Crítica | Voo 7500

estrelas 3

Quando um diretor em início de carreira nos entrega um produto de qualidade ruim ou regular, não ficamos surpresos, inclusive tendemos a exaltá-lo no segundo caso. Já quando o nome por trás da produção tem um grande currículo, incluindo sucessos como O Grito, até a decepção de, no final das contas, vermos mais do mesmo tem um peso extra.

É o que acontece em Voo 7500, com direção do japonês Takashi Shimizu. Na trama, o referido voo deixa Los Angeles rumo a Tóquio com 273 passageiros e com previsão de dez horas de duração. Mesmo durante o embarque, começamos a perceber vestígios de um problema recorrente em histórias focadas em um grande número de pessoas, principalmente em um espaço limitado, como num avião.

O problema é: qual é o argumento que leva a história a concentrar seu foco em figuras específicas em meio às 273 e deixar todas as demais de fora, como meros figurantes? Claro, uma coisa é a impossibilidade óbvia de se dar o devido foco a tanta gente, outra totalmente diferente é justificar devidamente a escolha daqueles que desempenharão um papel relevante. Voo 7500 só deixa esse argumento mais ou menos claro na sua conclusão. Até lá, conflitos como o vivido pelo casal Brad e Pia Martin (Ryan Kwanten e Amy Smart, respectivamente) poderiam acontecer em um barco, em um carro ou em inúmeros outros veículos e ambientes, sem tanta gente injustificada ao redor, e são conflitos totalmente desconectados do problema central na maior parte do longa.

Sim, o problema central começa com a morte súbita e inexplicável de um dos passageiros, após uma aparente crise asmática. A partir de então, iniciam-se estranhos eventos dentro da aeronave. Sem dúvida, essa tensão crescente, fruto de uma força, ou de forças que desconhecemos, em um ambiente claustrofóbico, é o ponto alto do filme. A trama constrói essa atmosfera aos poucos, sem pressa, nos engajando em uma complicação após a outra. A trilha sonora, embora conte com poucos momentos marcantes, também contribui, alternando com precisão entre a discrição e a ênfase de suas faixas – destaque para o seu uso durante uma sequência de turbulência.

Apesar do elenco, que também cumpre bem o seu papel, o roteiro cai na familiar pressa em seu último ato, nos forçando a engolir uma mitologia que, tal como é mencionada, parece ter simplesmente saído da manga de alguém. Aleatória, embora verdadeira, que mais uma vez poderia ser tão facilmente substituída por qualquer outra entidade ou demônio, visto que não foi construída aos poucos, acompanhando a narrativa, mas simplesmente é atirada no nosso colo nos instantes finais.

Terminado o longa, fica a experiência de um trabalho interessante em seu desenvolvimento, mas pouco firme em sua base, mais um trabalho que vende um peixe sem tê-lo no estoque. Com um final que também peca pela falta de originalidade – a ideia da conclusão já é um clichê sem tamanho -, é mais um filme regular e decepcionante.

Voo 7500 (7500, EUA/Japão – 2014)
Direção: Takashi Shimizu
Roteiro: Craig Rosenberg
Elenco: Ryan Kwanten, Amy Smart, Leslie Bibb, Jamie Chung, Scout Taylor-Compton, Nicky Whelan, Jerry Ferrara, Christian Serratos, Alex Frost, Rick Kelly
Duração: 97 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.