manejar a lâmina que utiliza, mas daí a ele ser enviado para resgatar justamente sua mãe foi um salto lógico irrazoável e conveniente demais. Além disso, há a já citada questão da maternidade de Lotor e o receio que me bateu de que inventem depois de dizer que Altea e toda sua população, inclusive e especialmente o pai de Allura, não foram destruídos e estão escondidos em algum lugar do multiverso. Se começarem a caminhar para esse lado de final feliz absoluto, a série perderá grande parte de seu charme.

Voltron: O Defensor Lendário continua sendo uma animação sci-fi de alto gabarito e que realmente merece atenção dos espectadores, sejam os mirins, sejam os mais velhos. Ainda há um bom caminho pela frente, mas, se os showrunners forem honestos com o que estabeleceram até aqui, a jornada tem enorme potencial.

Voltron: O Defensor Lendário – 5ª Temporada (Voltron: Legendary Defender, EUA, 02 de março de 2018)
Showrunner: Joaquim dos Santos, Lauren Montgomery
Direção: Chris Palmer, Eugene Lee, Steve In Chang Ahn
Roteiro: Eugene Son, Joshua Hamilton, Todd Ludy, Mitch Iverson, Mark Bemesderfer, Tim Hedrick (baseado em série original de 1984)
Elenco (vozes originais): Josh Keaton, Steven Yeun, Jeremy Shada, Bex Taylor-Klaus, Tyler Labine, Kimberly Brooks, Rhys Darby, Neil Kaplan, Cree Summer, A.J. Locascio
Produtora: Dreamworks Animation Television, World Events Productions
Disponibilidade no Brasil (à época da elaboração da crítica): Netflix
Duração: 23 min. (cada um dos seis episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.