Crítica | Voltron: O Defensor Lendário – 6ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Independente de qualquer outra consideração, a 6ª temporada de Voltron: O Defensor Lendário será lembrada com a que faz os véus todos caírem de uma vez. Em apenas sete episódios – seis, se desconsiderarmos Monstros e Mana, claro – identidades são reveladas, traições acontecem, povos perdidos reaparecem, armas novas surgem e planos malignos são descobertos e isso sem deixar a ação esmorecer.

Aliás, muito ao contrário, ação é o que não falta, com batalhas espaciais muito bem coreografadas e, mais do que isso, longas e detalhadas, com a última então, robô gigante vs robô gigante sangrando de um episódio para o outro. Em outras palavras, é a temporada de virada, que marca o que parece ser o começo do fim, considerando, especialmente, que o projeto inicial é de uma série de 78 episódios e que, se isso não for alterado (e espero que não seja, por uma questão de coesão narrativa), significa que faltam, apenas, mais 26 para chegarmos ao fim.

Os dois pontos nodais da temporada são Haggar e Lotor. Os dois jogam jogos de longo prazo, cada um com seu objetivo específico e que conflitam entre si. Haggar, que finalmente é oficialmente revelada como a versão distorcida de Honerva, esposa alteana de Zarkon e mãe de Lotor. Não é uma surpresa e há lógica considerando o quanto a bruxa se valia de magia, algo que o povo de Allura dominava profundamente. No entanto, o roteiro não suaviza a revelação e mostra toda a frieza da bruxa que não mais lembra a mulher que fora e não nutre mais sentimentos maternos – ou quaisquer sentimentos – por Lotor. A quintessência a corrompeu profundamente e, ainda que seja previsível que em algum momento chave a personalidade de Honerva virá à tona, fato é que a série não tem tornado isso simples ou óbvio.

O que não ficou completamente claro, ainda, é o plano final de Haggar. Sim, ela aparentemente quer solidificar e ampliar o Império Galra, mas não há um caminho muito claro para isso até agora. Sua captura de Lotor deu a entender que ela queria manter-se na sombras e usar o filho como herdeiro ao trono sob seu controle, mas, com a recusa dele, ela, agora, parece sozinha nessa sua estratégia. Mas é esse mistério que, provavelmente, manterá acesa a chama da série até seu final.

Do lado de Lotor, chega até a ser engraçado – e artificial – a forma como o personagem é abordado nos dois primeiros episódios, com um exagero de suavidade que chega a ser risível. Faz parte, de certa forma. Lotor quer justamente tornar a eventual descoberta de seu verdadeiro plano pelos Paladinos algo que será plenamente justificado pelo seu amor distorcido pela cultura alteana. Trata-se de um vilão que não sabe (mesmo) que é um vilão e que justifica os meios em razão de fins que ele vê como absolutamente justificáveis e justos.

Mas poucos espectadores poderiam deduzir que meios afinal eram esses e qual era o grande segredo de Lotor. A revelação de que ele, ao longo dos milênios, ele reuniu os alteanos sobreviventes e os escondeu de seu pai em um paraíso idílico em meio a um nexus espaço-temporal vem como uma surpresa interessante que serve de prelúdio para a aterradora revelação de que ele também vinha sugando a energia vital – a quintessência – de milhares deles para suas pesquisas escusas. Com isso, o nível de vilania que vimos em Zarkon ao longo de várias temporadas é completamente relativizado, colocando o tirano quase que como um deus benevolente diante das ignomínias secretamente cometidas por seu filho por milhares de anos. Lotor ganha seu devido lugar entre um dos mais terríveis vilões de animações só por isso e vejam bem: ele só descamba para a loucura total ao final desta temporada, pelo que tudo o que ele fez antes carrega uma lógica fria e calculista que ele tenta explicar e justificar como “um mal menor” para a Princesa Allura. Confesso que não esperava algo tão sombrio e sinistro assim nesta série e, assim como o nível de vilania de Lotor foi devidamente “atualizado”, o nível de seriedade da série também foi.

Aliás, falando em seriedade, é interessante notar como a temporada é particularmente séria, com a comicidade típica da série ficando restrita quase que exclusivamente ao citado episódio Monstros e Mana, que coloca nossos heróis em meio a um jogo de RPG. Confesso que gostei muito da escolha dos showrunners, considerando as revelações aqui trabalhadas. A veia cômica exagerada de anime (que desgosto, confesso), com isso, fica reduzida e não quebra a imersão necessária para o tratamento de questões complexas e estarrecedoras.

Aliás, essas questões também envolvem a forma bem trabalhada como o passado de Keith é revelado em detalhes, com sua mãe podendo viver com ele por dois anos em uma distorção temporal no lombo de uma “baleia espacial” de proporções gigantescas. Uma belíssima forma de permitir a aproximação dos dois e de nos contar a história pregressa sem o uso de flashbacks aleatórios. E o mesmo vale para a revelação final do controle mental de Shiro por Haggar e, mais do que isso, a descoberta, por Keith, de que seu amigo e mentor morrera e que sua essência fora fundida ao Leão Preto. A maturidade que Keith alcançou ao longo das temporadas primeiro como membro da Lâmina de Marmora e agora com seu tempo com sua mãe resultam em um personagem bem mais profundo e interessante e cujo crescimento deságua justamente na sua relação com Shiro, com direito a um emocionante final em que Allura faz a transferência da essência do líder do grupo ao corpo clonado (com direito à mudança na cor do cabelo para isso ficar bem marcado daqui para frente).

Eu poderia continuar saudando a temporada por sua coragem em realmente alterar o status quo, com o enlouquecimento completo de Lotor, a quase derrota de Voltron, a destruição do Castelo dos Leões e a indicação de que a ação, agora, envolverá finalmente a Terra. Mas o espectador que viu a temporada percebeu o que ela fez com seu material, pavimentando um futuro com enorme potencial para o fim de uma série que vem se revelando realmente épica.

Voltron: O Defensor Lendário – 6ª Temporada (Voltron: Legendary Defender, EUA – 15 de junho de 2018)
Showrunner: Joaquim dos Santos, Lauren Montgomery
Direção: Chris Palmer, Eugene Lee, Steve In Chang Ahn, Rie Koga
Roteiro: Mitch Iverson, Joshua Hamilton, Mark Bemesderfer, Joaquim dos Santos, Tim Hedrick (baseado em série original de 1984)
Elenco (vozes originais): Josh Keaton, Steven Yeun, Jeremy Shada, Bex Taylor-Klaus, Tyler Labine, Kimberly Brooks, Rhys Darby, Cree Summer, A.J. Locascio
Produtora: Dreamworks Animation Television, World Events Productions
Disponibilidade no Brasil (à época da elaboração da crítica): Netflix
Duração: 23 min. (cada um dos sete episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.