Crítica | Volver

“Lição que aprendi: a Vida é tão cheia de luz, que olhar é demasiado e ver é pouco. É por isso que fecham os olhos aos mortos. E é o que faço ao meu marido. Lhe fecho os olhos, agora que o seu sangue se espalha, avermelhando os lençóis”

Os Olhos dos Mortos, de Mia Couto

Não há dúvidas de que o nome de Pedro Almodóvar se tornou uma das maiores grifes do cinema mundial. Acusado no início da carreira de abusar de um estilo exagerado e até kitsch, o espanhol só conseguiu consagração internacional com a comédia de 1988 – Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. Depois dela, viriam outros filmes importantes e que consolidaram um verdadeiro fetiche pelo estilo almodovariano, que se tornou praticamente um novo gênero de cinema, misturando dramas rasgados, ironia afiada e alívios cômicos peculiares. Seus dois filmes mais aclamados continuam sendo o sensibilíssimo Tudo Sobre Minha Mãe e o aterrador Fale com Ela e, embora eu considere que o culto à figura do espanhol passe dos limites em alguns momentos, impedindo que se vejam problemas flagrantes em alguns de seus filmes (como no ridículo Os Amantes Passageiros e no claudicante Abraços Partidos), é notável a capacidade de Almodóvar de magnetizar seu público. Seus filmes movimentam o mundo do cinema e assim foi no ano de 2006 com o lançamento de Volver, estrelado por Penélope Cruz e Carmen Maura.

Volver é um Almodóvar inequívoco. Nele, o cineasta passeia pelo território sobre o qual sempre demonstrou domínio e que o levou a produzir alguns de seus melhores filmes – o universo feminino e os conflitos sexuais nele implicados. As cores berrantes estão lá, a trilha sonora continua reverberando o drama de cada cena e os acentos melodramáticos, embora menos numerosos, não deixam de se fazer presentes no estilo gestual e cheio de meneios com que Almodóvar constrói seus personagens. Mas, dessa vez, o espanhol assume a tarefa de desfiar um tema mais amargo que o habitual – o abuso sexual de meninas. A história de Raimunda (Penélope Cruz), sua filha Paula (Yohana Cobo) e sua mãe Irene (Carmen Maura) resgatará o tom popular, de oralidade e coloquialismo, das narrativas que o cineasta ouvia na juventude, quando morava na região de La Mancha. O próprio Almodóvar declarou que inseriu no roteiro de Volver diversas falas de sua mãe, que lhe contava essas histórias locais.

Seu longa-metragem faz uma junção bem sucedida entre o popular e o canônico. O espanhol importa para as narrativas populares de La Mancha a tradição das histórias de fantasmas. A presença da mãe de Raimunda, descoberta pela irmã Sole (Lola Dueñas), traz certo tempero trágico, presente em Shakespeare ou, pensando ainda mais longe, em Ésquilo. A personagem Irene ocupa o ponto central de toda a trama. Interpretada lindamente por Carmen Maura, marcando uma reconciliação entre atriz e diretor, ela aparece como elemento transformador em um contexto de crise (como os fantasmas de Dario, em Os Persas e do rei da Dinamarca, em Hamlet). Mas em Volver, a figura fantasmagórica da personagem de Maura é dada ao riso e ao humor. Ri com as filhas de suas memórias mais prosaicas. Há uma deliciosa cumplicidade entre as três, que Almodóvar consegue captar bem.  As gerações não se atritam e a revelação que Irene trará apenas espelha os acontecimentos dramáticos envolvendo Raimunda. Em Volver, as dores femininas são como as tradições locais – elas se repetem. Como tragédias anunciadas.

Em Almodóvar, o feminino surge em uma dualidade interessante. Na cena de abertura, as mulheres do vilarejo dedicam-se a limpar as lápides dos túmulos de seus maridos – uma  tradição longeva demais para ser recusada. Por outro lado, a pequena cidade é descrita como aquela em que as mulheres vivem sempre mais que os homens. Sobrevivem ao tempo, enquanto seus maridos sucumbem a ele. As figuras femininas aparecem maiores que as masculinas, mesmo cingidas pelos ritos de uma sociedade tão tradicional e religiosa, e isso fica bastante sublinhado pela personagem Raimunda quando ela assume o assassinato do marido. Seu comportamento não comporta culpa. Ela não é inquirida em nenhum momento sobre seus atos nem convocada a confessar seu crime. O filme não deixa lastro para imaginarmos que a protagonista poderia ter feito outra escolha. As mulheres de Volver fazem o que lhes reclama o destino. Matam, se preciso for.  É importante pontuar que o filme não pensa eticamente as suas questões e esperar isso dele é perder de vez a sintonia com seu tom e sua proposta.

O masculino surge apequenado e anódino. Estancado pelas próprias tradições. Ocorre, no longa-metragem, o oposto do que se encontra no belíssimo conto O Afogado Mais Bonito do Mundo, do colombiano Gabriel García Marquez. Se o corpo grandioso do homem morto, trazido pelo oceano a uma pequena vila litorânea, mostra-se capaz de modificar toda a estrutura de um povoado, em Volver, a morte dos homens é opaca e secundária. O filme pouco se preocupa, por exemplo, em tratar do destino dado ao corpo do padrasto e ainda mais interessante é o fato de que o próprio público passa a se preocupar pouco com a questão. Volver se envereda por outros rumos e consegue fazer o espectador embarcar em seu caminho. O roteiro, escrito pelo próprio espanhol, é eficaz. Convence e não deixa arestas por aparar. Seu ponto de revolução não é o surgimento fascinante do cadáver de um homem, como no conto de García Marquez, mas seu desaparecimento insólito e completamente improvisado.

O filme de Pedro Almodóvar contem vários dos maneirismos que consagraram seu estilo. Há cenas visualmente belíssimas, como aquela em que o sangue encharca a toalha no chão, em um plano detalhe cheio de expressividade. O vermelho-sangue do diretor espanhol se espalha por toda a tela, ideia que reaparecerá no vermelho pulsante da abertura de seu mais recente trabalho – Julieta. Outro momento realmente memorável traz o tango Volver, de Carlos Gardel, em uma vigorosa interpretação da personagem Raimunda, mas aqui com as cores do flamenco. Engana-se quem pensa que o longa-metragem apenas repete antigas fórmulas. Ele é mais pesado em sua carga dramática e mais sério em sua temática, sem deixar de recorrer à comicidade quando lhe parece adequado. Volver não é um Almodóvar requentado. Tem vida própria. É Almodóvar em boa forma e fazendo o que dele se espera.

Volver – Espanha, 2006
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Penélope Cruz, Carmen Maura, Lola Dueñas, Yohana Cobo, Blanca Portillo, Chus Lampreave, Antonio de la Torre, Maria Izabel Díaz, Neus Sanza, Carlos Blanco
Duração: 121 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.