Crítica | Voltron: O Defensor Lendário – 7ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Em sua penúltima temporada, Voltron: O Defensor Lendário volta para o formato original de 13 episódios, o que, conforme promessas, será repetido na próxima. Mesmo assim, o que ganhamos dos showrunners Joaquim dos Santos e Lauren Montgomery são, essencialmente, duas meia temporadas claramente marcadas, a primeira com os Paladinos viajando pelo espaço para chegar à Terra e, depois, a batalha efetiva em nosso planeta contra os Galra comandados por Sendak.

Aos mais apressados, seria perfeitamente razoável concluir que todos os seis primeiros episódios da temporada não passam de “enrolação”, já que eles, narrativamente, pouco acrescentam à história como um todo. Sem o Castelo dos Leões e com os próprios leões quase sem energia depois da luta com Lotor na dimensão da quintessência, os Paladinos, Shiro, Coran, Romelle, Krolia e e o pequeno zoológico que eles têm (e que inclui uma vaca, claro) buscam combustível (Uma Aventura Minúscula), enfrentam células fragmentadas dos Galra (A Volta para Casa e O Próximo Passo) e descobrem, para sua surpresa, que três anos se passaram desde que derrotaram o filho de Zarkon. O tempo perdido é explicado pela passagem temporal diferente na dimensão onde permaneceram brevemente, conceito que já havia sido introduzido no episódio em que Keith finalmente reúne-se com sua mãe.

Nesse período, o Império Galra, sem liderança, fragmentou-se em facções e a Lâmina de Marmora desapareceu (As Ruínas). Depois dos percalços iniciais que estabelecem as premissas básicas da temporada, o grupo parte com os leões – que não conseguem formar Voltron em razão da falta de energia – pelo espaço para chegar à Terra em uma viagem que levaria um ano e meio. Os episódios dedicados a essa viagem são propositalmente lentos e os showrunners, como fizeram na temporada anterior, inserem um capítulo “louco”, mas que desta vez funciona bem por estar mais fluidamente inserido no contexto dessa primeira metade de temporada (A Disputa!). Nele, os Paladinos, inexplicavelmente, encontram-se em um programa de auditório de perguntas e respostas em que disputam o “prêmio” com Zarkon e companhia. É sem dúvida um desvio completo na história, mas toda essa viagem de volta é repleta de momentos WTF que trabalham bem a relação entre os Paladinos e deles com seus leões, ainda que volta e meia os roteiros carreguem pesadamente na conveniência, como quando Shiro diz que seus colegas precisam trabalhar na união entre eles e, “magicamente”, uma situação absurda é criada para que justamente isso aconteça (A Jornada Interna).

Quando eles inevitavelmente estão para chegar à Terra, a temporada começa a ficar ainda mais interessante, com dois episódios inteiros dedicados a flashbacks que explicam o que aconteceu, durante esses três anos, com Sam, pai de Pidge, de volta à Terra, algo que acontece na temporada anterior. Em A Resistência Final – Partes Um e Dois, a narrativa costura tanto o passado pré-1ª temporada quanto os acontecimentos que vimos serem desdobrados diante de nossos olhos e os eventos paralelos na Terra que aprendemos somente aqui, com Sam capitaneando uma transformação tecnológica na base aérea comandada pela Almirante Sanda. Fica a clara impressão de que a temporada poderia muito bem ter começado a partir deste ponto, mas a grande verdade é que o “banho-maria” anterior ajuda a construir melhor a relação entre todos os personagens, inclusive demonstrando a importância do “lobo cósmico” de Keith, colocando-os em papéis bem definidos ao longo da jornada que tornam esses flashbacks ainda mais relevantes e a efetiva volta dos Paladinos à Terra (em Conheça Seu Inimigo), completamente dominada pela facção dos Galra comandada pelo impiedoso Sendak, mais urgente e mais tensa.

E o melhor é que não há solução fácil como, por exemplo, em Independence Day. O que vemos a partir da reunião de todos em nosso planeta é uma sucessão de batalhas e missões impossíveis, com Sendak sempre um passo a frente e, melhor ainda, pouquíssimo uso dos leões, o que exige roteiros mais elaborados que fogem do lugar-comum estabelecido pela série. Esse frescor todo, que inclui a introdução de quatro novos cadetes que pilotam os únicos aviões construídos a partir da tecnologia trazida por Sam e de Verônica, a valente irmã de Lance. É quase um soft reboot da série, com direito a tentativa de resgate, viagens para coletar mantimentos, a descoberta de uma resistência humana aos Galra e, aos poucos, a reunião de pistas sobre o plano final de Sendak para os Paladinos e a Terra.

Quando finalmente os leões e Voltron são usados novamente em toda sua glória, inclusive com novos poderes e habilidades, a temporada já está em seus momentos finais, com uma excepcional batalha tática em Uma Nobre Alcateia de Lobos – Parte Um funcionando como o melhor clímax que se poderia esperar para toda a situação montada e, talvez, o melhor momento “pancadaria total” em toda a série até agora. Não há dúvidas que Sendak será derrotado, mas isso nunca esteve em jogo. A questão é que, mesmo sabendo disso, os episódios que nos levam ao clímax e o clímax em si sabem trabalhar bem a construção de tensão, com direito até mesmo a momentos emocionantes, como o da expiação dos pecados de Sanda e a fuga dos leões mentalmente controlados pelos Paladinos a partir do cárcere. Muito mais do que uma série sobre um robô gigante, vemos coração e fibra em cada roteiro de Voltron: O Defensor Lendário, com um design de produção e uso de CGI chegando ao seu ponto alto.

Deixei a Parte Dois de Uma Nobre Alcateia de Lobos propositalmente por último, não só por ele ser o derradeiro episódio da temporada, como, também, por ser o mais estranho. Imediatamente depois da pancadaria épica contra Sendak, um poderosíssimo robô chega à Terra para enfrentar Voltron. Considerando que há mais uma temporada pela frente e que seria impensável encerrar a série sem que os Paladinos enfrentassem pelo menos Haggar – mas provavelmente Lotor também – mais uma vez, o que traria o desfecho circular à série, seria de se imaginar que alguma ponta solta ficasse nessa linha. No entanto, no lugar de pelo menos pincelar essa possibilidade ao longo da temporada, os showrunners tiram do nada o tal robô que, lógico, terá algum tipo de ligação com os referidos personagens maléficos. Portanto, o que temos é mais uma bela demonstração técnica de animação, com belíssimos combates robóticos, mas que parecem vazios e redundantes depois dos esforços empreendidos por todos ao longo dos episódios. E o pior é o uso completamente forçado de deus ex machina com Shiro transformando a IGF-Atlas, enorme nave de combate construída por Sam, em um mega-mecha sem que sequer a chegada dessa monstruosa máquina signifique a derrota do robô-ninja, algo que só vem pela espada de Voltron um pouco depois.

Em outra palavras, o 13º episódio está deslocado na temporada primeiro por não ter sido anunciado – indiretamente, claro – ao longo de sua progressão e, segundo, por parecer o começo de uma nova temporada e não o final de uma. Como disse, era importante haver um gancho para a volta de Haggar e/ou Lotor (gostaria muito que fossem os dois), mas ele não deveria ter sido tirado da cartola mágica de Joaquim dos Santos e Lauren Montgomery. É quase como, em uma maratona, estar disparado na frente durante 41 quilômetros e tropeçar faltando 100 metros para a linha de chegada.

Mesmo assim, a 7ª temporada (juntamente com a anterior e com a ) é a melhor desta série que, surpreendentemente, cresceu vertiginosamente em escopo e qualidade e que desde logo deixará saudades quando seus próximos 13 episódios finalmente forem ao ar (em novembro de 2018, vale lembrar). Isso, claro, se todos os 78 episódios não forem “apenas” um longo prólogo para uma nova fase de aventuras.

Voltron: O Defensor Lendário – 7ª Temporada (Voltron: Legendary Defender, EUA – 10 de agosto de 2018)
Showrunner: Joaquim dos Santos, Lauren Montgomery
Direção: Eugene Lee, Michael Chang, Rie Koga
Roteiro: May Chen, Mitch Iverson, Joshua Hamilton, Mark Bemesderfer, Tim Hedrick, Rocco Pucillo
Elenco (vozes originais): Josh Keaton, Steven Yeun, Jeremy Shada, Bex Taylor-Klaus, Tyler Labine, Kimberly Brooks, Rhys Darby
Produtora: Dreamworks Animation Television, World Events Productions
Disponibilidade no Brasil (à época da elaboração da crítica): Netflix
Duração: 23 min. (cada um dos 13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.