Crítica | Voo 714 para Sydney

estrelas 3

A fase final da carreira de Hergé foi marcada por um grande número de experimentações narrativas no estilo de escrita dos dos roteiros, algo mais próximo de uma experiência cinematográfica ou mesmo de adaptação das histórias para a TV, coisas que o próprio Hergé presenciou ainda em vida. Essa presença mais forte de uma grande cadeia de eventos começou a ser plantada pelo autor no díptico Rumo à Lua / Explorando a Lua, álbuns com roteiros mais longos, coragem de trabalhar termos técnicos difíceis e equilíbrio entre gêneros internos à história, hora indo mais pelo lado da ação, hora do humor, hora do mistério e assim por diante.

Depois do exercício assumido em As Joias da Castafiore, Hergé parece ter sido tomado pelo espírito de deixar histórias insolúveis no ar, algo que não era muito o seu estilo e que se repete de alguma forma neste Voo 714 para Sydney, uma verdadeira jornada no melhor estilo “James Bond para adolescentes”, cujo início brilhante dá lugar a um final insosso, com a incursão de uma trama alienígena que acabou por estragar a história, desviar a atenção do leitor para um evento de importância questionável e que não tem a cara do autor ou mesmo de Tintim.

Tendo acompanhado a leitura dos álbuns de Hergé cronologicamente, tive a oportunidade de perceber não só o seu crescimento pessoal como também seu amadurecimento na escrita e arte, algo que se reflete não só no aumento no número dos detalhes por quadros nos álbuns a partir dos anos 50 (ou final dos anos 40, quando temos o início da mudança), mas também numa melhor distribuição dos acontecimentos pelas páginas, chegando a diagramações que conseguem acelerar e diminuir consideravelmente o nosso ritmo de leitura, algo que não é todo artista que consegue fazer de maneira fácil e divertida como o autor. Mas à medida que vamos nos aproximando de Tintim e a Alfa-arte, temos a impressão de que a preocupação do autor com o público foi dando lugar a um divertimento muito pessoal seu, algo que gerou obras fantásticas como Tintim no Tibete e As Joias da Castafiore, mas também nos levou a algo como este Voo 714.

Quando começamos a ler o álbum e temos todas aquelas ótimas cenas no aeroporto, depois, no avião do Sr. Carreidas, o sequestro, o embate “verdadeiro” entre Carreidas e Rastapopoulos, tudo isso é bastante divertido e nos faz pensar que a história terminará com algo mais ou menos na linha do humor e aventura, porém, a coisa começa a desandar a partir do momento em que Tintim passa a ouvir vozes e guia seu grupo para a caverna, onde encontram aqueles desenhos parecidos com os Dogus japoneses. A mudança radical no conteúdo do texto, mesmo tendo como ponto de ligação o Professor Girassol e sua detecção extraordinária, não foi bem vinda, porque descaracterizou o bom trabalho do autor até aquele momento.

Ainda bem que a arte não sofre dos males dessa mudança e o roteiro não deixa de perder a graça, mesmo no verborrágico final com as entrevistas na televisão.

Embora não termine bem e não tenha um desenvolvimento totalmente elogiável, Voo 714 para Sydney é uma aventura curiosa de Tintim e com certeza traz muito pana para discussão entre os tintinófilos, já que é um dos álbuns mais queridos do público em geral e um dos mais criticados pelos mais chatos (como eu), do outro lado. 

As Aventuras de Tintim – Voo 714 para Sydney (Vol 714 Pour Sydney) – Bélgica, 1968
Roteiro: Hergé
Arte: Hergé
Editora: Casterman

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.