Crítica | Voo Noturno (2005)

A memória é um esquema complexo. Mesmo que a política de segurança dos Estados Unidos seja uma das maiores em todo o mundo, a presença das imagens fatídicas do 11/9 será eterna para todos os passageiros em aeroportos estadunidenses. O terrorismo ganhou uma visão espetaculosa dentro do esquema realista, demonstrando que as explosões e acrobacias no ar não fazem parte apenas do reduto cinematográfico. O choque entre os aviões e as torres gêmeas é prova cabal disso. Voo Noturno, lançado em 2005, é um filme que traz à tona estas memórias, mesmo que no plano metafórico.

Wes Craven, com toda sua competência no gerenciamento de uma produção, consegue transformar o roteiro engessado de Carl Ellsworth em um filme além do básico, o que garante doses generosas de suspense e ação, sem perda do rigor estético e da construção inteligente da narrativa. Com mote que lembra muito Tempo Esgotado, de John Bodham, adrenalina audiovisual protagonizada por Johnny Depp, Voo Noturno traz uma protagonista em apuros: Lisa (Rachel McAdams), uma gerente de hotel em Miami, que acabara de voltar do enterro da avó no Texas e passará por uma situação inusitada e alucinante.

No aeroporto, Lisa amarga o atraso do seu voo. Ela opta pelo os estadunidenses chamam de “red eye”, um tipo de voo financeiramente mais em conta e que sempre ocorre nas madrugadas. Durante os momentos de espera, conhece Jack Rippner (Cillian Murphy), um homem aparentemente sedutor que lhe convida para uma bebida passageira, e pasmem, aparecerá ao seu lado na cabine do avião. Eles vão viajar lado a lado. Tudo parece uma dessas coincidências da vida, mas é aí que Lisa tem a infelicidade de descobrir que Jack é um “subversivo” que planeja um ataque terrorista para atacar Charles Keefe (Jack Scalia), um Chefe de Segurança do governo que está hospedado na cobertura do hotel que ela gerencia.

As opções são poucas. Ou Lisa liga para a Cynthia (Jayma Mays), a sua assistente, e solicita o comando, ou então, Jack acionará um capanga que está do lado de fora da casa do seu pai (Brian Cox), pronto para utilizar uma faca recém-afiada. Dividida com a situação inesperada, Lisa sofre pressão psicológica e física num voo que parece interminável.

Dinâmico e bastante sensual em sua atmosfera, o filme é bem conduzido, principalmente nas cenas internas durante o voo. Os diálogos e a tensão construída são interessantes. Após o pouso, o filme ganha o fôlego comum aos quatro filmes da franquia Pânico. São saltos que fazem tropeçar, janelas quebradas, lutas corporais e uma mulher assumindo o comando das coisas e enfrentando uma batalha física, psicológica e simbólica para sobrepor-se diante da situação machista e opressora na qual está envolvida.

Suspense cheio de dinamismo e com ótimos desempenhos de seus personagens, Voo Noturno conta com a montagem sempre eficiente de Patrick Lussier e a condução musical de Marco Beltrami. Com apenas 85 minutos, o filme ganha potencial graças ao trabalho do designer de produção Bruce Allan Miller, responsável por limitar o espaço físico e reforçar o duelo psicológico proposto pelo roteiro de Ellsworth.

Cheio de bons momentos, o filme não foi bem recebido por parte da crítica por estar engessado no padrão Syd Field de narrativas do cinema. Observe a apresentação dos personagens: a criança solitária e corajosa, a idosa gentil, um garoto com uma caneta que funcionará no final da história, dentre outros personagens e objetos esquemáticos que deixam tudo atado para que não haja nada para o público interpretar ou refletir. Tudo é entregue e esquematizado de um jeito que causa a padronização. Isso não é necessariamente um problema que estraga a diversão e o potencial estético, tampouco as discussões que o filme suscita, mas poderia deixar sim algumas coisas numa zona que permitisse uma participação maior do espectador de maneira inteligente e imersiva.

Outro “porém” do esquema “Syd Field de qualidade” é a protagonista que se defende com todas as forças porque tem um trauma no passado. São mulheres que já sofreram abusos físicos, psicológicos, simbólicos, em algo que parece ser uma padronização que surge constante. Basta lembrar de Jodie Foster em O Silêncio dos Inocentes e Sandra Bullock em Cálculo Mortal, mulheres que seguem a mesma linha de construção de personagem traumatizada, salvas, obviamente, as devidas proporções comparativas.

Além do que foi apontado, Voo Noturno é, também, um filme símbolo dos Estados Unidos pós 11/9. Ele resgata parte da paranoia que se estabeleceu entre os estadunidenses no que diz respeito aos vocábulos “avião” e “terrorismo” numa mesma sentença. Convenhamos, não é para pouco. O “atentado espetáculo” organizado para chamar bastante à atenção, chocar e demonstrar a fragilidade interna de uma nação tão hegemônica foi erguido como um show de proporções cinematográficas, tal como os apocalípticos Armageddon, Independence Day, etc. Para o artista plástico britânico Damian Hirst, o acontecimento mudou nossa linguagem visual. Arrisco a acrescentar que também moldou.

Outros filmes sobre terroristas e meios de transportes claustrofóbicos já ilustraram páginas de roteiros de muitas produções hollywoodianas, mas nenhum dos antecessores ao fatídico evento de setembro de 2001 teve a mesma proporção simbólica que Voo Noturno, Plano de Voo, Sem Escalas, Voo United 93, etc. Nunca antes o vilão árabe teve tanto significado. Os ataques que previam destruir a simbologia econômica (World Trade Center), militar (Pentágono), política (Casa Branca/Capitólio) não foi um sucesso, pois alguns dos focos foram tentativas fracassadas, mas onde conseguiu alcançar a meta fez um estrago dos grandes. A dimensão é tão extensa que ainda hoje é um tema polêmico, tendo impactado todo o mundo, não sendo diferente com as artes.

Voo Noturno (Red Eye – Estados Unidos, 2005)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Carl Ellsworth
Elenco: Rachel McAdams, Cillian Murphy, Kyle Gallner, Laura Johnson, Carl Gilliard, Brian Cox, Jayma Mays
Duração: 85 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.